O que é pior? Deixar de ganhar ou perder dinheiro?

11 de maio de 201111 comentários

O que é mais prejudicial em termos de investimento, no longo prazo? Perder dinheiro ou deixar de ganhá-lo? A maioria das pessoas acredita que o pior é perder dinheiro. Afinal, ver o produto de seu trabalho se esvaindo em um investimento ruim não é o sonho de ninguém. Essa discussão surgiu, recentemente, em uma comunidade excelente no Orkut, denominada Ações – Buy and Hold – Bovespa, onde tentei sustentar a tese de que, no longo prazo, o pior é deixar de ganhar. Como a temática é interessantíssima e acredito que seja de interesse de nossos leitores, aproveitarei para debater a questão.

1. Um falso dilema de investimento?

Essa dicotomia pode apresentar, na verdade, um falso dilema.

O que importa é o valor monetário do ativo. E, desse ponto de vista, deixar de ganhar equivale a perder. Imagine que alguém invista R$ 100.000,00 e deixe o dinheiro aplicado em um investimento que só acompanha a inflação (digamos, a poupança – que às vezes até perde). Vou ter ali sempre os meus R$ 100.000,00 (em valores reais). Quem fez isso não perdeu, nem ganhou nada, ou ganhou muito pouco.

Mas digamos que os R$ 100.000,00 sejam investidos e o investidor acabe alcançando, depois de um ano ruim, R$ 70.000,00, em termos reais. Suponhamos ainda que ele tenha escolhido uma excelente empresa que, pelas vicissitudes do mercado, acabou sendo mal avaliada e teve sua cotação diminuída. No longo prazo, provavelmente o investidor recuperará seu dinheiro ou ainda obterá algum lucro, se o investimento de fato se mostrar rentável, apesar da perda momentânea de R$ 30.000,00.

Por outro lado, imagine que nosso investidor esteja em dúvida a respeito de onde investir os R$ 100.000,00. Digamos que ele tenha 2 opções, A e B, e escolha a opção A, que, depois de um ano, acabou permanecendo no mesmo patamar. A opção B, por sua vez, se apreciou em 30% (novamente, valores reais). Ou seja, se tivesse optado por investir em B, teria 30% a mais, ou R$ 130.000,00.

Na prática, as duas situações são equivalentes. Ele tem seus R$ 100.000 no investimento padrão (poupança ou “A”), mas se tivesse feito um investimento “ruim” (perder os R$ 30.000,00 no primeiro exemplo, ou investir em uma empresa que não tenha uma boa performance) ou deixado de fazer um investimento “bom”, no segundo exemplo (e teria deixado de ganhar R$ 30.000), a situação seria equivalente. Ele teria perdido R$ 30.000,00 do mesmo jeito!

O problema é que as pessoas se concentram no seu patrimônio investido, e não no seu patrimônio potencial – que traria uma perspectiva melhor da situação, e mostraria que perder ou deixar de ganhar tem o mesmo impacto – ou, pior, que deixar de ganhar pode ser pior do que perder.

2. No longo prazo, deixar de ganhar dinheiro em um investimento é pior do que perder!

No curto prazo, a situação é essa: perder dinheiro ou deixar de ganhá-lo são equivalentes. Mas, no longo prazo, o impacto de “deixar de ganhar” é muito maior!

No longo prazo, o custo de “deixar de ganhar” é maior do que o “perder” por conta da incidência de juros compostos. Se alguém deixa de ganhar 5% a mais por anos e anos a fio, ou perde 5% a cada ano, no longo prazo o valor monetário da primeira opção é muito maior, porque a base de cálculo aumenta cada vez mais, ao passo que no segundo caso ela só cai.

Vejamos os seguintes exemplos:

a) Deixar de ganhar 10% por ano, em dez anos

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b) Perder 10% por ano, em dez anos

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Como você pode observar, quem perdeu mais dinheiro foi quem deixou de ganhar 10% ao ano. Ele, aplicando R$ 100.000,00, teve uma perda total de R$ 109.876,54, ao passo que quem perdeu 10% por ano, em dez anos, teve uma perda total de R$ 65.132,16.

Mas, como nossos leitores são espertos, eles diriam o seguinte: “ué, Fábio, você está maluco? O sujeito que deixou de ganhar dinheiro continuou com seus R$ 100.000,00, ao passo que quem perdeu o dinheiro ficou com apenas 38% de seu capital inicial, ou R$ 38.742,05! É óbvio que quem perdeu dinheiro está em pior situação do que quem deixou de ganhar!”

