Porque o pequeno investidor tem aplicado pouco em renda fixa
Hoje escrevo com o objetivo de explicar um pouco mais a minha carteira. Muitos leitores têm apontado que eu diversifico pouco, já que aproximadamente 75% da minha carteira está direcionada para ações, e o restante está na renda fixa. Essa não seria uma estratégia perigosa? Afinal, não seria melhor eu ter um pouco mais de dinheiro na renda fixa, para justamente aproveitar os momentos de queda na bolsa para tirar mais dinheiro da renda fixa para as ações? Enfim, escrevo para tentar esclarecer aos leitores o motivo pelo qual pareço estar mais investido em ações do que deveria.
O principal motivo para essa alocação, hoje, foram algumas despesas extraordinárias que eu tive que fazer. Sei que isso não é da conta de ninguém, a não ser da minha, mas esse ano tive que fazer uma despesa que eu não esperava ter que fazer. No inÃÂcio do ano, a minha alocação de recursos era justamente a oposta da que tenho hoje: cerca de 70% do meu patrimônio era composto de tÃÂtulos do tesouro direto e fundos de renda fixa, sendo o restante aplicado em ações.
Mas surgiu uma oportunidade bastante interessante para mim. Como os leitores sabem, e já falei diversas vezes, eu morava de aluguel – justamente por considerar que os preços do mercado imobiliário de BrasÃÂlia estão carÃÂssimos, e que vale mais a pena pagar aluguel do que comprar um imóvel. Mas minha mãe tem um apartamento bom que estava alugado já há um bom tempo, e que ela gostaria de reformar: e então entramos num acordo – eu reformaria o apartamento, e abateria um pouco dos custos ao longo dos anos, sem pagar aluguel para ela. Ambos saÃÂmos ganhando: ela terá o apartamento reformado, que é o que ela queria; eu vou morar num bom apartamento, reformado, por um preço muito abaixo do que eu precisaria pagar caso resolvesse comprar um apartamento na cidade, pagando apenas o condomÃÂnio e as taxas extras que aparecerem no futuro (encargo que minha mãe teria que arcar, caso o apartamento estivesse alugado para outra pessoa).
Para cumprir minha parte do acordo e reformar o apartamento, eu tinha que decidir qual a origem dos recursos para pagar a reforma: pegar dinheiro emprestado ou vender alguns dos meus ativos (renda fixa ou ações). Como achei caro o custo do financiamento para a obra, eu tive que decidir se vendia as ações ou os tÃÂtulos de renda fixa (ou um pouco de cada). Mas, como eu, naquele momento, considerava que as ações estavam num preço razoável para o longo prazo, entendi que o melhor seria vender os tÃÂtulos de renda fixa. E, daÃÂ, veio a “virada†na carteira, que de um percentual de 70% Renda Fixa – 30% Ações, passou para algo em torno de 75% Ações – 25% Renda Fixa.
Obviamente, o fato de eu considerar que as ações estavam num preço satisfatório não significa dizer que eu previa que as ações se valorizariam no futuro próximo. Eu estava consciente – como ainda estou – de que elas poderiam se tornar ainda mais baratas, e eu poderia enfrentar uma baixa razoável em minha carteira. Por outro lado, poderia acontecer o contrário também, se as ações se valorizassem. E, como eu tenho uma tolerância alta àvolatilidade, preferi enfrentar o risco de os preços caÃÂrem a enfrentar o risco contrário de perder uma alta que também poderia acontecer. Preferi, então, deixar minha carteira com essa proporção – que ainda considero razoável, já que está dentro da margem aconselhada por Benjamin Graham (que aconselha uma flutuação entre 25% e 75% em ações, ao gosto do freguês).
E, assim, minha carteira chegou a essa proporção. Outro aspecto que afetou meu portifólio, nos últimos meses, foi a impossibilidade de comprar ações com dinheiro novo: o dinheiro da economia mensal estava destinado àobra, assim como a parcela da renda fixa que eu resgatei. Por isso, não estou podendo aproveitar as promoções atuais no mercado de ações, como apontaram alguns dos meus leitores.
