Renda ou patrimônio?
Essa semana, li um artigo muito bom do excelente blog Vida de Pobretão, que é escrito por um de nossos leitores que de vez em quando comentam nossos posts. O blog é muito bem humorado, e embora o autor seja pessimista quanto às possibilidades de alguém vir a ser um empregado feliz, com um estilo de vida minimamente adequado, há muita coisa a ser ensinada. É o caso do artigo que pretendo discutir hoje, intitulado “O que importa é o fluxo de caixa e não o tamanho do patrimônio“.
O que é mais importante? Ter uma boa renda ou um patrimônio elevado?
A tese do artigo é simples e direta: vale mais ter uma boa renda do que um patrimônio grande? Segundo o Vida de Pobretão, valeria mais à pena ter uma boa renda do que um bom patrimônio. Essa tese é defendida a partir do seguinte exemplo: imagine a situação de dois investidores. O primeiro investidor tem um patrimônio de R$ 1.500.000,00 cuja carteira gera de renda R$ 67.500,00 por ano (rendimento de 4,5% ao ano), ou R$ 5.625 por mês. O segundo investidor tem um patrimônio menor, de R$ 700.000,00, mas que gera uma renda de R$ 70.000,00 por ano (rendimento de 10% ao ano), ou R$ 5.833,33 a cada mês.
A conclusão é simples e direta: em melhor situação está o investidor que tem menos patrimônio, mas cuja renda gera um rendimento maior.
À primeira vista, a conclusão é esta mesmo: quem gera um rendimento maior tem uma carteira de investimentos melhor do que quem tem uma renda menor. É por essa razão que o Vida de Pobretão acredita que não faz sentido nenhum alguém investir em small caps, ETFs ou em ações de empresas como a Ambev: afinal, small caps ou empresas como a Ambev pagam em média dividendos ruins e ETFs nem pagam dividendos diretamente ao investidor, já que reinvestem os proventos na compra de novas ações para o ETF, reincorporando-as no valor da cota.
Ante a essas premissas, a conclusão do blog Vida de Pobretão é a de que o ideal é investir em empresas que paguem bons dividendos e em fundos de investimento imobiliário com bons aluguéis, que paguem um yield alto.
Não confunda curto prazo com longo prazo: o ideal é ter uma boa renda com um patrimônio elevado!
Mas será que essa conclusão é adequada? De minha parte, acredito que não: ao menos não totalmente. O texto do Vida de Pobretão traz uma questão interessantíssima, mas o enfoque não deveria opor de maneira tão simplista a construção de uma boa renda de um lado ou de um patrimônio elevado de outro.
Uma maneira mais produtiva de enxergar a questão é saber em qual o estágio de investimento o investidor se encontra. Ele está no início da carreira, tem um bom salário e um emprego estável, e não irá utilizar a renda gerada por seu patrimônio nos próximos anos? Ou ele já está no final de carreira, com o risco de vir a ser demitido e não encontrar mais nenhum emprego, com grande possibilidade de ter que precisar da renda gerada por seu patrimônio ao longo dos próximos meses? São situações muito diferentes e que exigem uma abordagem muito diferentes nos dois casos. Receitar o mesmo remédio para os dois é rumar para o fracasso certo.
O ideal é projetar uma situação financeira tal que possibilite tanto (i) um patrimônio elevado quanto (ii) uma boa renda. O melhor dos dois mundos? Sim, mas construí-lo é possível, desde que o investidor tenha em suas mãos tempo e uma carteira de investimentos adequada. Ou seja, infelizmente eu não estou escrevendo para o sujeito que já está no final da carreira e precisa urgentemente da renda gerada por seu patrimônio. Nessa situação, ele precisa fazer exatamente o que o blog Vida de Pobretão indica: esquecer a idéia de construir um patrimônio grande demais e se concentrar na geração de renda. Isso garantirá uma volatilidade menor no seu patrimônio e, além disso, assegurará a segurança financeira de que o investidor precisa.
