Buy and hold e o uso de stop: faz sentido?

| 11 de abril de 2012 | 14 Comentários

Escrevo sobre esse assunto porque tem sido objeto de muitas dúvidas dos leitores: usar stop faz sentido em uma estratégia Buy and Hold? Esse poderia ser o artigo mais curto já escrito nesse blog: N-Ã-O. Mas, por saber que nossos leitores gostam de saber o porquê das coisas, tentarei explicar a razão dessa resposta.

Entendendo o uso do stop

Em primeiro lugar, é importante saber o que é o chamado “stop“. Trata-se de uma ferramenta à disposição do especulador que serve para protegê-lo contra a volatilidade. Como funciona? Simples: é uma mera ordem de venda de suas ações quando elas alcancarem um determinado preço, a fim de assegurar um lucro pré-determinado ou evitar prejuízos excessivos.

Por exemplo: alguém compra ações da Petrobras por R$ 20,00 e acredita que vendê-las por R$ 22,00 seria uma operação satisfatória (10% de lucro). Para tentar garantir esse lucro na operação, o especulador desde o momento da compra já pode lançar uma ordem de venda, em determinado período de tempo, pelo preço de R$ 22,00. Assim, se o preço alcançar o patamar estipulado, sua ordem será executada e o lucro será embolsado. Como o objetivo do especulador foi o de garantir um lucro determinado, diz-se que esse é o chamado stop gain. Ou seja, você “para” o lucro, fechando sua posição em determinado patamar e evitando um lucro maior. Muitos usam essa ferramenta para evitar o risco da ganância: muitos especuladores, ao verem suas ações se apreciarem, passam a acreditar que podem “ficar mais um pouquinho” com as ações para vendê-las por um preço ainda maior – o que na maioria das vezes não acontece. Para evitar isso, o especulador já determina de antemão que, uma vez alcançado o preço determinado, suas ações serão vendidas e o lucro será assegurado.

Existe também o stop loss, que serve para evitar que seja realizado um prejuízo maior do que um determinado patamar, suportável pelo especulador. Voltando ao exemplo anterior. Imagine que o especulador tenha comprado as ações da Petrobras por R$ 20,00 e só tem estômago para suportar uma queda de 10% no preço da ação. Assim, ele pode programar uma ordem de venda de suas ações por R$ 18,00 em um determinado prazo, de sorte que, se as ações tiverem uma queda brusca, essa será sua maior perda.

Ele poderia, ainda, estipular uma ordem stop loss e outra stop gain. Uma vez que o preço alcançasse um dos dois patamares, a sua ação seria vendida, com o lucro ou prejuízo pré-estipulados. Nessa situação, o investidor determina antecipadamente o risco de sua operação: ou ele ganhará 10% ou perderá 10% no caso do exemplo.

Stop é ferramenta para estratégia de curto prazo!

Mas perceba: stop é ferramenta para estratégias de curto prazo. Eu falei, nos parágrafos anteriores, em especuladores, e não investidores (tracei a distinção nesse artigo). Especuladores buscam ganhos de curto prazo, em questão de semanas ou, no máximo, alguns poucos meses. Em alguns casos, a operação dura pouquíssimos dias. Investidores, por sua vez, procuram construir patrimônio no longo prazo. Especuladores buscam identificar e seguir tendências enquanto elas permanecerem. Investidores, muitas vezes, seguem investindo nas empresas que consideram boas mesmo quando a tendência não é favorável.

Ter essa distinção em mente é importante para compreender a utilidade dos stops. Eles são uma ferramenta para especuladores – que concebem a volatilidade como um risco e, portanto, precisam se proteger contra ela. Realmente, se você quer realizar operações de curto prazo, o uso de stops é importante; digamos que você estipule que o lucro ideal em determinada operação é de 15%; por que você ficaria com as ações em sua carteira se o lucro obtido já ultrapassou esse patamar? Não seria mais racional vendê-la logo? Por outro lado, digamos que você, a partir da análise técnica, vislumbre que uma queda de 20% levaria a uma reversão de tendência na ação. Por que você permaneceria com ela em sua carteira, se sua análise indica que, no curto prazo, só há tendência de quedas ainda maiores?