Mas estou muito tranquilo, já que, como deixarei de pagar aluguel, no médio e no longo prazo a minha capacidade de economia mensal aumentará bastante. Isso afetará muito mais positivamente meu patrimônio, no longo prazo, do que eventuais crises no mercado de ações que eu deixar de aproveitar agora. Além disso, provavelmente a crise atual terá muitos episódios ainda, e é possÃÂvel que eu consiga comprar ações a preços mais atraentes do que agora. Se não acontecer isso, também não haverá qualquer problema; acredito que ainda verei muitos bear markets na minha vida. Não há motivo para desespero. É importante notar também que boa parte de minha carteira de ações tem uma caracterÃÂstica relativamente defensiva, já que são ações pagadoras de bons dividendos – Coelce, Cielo, Cemig e Eletropaulo, por exemplo, compõem uma boa parte de minha carteira e oferecem um Yield superior a 10% em dividendos. Eu as vejo como um investimento quase equivalente à“renda fixa”.
Além disso, como sou funcionário público (e minha estabilidade virá em breve), não tenho muito a temer no curto prazo, e não precisarei do dinheiro que está investido em ações nos próximos anos.
A propósito, agradeço aos leitores pelas crÃÂticas a minha carteira. Elas ajudam bastante a refletir sobre meus pressupostos e sobre minhas decisões. Esse blog é pra isso mesmo: estabelecermos um diálogo produtivo sobre como devemos administrar nosso dinheiro. Provavelmente, eu farei muitas bobagens ainda, e só espero aprender com elas. Sei que pareço um velho turrão, que fica imobilizado com suas crenças, mas ainda não encontrei argumento para modificá-las – o que não significa, obviamente, que não acontecerá no futuro.
Um grande abraço a todos!
Arquivado em: Educação financeira





Bom dia Fábio. Estou lendo o Investidor Inteligente em plenaa madrugada e encontrei seu post, parabens!e vejo que esta aplicando os principios ensinados por Ben Graham. Momento atual é sem duvida uma grande oportunidade. Tenho em carteira Suzano e Shulz e aguardando o desfecho da economia nas proximas semanas para novas posicoes.
Fabio, existe algum site onde possa me informar sobre o P/L do indice bovespa? seria de grande utilidade para uma consulta semestral/anual.
Valeu!
Reformou a herança né seu danado, hehehehe…
Olá Fábio!!
Muitas vezes os planos de longo prazo precisam ser ajustados com planos de curto e médio prazo. É totalmente normal e diria que até fundamental pra regular as metas de acordo com o mercado atual (que não podem ser previstas no plano de longo prazo).
Muito boa sorte em seus investimentos!
Grande abraço,
Felipe Medeiros
Bolsa Financeira
Olá Fabio,
1 – Não entendi. Você preconiza um estouro de bolha imobiliária, mas investe em um imóvel que não é seu? Sinceramente, fiquei confusa.
2 – Supondo que você não herdará este imóvel, sua mãe fez um ótimo negócio, mesmo, dada uma valorização do imóvel no valor do investimento realizado para reforma. Ela conseguiu adiantar, a uma taxa de desconto zero, um montante de aluguéis que correm a um índice de inflação! Ela simplesmente trocou um fluxo de IGP por uma valorização imediata, não?
3 – Este montante investido é grande, não? Tomei a liberdade de fazer as contas: é de 4 x o diferencial entre os montantes de RF e RV, antes do desinvestimento para reforma (supondo a inversão de 70% para 30% e de 30% para 70%, em RF e RV, respectivamente. Era muito grana (em temos proporcionais) para colocar em um imóvel, não?.
4 – Além do que, supondo que você poderia estar dado em IPCA + 6% a.a., a sua decisão só faria sentido se você realmente acreditasse que o imóvel seria objeto de herança e que no momento desta, o imóvel se valorizaria muito a partir da reforma. Neste caso, me parece contraditório manifestar uma bolha de imóveis, como vc faz.
