Rule makers: a estratégia defendida por The Motley Fool para investir em blue chips

12 de setembro de 20114 comentários

Uma distinção comum adotada no mercado diz respeito ao tamanho da empresa em que alguém pode investir: existem as blue chips (grandes empresas), que compõem, sozinhas, um grande percentual do Ibovespa (é o caso, por exemplo, de Petrobras, Vale, Ambev, Itaú, entre tantas outras empresas), e existem as small caps, empresas menores, que equivalem a menos de 1% do índice – ou nem estão nele, como é o caso da maioria. Mas o assunto de hoje são as blue chips: como e por que escolher uma empresa grande para investir? Os fundadores do site The Motley Fool apresentam alguns critérios interessantes que ajudam o investidor de longo prazo a escolher suas blue chips. Vamos a eles!

Invista em blue chips que estabelecem as regras em seu setor de atuação

O primeiro critério para investir em uma blue chip sugere que o investidor deva procurar investir em empresas que “façam” as regras de seu setor de atuação (os autores a chamam de Rule Makers). São empresas que constituem quase um monopólio, tamanho a sua influência no mercado. É o caso, por exemplo, da Apple, que estabelece o padrão de mercado da maioria dos produtos que vende – tanto que seus concorrentes são obrigados a copiá-la ou a tentar superá-la, mas sempre a tendo como padrão de competidora. Também é o caso da Coca Cola, a maior das gigantes no mundo das bebidas. Nesse mercado, há uma brasileira, a Ambev, que domina seu mercado no país e em boa parte das Américas. Também não poderíamos deixar de mencionar Petrobras e Vale, em seus respectivos setores de atuação.

Identificando as blue chips “rule makers”: critérios qualitativos e quantitativos

Há critérios quantitativos e qualitativos para identificar blue chips que se qualifiquem como rule makers em seus setores de atuação. Os critérios qualitativos são os seguintes:

a) Marca dominante: o primeiro passo para identificar blue chips que estabeleçam as regras no seu setor de atuação diz respeito à força de sua marca. Uma marca lembrada instantaneamente por seus consumidores como de qualidade é um passo importantíssimo para que a empresa possa cobrar mais por seus produtos e ainda assim vendê-los muito bem. É o caso, novamente, dos produtos da Apple ou da Coca Cola, marcas lembradas sem muito esforço. Brahma e Antarctica têm força semelhante no mercado interno, assim como a Quilmes na Argentina (marcas da Ambev). A Hypermarcas também tem marcas fantásticas, como finn, etti, zero-cal, entre outras.

b) Negócio baseado na compra repetitiva dos produtos: é melhor investir em blue chips cujos produtos são adquiridos constantemente, como refrigerante, cerveja, produtos de beleza (Natura) ou lâminas de barbear (pense na Gillete), uma vez que, a cada compra, o consumidor relembra o poder da marca. Além disso, a necessidade de compra constante de produtos indica um fluxo de caixa mais previsível, já que sempre há a expectativa de vendas futuras. A situação é mais segura, por exemplo, do que a de uma empresa que produz aviões (pense na Embraer), com pouquíssimos e concentrados clientes que compram, por um preço caríssimo, poucas aeronaves.

c) Conveniência: os produtos precisam ser convenientemente acessíveis para seus consumidores. Seja comprando as prateleiras mais acessíveis no supermercado (é, essa é uma estratégia bastante utilizada), possibilitando a compra do produto em sites de e-commerce, afinando ajustes de exclusividade com empresas de setores complementares, as blue chips rule makers colocam seu produto à disposição da maneira mais acessível possível.

d) Possibilidades de expansão: É importante avaliar se as blue chips que estamos examinando têm possibilidades concretas de expansão de seu negócio. A Ambev pode aumentar seu market share ou criar novos produtos? A Coca Cola pode aumentar ainda mais sua influência? Em casos como esses, muitas vezes cometemos o erro de subestimar o potencial do negócio. Muita gente não investe na Ambev por acreditar que ela já é grande demais e não tem como se expandir ainda mais. Mas este pode ser um erro; já tenho ouvido esse discurso há algum tempo e, de lá pra cá, a empresa mais do que dobrou o seu lucro. É claro que pode acontecer de a expansão se estabilizar, mas ser pessimista sem ter informações concretas sobre a possibilidade de expansão do negócio é um caminho de sucesso duvidoso.

e) Sua familiaridade e interesse: esse critério se aplica ao próprio investidor. É importante escolher empresas cujos negócios atraem seu interesse – e que tornará mais provável que você procure fontes adicionais de notícias que indiquem as perspectivas futuras do negócio.