Como eu disse antes, esse raciocínio parte do princípio que devemos computar o patrimônio final dos dois sujeitos – R$ 100.000 no primeiro caso, e R$ 38.742,05 no segundo. Mas nós deveríamos embutir nesse cálculo também o custo de oportunidade do investimento. Quem perdeu 10% ao ano teve um custo de oportunidade (de não fazer nada) de R$ 65.132,16, ao passo que quem deixou de ganhar 10% ao ano, teve um custo de oportunidade de R$ 109.876,54. Somando-se o custo de oportunidade ao patrimônio total, quem se focasse apenas em “não perder” teria seus R$ 100.000,00 de volta no bolso (em valores nominais, sem computar inflação!!), ao passo que, quem “deixou de ganhar” acabou abrindo mão de um patrimônio final de R$ 209.876,54 (os R$ 100.000 iniciais somados aos R$ 109.876,54 que deixou de ganhar).

3. O custo de oportunidade de um investimento interfere no seu patrimônio?

Claro, você poderia argumentar que o custo de oportunidade não interfere no meu patrimônio e que eu estou maluco. Tudo bem, é uma maneira de enxergar as coisas. No meu modo de ver, é preciso avaliar, antes de escolher um investimento, quais são os meus custos de oportunidade.

Mas é claro que ninguém pode ficar neurótico com isso. De certa forma, muitos de nós não somos hoje milionários porque nós (ou nossos pais) não investimos na Apple ou na Microsoft em suas origens. Guardado o fato de que é difícil investir no exterior, esse evento interferiu mais negativamente no patrimônio deles do que a canalhada do Collor mexendo na poupança no início dos anos 90. Mesmo que eu desconsidere o investimento na Apple ou na Microsoft, eu ou meus pais poderiam ter considerado investir na Petrobras, Vale, ou na Gerdau na década passada. Meus pais não foram milionários porque não se arriscaram, mas sua situação não ficou lá muito pior por terem perdido o dinheiro roubado pelo Collor. Ou seja, deixar de ganhar afetou muito mais seu patrimônio (impediu que eles ficassem milionários) do que perder o dinheiro da poupança, que os manteve mais ou menos no mesmo patamar financeiro.

Obviamente, eu não estou aconselhando ninguém a investir em qualquer empresa da bolsa só pra ver no que vai dar. Até empresas muito ruins podem, às vezes, dar um retorno espetacular, da ordem de 500% ou 600% (ou até mais). Mas, como ninguém tem bola de cristal, tentamos definir alguns critérios para saber o que tende a dar mais retorno – e, com isso, tentamos excluir empresas ruins de nosso horizonte.

É por isso que eu considero o mercado de ações importante para a formação de um patrimônio relevante. Investir em boas empresas, sólidas e com bom histórico de lucros (e perspectivas de manter um crescimento razoável ao longo do tempo), não assegura que você não perderá dinheiro, mas abre a possibilidade de que você não deixe de ganhá-lo. Existem anos ruins na bolsa, mas é preferível permanecer no mercado nos períodos ruins (e colher algumas perdas) do que estar de fora nos anos bons (e deixar de ganhar). Em parte, acredito que é por isso que a estratégia Buy and Hold de investimento em ações tem sido bem sucedida: ela não pode assegurar que você não vai perder dinheiro, mas ajuda você a não deixar de ganhá-lo.

É importante notar, também, que o investidor não deve se aventurar em empreendimentos puramente especulativos, apenas porque deixar de ganhar pode ser pior do que perder dinheiro. O cerne de meu argumento está em que o investidor não pode deixar de investir por medo de perder dinheiro. Muitas pessoas não investem em ações por causa disso, e deixam de ganhar muito, no longo prazo, por causa disso.

Para superar esse medo e se concentrar na tentativa de não perder as oportunidades de ganhar dinheiro, só há uma saída: educação financeira!

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (11)

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  1. Otimo post e a cada dia eu estou me tornando mais conservador (longo prazo).

    Abços

    ITM

  2. Olá Fábio,
    Mais ou menos por este raciocínio de potencial maior de ganho que parti para a estratégia de investir mais em fundos smallcaps. Já que tenho um bom prazo para acreditar no sucesso da estratégia buy and hold e aplicá-la.
    abs!