5 – Não achei legal, a posteriori, você revelar esta inversão de alocação em função do investimento. Elas induzem os iniciantes a se sentirem heróis e alocar uma grande parte em ações. Acho que fui eu quem alertou para a extrema concentração da sua carteira. Como leio pouco o seu blog, talvez não tenha acompanhado esta “inversão” em posts anteriores. Se for o caso, peço desculpas.
5 – De qualquer forma, a atual alocação de 70% em ações continua grande. A não ser que estes 70% correspondam pouco da renda futura (seu salário de funcionário público, dao que você é novo e coisa e tal). Talvez vc pense: é dinheiro de pinga, dado que eu vou receber um fluxo n vezes maior no setor público. Mas, se isto for o caso, talvez seria melhor você dizer o quanto dessa pinga corresponde ao montante de salário futuro. Uma coisa é investir com 20 anos, outra é investir com 50 anos.
6 – Agradeço muito sua atenção e espero que minhas perguntas possam auxiliar a todos.
Vanessa.
Vanessa:
1 – A bolha é do preço de compra, não dos valores de uma reforma. Eu não comprei o imóvel, e a reforma custou infinitamente menos do que o preço da moradia. Aloquei um montante razoável para a minha moradia, e que, num prazo de poucos anos, será mais do que compensado pelo aumento em minha capacidade de economia. Do ponto de vista econômico, valeu a pena. Ponto final.
2 – A questão é que minha mãe não pretende vender esse imóvel, mas me deixar morando nele por prazo indefinido. Há uma razoável suposição de que minha irmã e eu o herdaremos – espero que num futuro muito, muito distante. Do ponto de vista dela, foi exatamente isso: ela trocou o valor dos aluguéis futuros pela reforma. Do meu ponto de vista, eu troquei uma quantidade finita de aluguéis, paga imediatamente, pela possibilidade de morar num apartamento superior ao que eu morava, por um tempo indefinido. Paguei caro, mas em alguns anos, quando eu recuperar o valor gasto e a rentabilidade que esse valor me garantiria, eu deixarei de “pagar aluguel”.
3 – O montante investido será recuperado – já contando com o valor que eu ganharia com a rentabilidade dos valores gastos caso eles tivessem sido investidos em um fundo que pagasse o equivalente à Selic – em cerca de 5 anos. Daí pra frente, eu estarei no lucro.
4 – De minha parte, eu considero injusto que você me acuse por não ter feito antes o que eu fiz agora, depois que eu escrevi o post. Publiquei minha carteira de investimentos a pedido de muitos leitores, e ponto. Não interessa o que fiz antes ou não, mas acho que a composição atual dela é razoável. Em vários outros posts, no passado, apontei que minha abordagem valoriza a diversificação e também acho razoável o investimento em títulos do tesouro direto. E também não recomendo que ninguém siga a minha carteira de investimentos; cada um sabe o quanto seu dinheiro lhe custou e o quanto considera razoável. Mas, justamente pra tentar impedir que alguém seja irracional com seus investimentos e tome minha carteira como modelo, eu resolvi escrever esse post.
5 – Vanessa, eu sei que a atual alocação em ações é grande. E eu quero que seja: foi um movimento consciente. Não acho que é dinheiro de pinga; eu sei o quanto me custou compor o patrimônio que eu tenho, mas não me importo com a volatilidade. E eu também não vou dizer o quanto dessa “pinga” corresponde ao montante do salário futuro, porque isso exporia o valor do meu patrimônio – o que, infelizmente, hoje, é uma questão de segurança.
acho que tu deverias ter é pensado melhor antes de divulgar a tua carteira..
ninguem merece ter essa boa vontade imensa e receber criticas e questionamentos por todos os lados
o fato é que esses questionamentos, se por um lado ajudam a refletir sobre a efetividade da filosofia de investimento em si, impede que se consiga aplica-la com a clareza e tranquilidade necessaria
ex.: vale5 esta a 37 reais… tem gente que analisa, pensa que esta barata, mas acaba nao comprando porque tem ruidos de todos os lados referentes a inumeras circunstancias relacionadas à china, preços do minerio, etc (sabe-se la qual o preço medio que cada uma dessas pessoas tem? qual a porcentagem em açoes que elas possuem? e quais ativos possuem em carteiras? tudo isso influencia).
enfim, cada um aplicando segundo suas proprias filosofias – respeitando a diversificaçao necessaria – é o melhor que cada um tem a fazer (desde que, claro, estejam embasadas em estudos, etc)
Oi Fabio,
Desculpa, não foi a minha intenção ser injusta. Apenas, quis colocar minhas observações. O problema é que as pessoas interpretam tudo da forma como convém, no calor do mercado. Da minha parte, desejo boa sorte e que continue o seu trabalho.