Além dos critérios qualitativos, os autores de The Motley Fool Investment Guide indicam ainda critérios quantitativos para identificar blue chips atraentes. É preciso ler esses critérios ressalvando que a realidade brasileira é diferente da americana e, por isso, alguns números não precisam ser exatamente os mesmos:

f) Crescimento nas vendas de pelo menos 10% anualmente: O crescimento das vendas é um indicador que atesta indiscutivelmente se o negócio tem se expandido ou não. A taxa de 10% indica se o ritmo de crescimento é minimamente interessante.

g) Margem de lucro bruta superior a 50%: A margem de lucro bruta indica o percentual de cada real recebido pela empresa que é convertido em lucro, depois de abater os custos de produção. Uma margem bruta de lucro de 50% indica que a cada real recebido, a empresa tem um lucro bruto de R$ 0,50. No caso brasileiro, temos algumas empresas que passam com louvor por esse filtro, como Vale (61,8%), Ambev (67,9%), Cielo (67%) e Natura (70,2%) – e essa lista é apenas exemplificativa, não exaustiva.

h) Margem de lucro líquida superior a 10%: A margem líquida de lucro indica o percentual das receitas da empresa que é efetivamente convertida em lucro líquido. Temos empresas fantásticas nesse quesito, como Randon (10,11%), Localiza (10,90%), Eternit (11,58%), Natura (13,93%), além de blue chips como Petrobras (18,79%), Vale (42,17%) e Cielo (44,39%), entre tantas outras!

i) Caixa superior a 1,5 vezes o valor da dívida: É importante que a empresa tenha dinheiro em caixa suficiente para pagar todas as dívidas e dar a volta por cima, caso seja necessário. Por isso, há a recomendação de que o caixa seja superior a 1,5 vezes o valor total da dívida, de curto e longo prazo – situação em que a empresa terá dinheiro para pagar as dívidas e ainda sobrará um pouco para investir.

j) “Foolish flow ratio” abaixo de 1,25: Os autores ainda utilizam um indicador criado por eles mesmos: o foolish flow ratio, que indica o uso eficiente do dinheiro em caixa da empresa. A ideia por trás desse indicador é que é melhor que a empresa seja capaz de trazer dinheiro o mais rápido possível e que as dívidas sejam pagas o mais devagar possível. Para calcular isso, sugerem o seguinte cálculo: (Ativos circulantes – caixa)/(passivo circulante – dívida de curto prazo). O ideal é que o resultado seja inferior a 1,25, o que indica que a empresa é capaz de alongar o prazo de pagamento de suas dívidas e de receber dinheiro mais rápido.

l) Margem de “Cash king” de pelo menos 10%: Esse é outro indicador importante criado pelos autores de The Motley Fool Investment Guide, e busca avaliar de maneira mais realista a margem líquida de lucro da empresa, evitando maquiagens no balanço da companhia. Para isso, eles partem do pressuposto de que, mais do que o lucro, é importante analisar o fluxo de caixa da empresa, porque muitas vezes os contadores da companhia maqueiam os resultados dos lucros, incluindo nele elementos que não poderiam ser qualificados como tal. A fórmula encontrada por eles é a seguinte: (caixa operacional – despesas de capital)/receita de vendas. O ideal é que esse cálculo seja superior a 10%.

Obviamente, haverá empresas fantásticas que não satisfarão a todos os critérios elencados, e empresas ruins que apresentarão alguns indicadores dentre os elencados. O importante, portanto, é ter uma série de ferramentas a sua disposição e tentar utilizá-las para separar o joio do trigo.

A propósito, se você quiser aprender mais sobre a metodologia de investimento dos autores, recomendo o seguinte livro:

blue chips

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (4)

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  1. Small caps e o longo prazo : O pequeno investidor | 26 de outubro de 2011
  1. Eu acredito que investir em blue chips é apenas seguir uma tendencia do mercado que já vem acontecendo há anos… Eu acredito que investir em novas empresas e desconhecidas pode ser um grande diferencial de mercado. Porque seguir os outros se podemos sair pela tangente?

    Um abraco,

    Guilherme da Luz
    http://www.emprestimo.org

  2. Fabrício Tiburcio disse:

    Investir em blue chips é uma meneira segura de alocarmos nossos investimentos, porém não devemos desprezar as smalls caps que quando bem escolhidas podem melhorar razoavelmente nosso desempenho.

    Abraço a todos.
    Fabrício Tiburcio

  3. Luiz disse:

    pô mew, vc falou, falou e no fim afirma que pode ser que nada disso dê certo, rsrs

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