Conheça Benjamin Graham, o professor de Buffett

| 29 de junho de 2011 | 20 Comentários

Warren Buffett é uma celebridade. Simpático, objeto de muitos livros e um dos homens mais ricos do planeta, ele é um mito no mercado financeiro. Mas Buffett não teria sido Buffett se seu destino não tivesse se cruzado com o de outro personagem muito importante no mundo dos investimentos, Benjamin Graham.

1. Quem foi Benjamin Graham (1894-1976)

Apesar de ter nascido em Londres, a família Graham se mudou para Nova Iorque quando Benjamin tinha um ano de idade. Excelente aluno, se graduou na Universidade de Columbia aos 20 anos, com distinção. Bastante erudito e com um raciocínio matemático impecável, Benjamin Graham recebeu um convite para se tornar professor de Inglês, Matemática e Filosofia, mas preferiu aceitar um emprego em Wall Street, onde fundou sua empresa, a Graham-Newmann.

Em 1934, Graham publicou, em coautoria com David Dodd, o livro “Security Analysis”, que é considerado por muitos a Bíblia dos investidores fundamentalistas – na verdade, a obra é apontada como a pioneira no chamado investimento em valor (value investing). Segundo alguns, esse livro foi fruto da experiência de Ben na grande depressão de 1929, na qual ele teria tido grandes perdas. Dez anos mais tarde, Benjamin Graham publicou uma versão de seu primeiro livro voltada para investidores individuais, “The Intelligent Investor”, que foi traduzido recentemente para o português sob o título “O Investidor Inteligente”.

Benjamin Graham também era um ativo defensor dos interesses dos acionistas, e por isso criticava a maneira pela qual as empresas divulgavam seus balanços, utilizando termos obscuros e escondendo a informação que realmente importava.

2. Conceitos importantes apresentados por Benjamin Graham.

Benjamin Graham foi responsável por vários conceitos importantes para quem quer aprender a investir a partir dos princípios da análise fundamentalista. Vejamos alguns deles:

a) Uma empresa é um negócio!

Graham dizia que um investimento é mais inteligente quanto mais parecido com um negócio. Ou seja, procure identificar no investimento características que você consideraria importante em um negócio. Lembre-se sempre de que o investimento em ações só faz sentido se você lembrar que, por trás daquele “papel”, existe uma empresa. Se você se lembrar sempre disso, provavelmente já terá dado um grande passo para evitar comprar ações caras demais, ou ações de uma empresa que só dá prejuízo. Afinal, você nunca gostaria de ser o dono de um negócio quebrado, concorda?

b) A metáfora do Sr. Mercado

Uma das alegorias preferidas de Graham no livro “O investidor inteligente” descreve o mercado como um sujeito que bate à porta de todos os investidores do mercado de ações oferecendo uma proposta de compra ou venda de ações a preços diferentes. Às vezes, o preço oferecido é alto, às vezes baixo, e às vezes razoável. Mas nenhum investidor é obrigado a aceitar a proposta do Sr. Mercado, que não se importa com a negativa de ninguém: no dia seguinte ele baterá à porta dos investidores de novo, e assim sucessivamente. A metáfora busca mostrar para o investidor que ele não deveria se importar com o humor do mercado para determinar o valor de suas ações; ao invés de participar na loucura da volatilidade do mercado no dia-a-dia, o bom investidor deve se aproveitar dela em seu próprio proveito. Nos dias de crise, quando o mercado está deprimido, ele deve aumentar sua participação nas ações de boas empresas; e quando o mercado está eufórico, atribuindo um valor absolutamente irreal para as ações, deve vendê-las.

c) Critérios de Benjamin Graham para selecionar ações.

Em 1970, Graham e seu amigo James Rea definiram 10 critérios que estabeleceriam se uma determinada ação poderia ser considerada um bom investimento. São os seguintes:

1) Earning yield pelo menos duas vezes maior que o yield de um título público AAA – trocando em miúdos: o earning yield é a relação entre o lucro e ação. O cálculo é o contrário do P/L, ou seja, você pode calcular o earning yield dividindo-se o lucro por ação pelo preço de cada ação. Se o P/L é de 5, isso significa que o earning yield (L/P) é de 20% (ou 1/5). No caso brasileiro, você poderia definir o yield de um título público AAA a partir de dois critérios: a taxa Selic ou a poupança. Se você utilizar a Selic, isso significa que o L/P máximo que seria considerado razoável seria o dobro da taxa Selic atual (que está na casa dos 12,25%), ou seja, 24,50%. Isso significa que o preço de uma ação, nessas condições, somente seria razoável se seu P/L fosse inferior a 4,08 (equivalente a um L/P de 24,50%). Acredito que, como os juros brasileiros são muito distorcidos, talvez seja possível excepcionar essa regra para o caso brasileiro.