Léo, questionamentos, sim. Críticas, não fiz nenhuma.
Tudo bem, Vanessa! Sem problemas.
Olá Fábio.
Parabéns pelo artigo.
Falando em diversificação, hj os fundos imobiliários também representam uma boa alternativa, na medida em que tem se mostrado menos voláteis que as ações e com pagamentos regulares de rendimentos, isentos de imposto de renda, o q acaba se transformando em uma renda passiva para o investidor e bastante atrativa, caso seja adquirido no IPO. Veja o último artigo q postamos no Blog da Elite CCVM sobre o assunto através do link:http://www.eliteccvm.com/site/ferramentas/redes-sociais/blog/2011/08/24/28-o-mercador-de-veneza-a-diversificacao-e-os-fundos-imobiliarios.html
Será um prazer!
Abs,
Alessandra
fi tem que lembrar que se paga uma porcentagem para comprar esses títulos eles tem baixa liquidez,a maioria das corretoras cobra uma taxa anual para guardar e quando vender tem uma taxa de imposto de 15% (só não lembro se do velor total ou do lucro)então tem que calcular muito bem pra ver se vale a pena mesmo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Só para esclarecer seus comentários/dúvidas:
1) Se a compra de cotas for no mercado primário (IPO) o investidor não tem esse custo inicial. Se comprar no secundário, paga corretagem assim como acontece qdo ele compra ações.
2) A liquidez vem aumentando cada vez mais com a popularização dos fundos entre as pessoas físicas e em alguns casos, temos a colaboração de market makers para elevar a liquidez dos fundos. Aqui na corretora já vimos muitos clientes fazerem negócios no secundário sem problemas.
3)A “taxa para guardar” a qual vc se refere é a “taxa de custódia” da CBLC paga também para “guardar” as suas ações.
4) O IR de 20% é pago somente no caso de venda de cotas, apenas sobre o ganho de capital, se houver. Em alguns fundos que possuem prazo determinado para encerrar, o IR nem chega a ser pago, caso o investidor permaneça no fundo até o seu encerramento.
No link do blog que eu passei mostramos que a rentabilidade líquida de alguns fundos,se bem selecionados, são bem atrativas, principalmente pela isenção de IR.
Abs!
Muito, MUITO obrigado por compartilhar isso tudo em seu blog. Minha visão sobre investimentos e economia mudou depois que passei a lê-lo. Parabéns.
Fabio, vc é um cara legal.
Não acha que expõe um pouco “demais” a sua vida financeira?
Nem todo mundo é sangue bom, como vc sabe…
Parabéns pelo blog, aprendo muito
abraços
Não acho que me exponho não, porque não falo em valores, mas em percentuais. Me preocupo muito com isso.
Abraços,
Fábio
Também acompanho seu blog por feeds, muito bom trabalho e parabéns. Porém concordo, você vai alem revelando sua vida pessoal, nao da para saber quanto vc tem mas sim quanto você nao tem. Se gastou 40% numa reforma, já da para ter idéia de quanto você nao tem. Abracos
Pois é, Henrique; acho que sou muito menos rico do que algumas pessoas pensam. :-)
Não é a toa que o site se chama “O Pequeno Investidor”. Quem sabe um dia eu tenha que trocar o nome dele.. hehehe
Um dos segredos para o vencer na renda variável é a paciência e nesse ponto está de parabéns.
Já sobre a exposição, acho que ninguém vai mexer com quem gasta 40% do patrimônio em uma reforma, agora se a despesa fosse para comprar um carro de 500 mil dai sim era preocupante.