Investidores de longo prazo adotam uma posição um pouco diferente com relação a essa questão. Para eles, o stop gain é apenas um limitador dos lucros. Eles só servem para que se corte o potencial de lucro de suas ações, sem trazer qualquer proteção adicional. Isso ocorre porque esses investidores não enxergam a volatilidade como um risco por si só. O risco é comprar ações sem respeitar a análise de sua margem de segurança. Se o preço está dentro de sua margem de segurança estipulada, não faz sentido vender o ativo, por mais que seus preços tenha subido bastante.

Por outro lado, se o preço das ações cai sem que tenha havido mudança nos fundamentos da empresa, o investidor de longo prazo passa a ter motivos para comprar mais ações, e não para vendê-las! Afinal, isso significa que aumentou a margem de segurança das ações daquela empresa, e esta é a medida de risco do investimento.

Por essas razões, o stop é uma ferramenta que não faz sentido para quem usa a estratégia Buy and Hold. O stop loss faz com que se venda a ação por um preço abaixo do seu valor intrínseco (o que não faz o menor sentido) e o stop gain leva o investidor a limitar o seu lucro – o que também não faz o menor sentido para ele. Só faz sentido usar o stop gain quando o holder vê a ação se aproximar bastante do seu valor intrínseco e acha que não terá ganhos adicionais se o preço subir acima de determinado patamar. Mas talvez, nesse caso, talvez seja ideal vender logo as ações e buscar empresas que tenham margem de segurança ainda maior e ofereçam maior possibilidade de ganho.

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Categoria: Ações

Sobre o Autor ()

Fábio Portela é investidor desde 2006 e disponibiliza neste site seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, seja com sua experiência, seja por meio das leituras que fez ao longo dos anos. O autor é mestre em Direito Constitucional e em Filosofia pela UnB, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional na mesma instituição.

Comentários (14)

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  1. wagner disse:

    Para o investidor o stop é no balanço.
    Se deixar de ser um bom investimento tiro meu dinheiro e aplico em outro que seja bom.

  2. Orlandão disse:

    por gentileza, fábio, na sua condição de educador financeiro poderia explicar melhor os dois conceitos abaixo explicitados pelo senhor que estão entre aspas:

    1) Eles só servem para que se corte o potencial de lucro de suas ações, sem trazer qualquer proteção adicional. Isso ocorre porque “esses investidores não enxergam a volatilidade como um risco” por si só.

    2) Só faz sentido usar o stop gain quando o holder vê a ação se aproximar bastante do seu valor intrínseco e “acha que não terá ganhos adicionais se o preço subir acima de determinado patamar”.

    • Fábio Portela disse:

      Claro, Orlandão!

      (1) O investidor Buy and Hold não enxerga volatilidade como risco. Leia o seguinte artigo, onde explico esse conceito melhor: http://opequenoinvestidor.com.br/2011/11/volatilidade-e-risco/

      (2) Isso ocorre quando o preço se aproxima muito do valor que o investidor atribuiu a sua ação. Por exemplo, o investidor faz suas análises e elas indicam que sua ação vale R$ 20,00. Ele compra a ação por R$ 12,00, mas o preço dispara a R$ 19,00. Nesse momento, o investidor tem uma margem de segurança muito pequena, indicando que talvez seja melhor vendê-la.

  3. Orlandão disse:

    Prof. Fábio,

    Mas já que volatilidade não é risco, então porque outros educadores financeiros ficam nos ensinando por aí pra NUNCA nos posicionarmos 100% em ações? Já que vc afirma que não tem risco, não vejo porque eu não comprar tudo em ações. Mesmo que uma ou outra ação caia outras subirão muito e tudo se ajustará no longo prazo, não é isso?