Mas… se estamos falando de alguém que está na primeira metade da carreira, acredito que a abordagem indicada pelo blog pode ser equivocada. Nessa fase, o investidor precisa se concentrar na construção de um patrimônio elevado. A renda gerada por ele não importa agora, se ele conseguir gerar uma evolução patrimonial adequada. E, para isso, ações como a Ambev ou small caps são essenciais. A Ambev pode não pagar um dividend yield fantástico, mas o crescimento apresentado por ela ao longo dos anos tem assegurado que o valor dos dividendos pagos a cada ano seja maior do que o valor pago no ano anterior, em média. Várias small caps podem não pagar muito dividendo, mas reinvestem seus lucros e, com isso, conseguem crescer a taxas elevadas.
Com o passar dos anos, esse investidor pode passar a se preocupar mais com a geração de renda do que com o crescimento do patrimônio. Digamos que, após 20 anos, nosso bravo investidor, que se manteve firme investindo em small caps e em empresas como a Ambev, tenha conseguido gerar um patrimônio de R$ 1.500.000,00, com um yield de 4% ao ano. Nada impede que, a partir daí, ele decida vender essas ações e passar a investir em outras empresas/modalidades de investimento que garantam uma renda maior. Caso ele decida compor um patrimônio que renda um yield anual de 10% ao ano, ele teria R$ 150.000 por ano (R$ 12.500 ao mês) de renda gerada por seu patrimônio. Bem melhor que os exemplos citados pelo Vida de Pobretão!
Como identificado pelo blog de nosso amigo, de fato há uma decisão a ser tomada: aplicar recursos em investimentos que se apreciam muito, mas pagam poucos proventos (aluguéis, juros, dividendos), ou em investimentos que se apreciam pouco, mas pagam muitos proventos? De minha parte, acredito que o ideal não é enxergar essa decisão como única, mas sim como uma sequência de dois estágios: no primeiro estágio, o investidor médio, com segurança no seu emprego, deveria aplicar seus recursos em investimentos com maior possibilidade de apreciação; e, em um segundo estágio, deveria migrar aos poucos para investimentos com maior yield, que possam garantir uma renda maior. Isso não significa, evidentemente, que o investidor deva aplicar seus recursos apenas em ações; isso tudo pode ser feito com uma carteira de investimentos diversificada de acordo com o seu perfil.
Para finalizar, preparei uma simulação entre duas situações. Na primeira, o investidor aplicaria R$ 20.000,00 por ano em um investimento cuja renda gerada equivaleria a 4,5% do patrimônio, todos os anos, mas cujo valor patrimonial cresceria à taxa de 14% ao ano. Na segunda situação, a renda gerada seria maior, de 10% ao ano, mas com um crescimento patrimonial menor, de 6% ao ano. Nas duas situações a renda gerada seria reinvestida até o ano 20, quando então o investidor alocaria todo o seu patrimônio em uma carteira que resultasse em 10% ao ano de renda, e então passaria a usufruir dela. Com essas premissas, os cálculos seriam os seguintes:

Nessa situação, teria valido mais à pena investir nos primeiros 20 anos em uma carteira mais arrojada, que resultasse em menos dividendos no início, mas em um patrimônio maior. Como você pode ver, mesmo alocando o recurso após 20 anos em uma carteira mais conservadora, a renda mensal gerada seria significativamente maior – 40% maior, para ser mais exato. Obviamente, o ideal seria que mesmo na fase de “aproveitar” o patrimônio o investidor alocasse uma parte da renda para reinvestir no seu patrimônio e garantir uma proteção contra a inflação, mas acredito que os cálculos mostram o meu ponto.
Aproveito para salientar que minha crítica é pontual; gosto muito do blog Vida de Pobretão e, embora não concorde com tudo o que lá está, o considero um blog muito bom que, com sua irreverência, já é point obrigatório para quem busca um ponto de vista diferente sobre educação financeira.