2) P/L abaixo de 40% do maior P/L que a ação teve nos últimos 5 anos. A ideia desse indicador é comprar a ação sempre que o P/L estiver bem abaixo da média que a ação apresentou nos últimos 5 anos. O objetivo de Graham, aqui, é fazer com que o investidor somente compre a ação se houver margem de segurança para adquiri-la. Com um P/L abaixo de 40% do maior P/L que a ação teve no período, mesmo que as coisas não ocorram como o esperado, dificilmente o investidor não terá um retorno bom no longo prazo.

3) dividend yield de pelo menos 2/3 do yield do título público AAA. Graham procurava segurança nos seus investimentos. Ao exigir um dividend yield de pelo menos 2/3 do yield de um título público, ele pretendia buscar uma rentabilidade mínima razoavelmente comparável com a dos títulos públicos. Isso significa que, nas condições atuais, uma ação somente seria um bom investimento se rendesse, só com os dividendos, 2/3 da taxa Selic, ou algo em torno de 8,16%.

4) Preço da ação 2/3 abaixo do Valor Patrimonial por Ação. Buffett dizia que o melhor negócio do mundo é comprar uma nota de US$ 1,00 por US$ 0,60. É esse raciocínio que está por trás desse critério. Se você conseguir comprar uma ação por 2/3 de seu patrimônio líquido, isso significa que você está comprando a empresa por menos do que seus ativos valem. Obviamente, esse não pode ser o único critério a ser adotado, já que a empresa pode ser tão perdulária que seu patrimônio diminuirá muito no longo prazo.

4) Preço da ação 2/3 abaixo do Valor Patrimonial Tangível por Ação. Trata-se de um indicador parecido com o anterior. Para calculá-lo, apenas diminua do valor patrimonial por ação o valor do patrimônio intangível (bens intangíveis, sobre os quais é difícil avaliar com precisão o valor, como o valor da marca, por exemplo).

5) Preço da ação 2/3 abaixo dos ativos circulantes líquidos por ação. Ativos circulantes são os bens e direitos conversíveis em dinheiro no curto prazo (1 ano). A ideia do indicador é que o preço da ação seja 2/3 inferior ao total dos ativos circulantes divididos pelo total da ação. A meu ver, é muito, muito difícil que esse critério seja observado, a não ser que haja um derretimento próximo ao de 2008 na economia.

6) Dívida total inferior ao Patrimônio tangível.

7) Liquidez corrente superior a 2. A liquidez corrente expressa a capacidade da empresa de pagar suas dívidas de curto prazo. Um indicador superior a 1 indica que a empresa é capaz de honrá-las, e um indicador superior a 2 indica solidez quase absoluta.

8) Dívida total inferior ao dobro dos valor do ativo circulante líquido.

9) Crescimento do lucro ao longo dos últimos 10 anos de pelo menos 7% ao ano. Esse indicador é valiosíssimo, pois indica que a empresa tem uma excelente administração, capaz de fazer os lucros crescerem com consistência e força.

10) Um máximo de 2 quedas anuais de 5% ou mais no lucro ao longo dos últimos 10 anos.

Powered by Subscribers Magnet

Você gostou do post? Que tal compartilhá-lo com seus amigos?
Compartilhe!

Tags: , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Ações, Educação financeira

Sobre o Autor ()

Fábio Portela é investidor desde 2006 e disponibiliza neste site seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, seja com sua experiência, seja por meio das leituras que fez ao longo dos anos. O autor é mestre em Direito Constitucional e em Filosofia pela UnB, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional na mesma instituição.

Comentários (20)

Trackback URL | Feed de Comentários RSS

  1. Diego disse:

    No mercado acionário brasileiro esta difícil encontrar uma ação que esteja incluída em todos esses requisitos!

  2. Henrique disse:

    Excelente post. Fábio!
    O que mais vemos são pessoas dando opinião em coisas que nem sabem, e a bolsa de valores está cheia de gente assim. Agora saber a opinião e a forma de análise de ativos de grandes investidores é muito gratificante e um excelente ensinamento.