  3. Herberto Ueno disse:

    Ótimo artigo Fábio,
    Vc consegui contemplar muito bem a maioria dos argumentos da comunidade.

    Abss.

  4. Renato C disse:

    Ótimo post, que retrata exatamente a psicologia por detrás dos investimentos que pode, por muitas vezes, impedir o investidor de ser um milionário (não por causa do mercado, mas por causa de si próprio).

  5. Nossa que viagem!!! disse:

    Oups… Se, se, se, se, se, cada um mais improvável que o outro.

  6. Jean Jacques disse:

    O mais importante é cada um saber o que está fazendo quem investe no longo prazo somente na ponta compradora, embora desprezem a analise técnica seria interessante sempre comprar no suporte ou abaixo dele, que isso faz com que perca menos e potencializa as altas principalmente no longo prazo.

    Já quem optou pelo curto prazo, que saiba fazer corretamente a relação risco x ganho, para delimitar as perdas.

    Afinal não custa falar o óbvio investimento em ações é renda variável e oscilações é algo natural, para o pessoal do buy and hold, preocupe-se primeiro com a empresa e seus fundamentos, depois com a cotação.

  7. HEAVY METAL disse:

    Fábio, também tem algo com deixar de ganhar: comprei CRUZ3 anos atrás nos 30,00 pilas e vendi com 5% de lucro… ela decolou depois disso. Comprei VALE5 por 40,00 pilas e vendi com 10% de lucro… e ela subiu, splitou, subiu mais e eu dancei. Comprei AMBV4 por 70,00 pilas e vendi nos 80,00… ela foi nos 200,00, splitou e eu tive que dançar forró ao invés de ouvir Iron Maiden.

    Resumo: os mágicos da bolsa se LASCAM. Os adivinhos tem o mesmo destino. Desde que sentei o próprio rabo, minha carteira tem dados bons frutos. ELPL4 vai me dar quase 30 mil de dividendos dia 17/05/11 e saiu seu resultado trimestral hoje (e bombou). Viva renda passiva!

    “Passarinho que pula de galho em galho, quer levar chumbo na asa”.

  8. Carlos disse:

    Olá Fabio!

    O problema é que ao perder 10% ao ano chegando no valor final, pra você recuperar os 100 mil iniciais levará mais 11 anos!! (isso considerando que depois de 10 anos perdendo dinheiro você continue insistindo e comece a ganhar 10% no ano seguinte milagrosamente) Portanto você ficaria no 0 a 0 depois 21 anos de investimento!! Já que é pra ficar no 0 a 0 de qualquer jeito é melhor jogar logo em renda fixa que você não corre risco nenhum e no final de 21 anos a uma taxa de 8% ao ano você teria um montante de R$ 503.383,37!! É muito verdade que devemos considerar sempre os custos de oportunidade, mas também devemos colocar os riscos na função de investimento, e perder 10% ao ano realmente foge muito a realidade…

    • Fábio Portela disse:

      Carlos,

      A ideia do artigo era meramente didática, pra comparar cenários comparáveis! Apenas iluminar a questão a partir de uma perspectiva diferente da que o pessoal normalmente aborda.

  9. Herbert Soares disse:

    O tao de Warren Buffett: para você ganmhar dinheiro no mercado de ações, precisa comprar ações de uma ótima empresa, a um preço justo ou baixo, e conservá-las por um longo período deixando assim que os lucros retidos da empresa aumentem o seu valor subjacente. Foi assim que todas as pessoas, de Bill Gates a Warren Buffet, ficaram super-ricas

  10. Riketz disse:

    mas ainda acho que, perder é pior do que não ganhar:

    se estamos entre perder e não ganhar, as contas devem considerar que são CONDIÇÕES IMUTÁVEIS.. sempre se está perdendo dinheiro ou sempre se está não ganhando dinheiro.

    não haverá mudança, reviravolta, valorização, nuâncias ou variações, as condições são estas PRA SEMPRE e não se pode mudar o investimento.

    caso queira se considerar que o investimento que antes dava prejuízo passe a dar lucro, o investidor que agora está com R$38.700 passará a ganhar dinheiro, mas isto é uma mudança no quadro, e já que se pode mudar, o investidor com R$100.000 também pode mudar seu investimento estagnado para o que dá lucro.

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