Categoria: Educação financeira







Belo Post….
Tbm penso desta forma… Primeiro Acumular Capital/Patrimonio
e depois… pensar em fluxo de caixa..
Belo Post Fabio !!!
Abraços
Muito interessante o post. Havia visto o do Probretão também. Há muito o que se pensar sobre o que foi dito em ambos.
Estou iniciando minhas aplicações em ação e questiono, o ideal não seria, independente do momento em que se esteja, montar um carteira equilibrada, no sentido de se optar por ações que paguem bons dividendos e ações que proporcionem uma elevação alta de patrimônio!?
Na verdade essa diferença não ficou muito clara para mim. Ações que elevam meu patrimônio e ações que me trazem bons dividendos não se equivaleriam, no final das contas?
Não faço muita distinção: procuro investir em empresas com maiores retornos (crescimento+yield).
Fábio, não vou comentar o post, mas sim pedir que você recoloque aquele quadro com os últimos comentários realizados. Ele é utilíssimo.
Eu acho que vale a pena considerar que os dividendos gerados a cada ano sejam investidos no papel para aumentar a posição e o patrimônio, integralmente. Se a empresa não tem um crescimento patrimonial tão alto mas paga gordos dividendos, reaplicando em ambas situações, será que o patrimônio no final do prazo não seria equivalente ou vantajoso para a empresa que distribui mais dividendos? E tem que se considerar o fato do imposto de renda na migração da carteira com alto crescimento patrimonial para aquela que gere mais fluxo de caixa no final. Acho que tu podia simular essa situação, Fábio. Porque pelo o que eu entendi na tua postagem, os dividendos não foram reaplicados.
Pedro, eu considerei esse efeito – tanto em um caso quanto no outro, os proventos foram considerados como sendo reaplicados.
Fala, Fábio!
Este conceito é IMPORTANTÍSSIMO!
Digo…. já falei que é importante?!
Eu já havia escrito sobre isso no meu post sobre Aposentadoria com Dividendos.
Para aqueles que estão construindo patrimônio, os ganhos de capital e a rentabilidade patrimonial são importantíssimos.
Já para aqueles que estão pretendendo usar o patrimônio para gerar renda, é importante encontrar altos DY, que tendam a ser relativamente estáveis e ganhem da inflação.
Muito é falado sobre o Patrimônio, mas pouco se fala do Fluxo de Caixa.
Mas no final, quem paga a conta de luz é o fluxo de caixa. Caso contrário, seria necessário depreciar o patrimônio, o que ninguém quer (pelo menos de forma não planejada). hehehehe
Grande abraço!
obs.: esse captcha vive dando erro comigo; costumo usar o Chrome
acho q se fica desmarcado o “Assine nossa newsletter”, tá dando erro do captcha!
Fábio, não teria sido melhor simular valores de rentabilidade iguais? Por exemplo, vc começa com Renda de 4,5%aa + Crescimento Patrimonial de 14,5%. Por que não o mesmo para o segundo caso: Renda de 14,5% e Crescimento patrimonial de 4,5%aa?
Esses valores aí acima são meio irreais. Sugeriria no segundo caso, renda de 10% com crescimento patrimonial de 5% por exemplo. E no primeiro, então, 10% de crescimento patrimonial com 5% de dividendos
Tive a impressão que vc meio que forçou os resultados…
Bruno,
1) Um crescimento patrimonial de ações em um portfólio razoável, em média, de 14,5% ao ano, é factível.
2) Conseguir uma renda de 14,5% ao ano, nas circunstâncias atuais, é bastante improvável.
Bruno,
Corrigindo pelo dólar, o Ibovespa de 1963 até hoje subiu a taxas de 14,3%.
O Ibovespa, com várias empresas ruins!!!!!!!!
Não há nada de impossível em termos nominais.
[]s!
Grande Fábio, muito legal que trouxe o tema do meu blog para seu site e fez uma das suas análises bem calculadas.