    Agora, você pode nos falar, por alto, qual ou quais empresas chegam a ter fundamentos semelhantes a esses? Ou que mais cheguem próximos?

    abraço

  3. Flavio disse:

    Bom post. Mas é interessante observar que Graham não teve tanto sucesso nos investimentos como seu pupilo Buffet.

  4. M. Trindade disse:

    Um pai pra mim…

  5. Seu banner esquerdo está ficando em cima do artigo no navegador firefox.

    • Fábio Portela disse:

      Você tentou ajustar com outra resolução?

      Abraços,
      Fábio

      • dimarcinho disse:

        Estou tendo o mesmo problema, Fábio! A resolução que uso é de 1280 x 1024, não creio que seja esse o problema…

        Sobre o artigo, Warren Buffet aprimorou a escola de Graham. Enqto Graham só comprava empresas baratas HOJE, Warren Buffet aplicou o conceito de fluxo de caixa descontado e criou a ideia de Equity Bond, ou seja, pensando no futuro. A Coca-cola foi um exemplo.

        De qq forma, tem q começar pro Graham para ir para Equity Bond!

        Bom artigo!
        []s!

        • Fábio Portela disse:

          Vou tentar encontrar uma solução para esse problema. Vcs estão usando o Firefox?

          • dimarcinho disse:

            Então, Fábio,

            eu uso o Firefox 3.0.15. Mas mesmo no IE 6.0.29 tb dá problema… no IE é pior, a faixa fica no meio do texto :S

            []s!

          • Fábio Portela disse:

            Que estranho!! Nos computadores onde acesso o site, está tudo bem. Mas vou tentar acertar…

          • Pedro Nora disse:

            Verifiquei no Firefox 5.0 e está tudo bem. No Google Chrome também não há problemas.

            Será que não seria interessante atualizar os navegadores?

          • Pedro Nora disse:

            Verifiquei no Firefox 5.0 e está tudo bem. No Google Chrome 12 também não há problemas, da mesma forma no Internet Explorer 9.

            Será que não seria interessante atualizar os navegadores? Além de maior segurança, ganha-se em velocidade e estabilidade.

  6. I40 disse:

    Excelente Post, vou submeter minha ações da carteira a estes critérios e ver como fica.

    Sucesso

    I40

    • Fábio Portela disse:

      I40,

      Cuidado apenas para não tirar conclusões erradas se suas ações não satisfizerem um ou outro critério. Os critérios de Graham são excessivamente restritivos! Se seu investimento preencher a maioria, mas um ou outro não passar pelo filtro, pode ser que ainda seja uma excelente oportunidade. Use os critérios de forma crítica!

  7. Jailson disse:

    Das leituras que realizei do “Investidor Inteligente”, extraí quatro conceitos principais da teoria de Graham.

    1. Alocação adequada de recursos (renda fixa e ações);
    2. Diversificação;
    3. Metáfora do Sr. Mercado;
    4. Margem de Segurança.

    Fábio, sabes se existe tradução para o português do “Security Analysis”.
    Obrigado e parabéns pelo blog.

  8. Carlos Cotrim disse:

    Fábio, parabéns! Excelente artigo. Você sintetiza com clareza as principais ideias do livro de Graham.

  9. Carlos disse:

    Fábio,

    Excelente post!

    Estava procurando a versão em português do Investidor Inteligente, mas tiraram pelo menos da Saraiva. Não sei se haverá revisão… Queria ter feito esse resumo bem prático do livro.

    O que recomento é ter uma planilha pontuando alguns desses ítens e gerando um “ranking” e assim você pode escolher ou confirmar se sua carteira está boa.

    Li um pequeno livro sobre o Graham, de outro autor, onde vi que existem sites onde você submete suas ações para que seja feita automaticamente essa análise fundamentalista e te dá um resultado, mas normalmente é pago anualmente pelo serviço (value investing).

    Poderia haver no Brasil algo como a aba RaioX do GuiaInvest.com com a escolha baseada na análise do Graham ou quem sabe to teu próprio blog?!

    Abraços e parabéns novamente!

  10. carlos disse:

    Tive muita dificuldade de adotar estes criterios, pois simplesmente tem muitas informações de que nao disponho. nao sei calcular por exemplo o historico do PL de uma ação. só encontro o valor atual disto… como eu faço?

Escreva sua resposta.


nove − 6 =

 Assine a newsletter e receba os artigos em seu e-mail