    Só continuo não entendendo a explicação pra minha segunda dúvida. Vc escreveu:

    “não terá ganhos adicionais se o preço subir acima de determinado patamar”

    Mas se o preço sobe (além da “margem de segurança”) como que esse plus em valor não significará “ganhos adicionais”?

    Mesmo que a explicação seja através de complexas fórmulas matemáticas, por favor, seria interessante termos contato com esses aspectos mais científicos de sua afirmação.

    • Fábio Portela disse:

      “Mas se o preço sobe (além da “margem de segurança”) como que esse plus em valor não significará “ganhos adicionais”?

      Mesmo que a explicação seja através de complexas fórmulas matemáticas, por favor, seria interessante termos contato com esses aspectos mais científicos de sua afirmação.”

      Orlandão,

      Pode haver maiores ganhos, mas não terão fundamento com base na análise de risco feita pelo investidor. E isso vai contra a filosofia de investimento que adoto, a Buy and Hold.

      Abraços,
      Fábio

  4. Orlandão disse:

    Obrigado, Prof. Fábio.

    Muito esclarecedora sua resposta.

    Depois eu fiquei pensando sobre isso e cheguei as mesmas conclusões que o senhor, no seguinte exemplo: numa situação na qual a análise do investidor constate uma situação de resultado negativo, quando o valor da ação vai subindo, mas o valor dos dividendos vão caindo resultando em perdas!

    Quando isso ocorrer… hora de vender a ação, certo?

  5. Não faz nenhum sentido.

    Quando vejo gente falando que faz BH e depois diz que põe stop fico com aquela cara de desânimo na cara.

    É como botar cinto de segurança dentro de um carro que você vai ficar parado o dia inteiro dentro dele.

  6. Andre Luiz disse:

    Excelente artigo, Fábio.

    Meus parabéns.

  7. Eduardo Duarte disse:

    Eu já discordo da dicotomia utilizada pelo Fábio para distinguir investidor e especulador.
    Na minha visão e de alguns autores ambos são investidores, porém, um é de longo prazo e o outro de curto prazo.
    Ambos possuem extrema relevância no stock market, os positions conferem certa estabilidade nas ações enquanto que os traders dão liquidez no mercado.
    Se vocês perceberem que é buy and hold também é um especulador, pois, está especulando em cima de uma preço pré-definido assim como quem compra para vender no curto prazo. O que distingue ambos é somente o tempo de permanência no ativo.

    • wagner disse:

      Eu ja discordo de vc Eduardo porque esse preço pré- definido não é tão pré assim, devido ao valor intricíco de uma empresa poder aumentar indefinidamente no tempo.
      Quem investe com o intuito de formar patrimonio seja em ganho de dividendos ou de valor de merdado, o prazo não exite.Quem determina a permanencia é o negócio se manter bom.

    • José disse:

      Além do investidor e do especulador a bolsa brasileira em breve vai agregar um nova categoria: o esportista.

      Uma certa corretora e uns certos vendedores de cursos sobre mercados financeiros estão promovendo um Campeonato Nacional de Traders (com uma gata propaganda de tirar o fôlego para chamar jovens metidos a especuladores a depositar 10 mil para competir com muita adrenalina e concorrer a prêmios que eles pagariam com os mesmos 10 mil).

      O sistema de marketing de certos agentes do mercado beira à irresponsabilidade… O mercado como cassino parece que vai dominar.

      • wagner disse:

        Se depender da visão da bolsa,da cvm,da mídia,das corretoras,dos profissionais,dos manipuladores,dos especuladores,de algumas empresas,dos novatos deslumbrados.Pode considerar que sempre foi e será.

  8. Sammy disse:

    Olá, Fábio!

    Achei um site com vários indicadores fundamentalistas e análises de preço justo, mas, como iniciante, estou um tanto “desconfiado” das informações ali mostradas.

    Voce já teve contato com o site do Guia Invest pra poder dar uma opinião?(http://www.guiainvest.com.br)

    Muito obrigado!

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