Olha contra números não há argumentos e no exemplo é verdade que o cara que foi nas small caps e nas mais arrojadas se deu melhor que o dividendista que adotou a estratégia do pobretão way of life.
Uma questão que porém que me traz a tona é a rapidez e agonia do pobretão em se aposentar logo e sair da corrida dos ratos. Isso daria aí 12 anos o que pode significar que aquelas small caps que ele investiu ainda não cresceram o suficiente para se tornrem middle a large caps.
Além do mais creio que as small caps qualquer sopro vão para o buraco enquanto as dividendistas são em teoria mais seguras e resistem melhor a turbulências.
Muito legal, com essas análises os pobretões poderão cada vez mais lutarem para largarem seus empregos terríveis.
Penso da mesma forma de alguns colegas, primeiro acumular um montante razoável com algumas empresas que tendem a render mais, pagando menos dividendos, para somente depois migrar uma boa parte para “vacas leiteiras”. De qq forma, mesmo hoje eu tendo conciliar as duas coisas, tenho valid, ohlb e algumas outras que têm bom potencial de valorização e pagam bons dividendos.
Elétricas só depois.
Tomara que no ano 20 o mundo não passe por uma crise e que as empresas sejam realmente boas para crescer a uma media de 14% descontando a inflação
Em q momento ele falou 14% acima da inflação?!
Esse 14% é nominal…
Detalhe,
não precisa ser small cap para crecer, vide Ambev, BB, Vale, Itaú
que bom que percebeu o que eu quis dizer ^^
respondi em comentario errado, era pro dimarcinho no meu comentario anterior
Parabéns Fábio por mais um excelente artigo!
Minha resposta foi instantânea: o ideal é ter os dois, ou melhor busca um sem prejudicar o outro.
Mas vi que logo adiante você deixa isso bem claro
grande abraço, apareça lá Blog!
Tetzner.wordpress.com
FIIs, Ações e muito mais!
Excelente Artigo Fábio,
Esta é uma questão interessante a ser repensada: renda x patrimônio.
Um abraço,
Guilherme da Luz
Fabio, o que vc acha de FI que priorizam ações com dividendos altos? Tenho a impressao de que sao menos volateis, estou certo?
Fábio, boa tarde, não entendi a colocação empresa como Ambev. O que significa?
Obrigado, um abraço.
Moacir, a expressão usada pelo blog “Vida Ruim de Pobre” indica empresa que tem apresentado grande crescimento de lucro, mas paga um baixo dividend yield.
Com certeza as duas coisas são importantes. Se combinadas então, temos um cenário confortante. Mas com uma boa renda, as possibilidades para adquirir um patrimônio legal aumentam e muito! Bom post.
Mais sobre o assunto: UP Educação Financeira
http://www.upeducacaofinanceira.com.br
Fábio acompanho seus artigos e comentários, que estão sendo sempre muito úteis em minha tentativa de me educar financeiramente. Sempre acumulei patrimônio, principalmente imóveis, mas agora pretendo diminuir o ritmo de trabalho e preciso pensar em gerar renda. Considero a renda de aluguéis como renda líquida, pois penso ter na valorização do imóvel a manutenção do patrimônio. Neste cálculo de renda de 10% ao ano para um capital de R$ 700,.000,00, já estão descontados a inflação, IR etc ? O rendimento líquido não seria menor do que os 5% proporcionados pelo aluguel de uma carteira de imóveis ?
Caro Portela:
Excelente post. Vc realmente previu todas as possibilidades e demonstrou que a análise não pode ser tão simplista como a realizada pelo nosso colega do outro blog,que também acompanho e admiro.
É plenamente compreensivo o entendimento do Pobretão e talvez a maior parte das pessoas concorde com ele, mas após este post, fica claro que não corresponde a realidade tal posição.
Este seu artigo deve lhe ter tomado um tempo enorme,não é verdade?
Sucesso e continue nos brindando com excelentes artigos como este. Você conseguiu se superar.