Comprar ações de empresas que se valorizaram muito é bom negócio?

18 de abril de 201112 comentários

Uma dúvida muito comum entre investidores em ações diz respeito ao risco de comprar ações de uma empresa que se valorizaram muito nos últimos meses. Apostar em ações que se valorizaram muito no passado recente pode ser uma boa estratégia? Ou seria melhor investir em ações que têm “levado uma surra” do mercado?

Tive a ideia de escrever este post em razão da dúvida de um de nossos leitores, o Rodrigo. Segue o e-mail enviado por ele:

“Prezado Fábio,

Inicialmente gostaria de parabenizá-lo pelo excelente conteúdo do site.

Estou pretendendo iniciar investimentos em ações, mas, como todo iniciante, tenho muitas dúvidas e inseguranças.

A maior delas, com certeza, é a de ver empresas com alta cotação, em relação a períodos anteriores. Como esperar que a valorização continue, garantindo o retorno esperado? Em outras palavras, é muito difícil acreditar numa empresa com valorização acumulada continuar a subir suas cotações?

Tomei como exemplo uma empresa que, pode-se dizer recentemente, abriu o capital na Bolsa, que é a Renova Energia S/A (RNEW11). Se observarmos que suas ações já valorizaram mais de 100% em menos de um ano, é possível confiar numa manutenção dessa tendência de alta?

Não sei se será possível a você responder ou esclarecer esses questionamentos, mas já ajudaria muito algumas dicas para que eu possa me virar melhor.

Muito obrigado pelo espaço.”

1. Por que as ações de uma empresa se valorizam?

Para tentar responder à pergunta de nosso leitor, acredito ser importante tentar explicar o motivo pelo qual as ações de uma empresa se valorizam. No curto prazo, isso pode ocorrer por várias razões: o mercado pode achar que o futuro da empresa será brilhante, pode sair uma notícia animadora sobre os produtos da empresa, ou o Presidente da companhia pode dar uma entrevista bem recebida pelo mercado. O governo também pode tomar uma decisão sobre algum aspecto que, segundo o mercado, pode afetar os resultados da empresa, e muitas outras coisas podem acontecer.

Mas, no longo prazo, um único fator pode elevar a rentabilidade das ações de uma empresa: os resultados de sua atividade. Se uma empresa lucra, e tem lucros crescentes ao longo dos anos, é razoável supor que a cotação de suas ações irá subir ao longo do tempo. Comprar ações de empresas com lucros crescentes é um excelente negócio. Vejamos alguns exemplos de empresas cujas cotações subiram paralelamente aos seus lucros.

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Os dois gráficos se referem às ações preferenciais da Coelce (COCE5). O primeiro gráfico mostra a evolução do lucro líquido da empresa, entre 2004 e 2010. As linhas azuis representam o lucro líquido da empresa, e as linhas verdes, os proventos (dividendos e juros sobre capital) distribuídos ao longo dos anos. Como o leitor pode perceber, a tendência tem sido crescente, apesar de alguns breves períodos de recuo. Da mesma forma, o segundo gráfico tem sido crescente ao longo dos anos: ele representa a evolução da cotação das ações da empresa, de 1998 em diante Se o leitor se concentrar no que aconteceu de 2004 pra frente, perceberá o seguinte: mesmo que no curto prazo as cotações não representem exatamente a evolução do lucro, no longo prazo houve um forte acompanhamento da tendência dos lucros.

Vejamos, agora, o caso de uma outra empresa, a Gerdau, e suas ações preferenciais (GGBR4).

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Como o leitor pode observar, a Gerdau teve lucros crescentes, apesar de não tão expressivos, entre 2004 e o segundo trimestre de 2008. A atividade da empresa ia bem até o “estouro” da crise de 2008. Houve forte retração nos lucros, e depois uma certa recuperação, mas ainda longe de retornar aos patamares pré-crise. De lá pra cá, comprar ações da empresa não tem sido um bom negócio. Agora dê uma olhada no segundo gráfico, que expressa os preços da ação. A cotação da empresa subiu fortemente entre 2001 e 2008 (apesar de estarmos nos concentrando entre 2004 e 2008), quando houve uma forte retração (de mais de 70%) entre o pico (em torno de R$ 40,00) e o fundo (em torno de R$ 11,00 no auge da crise) do valor da cotação.

Embora a proporção não tenha sido exatamente a mesma, nos dois casos é possível observar uma certa correlação entre os lucros e o preço das ações. É claro que há outros fatores em jogo, mas no longo prazo o que conta é o quanto a empresa consegue retornar em valor para seu acionista. E a melhor medida é o lucro por ação da empresa (apesar de, no exemplo, estarmos utilizando o lucro líquido).

2. O fato de uma empresa ter se valorizado muito no passado próximo indica maior risco de comprar ações no futuro?

O leitor poderia dizer que, até agora, não respondi à pergunta: afinal, uma ação que se valorizou muito tem muita chance de não ter uma performance tão positiva no futuro?

De certa maneira, já respondi um pouco da questão. Dê uma olhada no caso da Coelce: a ação tem se valorizado muito praticamente de 2002 em diante, sem praticamente nenhum percalço na cotação. Em alguns períodos, obviamente, houve uma certa acomodação nos preços, mas no geral a ação praticamente só se valorizou desde então. Para que o leitor tenha uma ideia, de 2006 em diante a ação teve a seguinte rentabilidade: 2006 – 77,10%; 2007 – 3,82%; 2008 – 19,33% – 2009 – 58,87%; 2010 – 1,44%; e 2011 – 22,44% até o momento. Comprar ações da Coelce foi um excelente negócio, concorda? Fora os anos de 2007 e 2010, os demais anos tiveram uma rentabilidade espetacular, bem acima dos ganhos da renda fixa. Sem contar os dividendos…

Outro exemplo: as ações da Natura (NATU3). Dê uma olhada no gráfico de evolução do lucro líquido da empresa, bem como na evolução de sua cotação:

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Se você observar bem, temos a mesma tendência: a evolução da cotação segue praticamente a tendência de evolução do lucro. Em 2007, uma retração pequena nos lucros levou a uma retração forte nos preços, mas que foi revertida pelo forte crescimento nos lucros nos anos posteriores. No total, as ações tiveram a seguinte performance, quanto a suas cotações: 2006 – 63,15%; 2007 – (-40,34%); 2008 – 17,97%; 2009 – 97,85%; 2010 – 36,85%; e 2011 – (-4,02%). Apesar das retrações em 2007 e até o momento, em 2011, fortes desempenhos nos demais exercícios, sem que a tendência tenha diminuído.

Obviamente, nem tudo são flores. Também é importante destacar os casos em que os prejuízos seguidos da empresa levam a resultados pífios no mercado de ações. Dê uma olhada na performance da Tec Toy (TOYB4):

wpid-ishot-410-2011-04-18-06-00.jpgwpid-ishot-411-2011-04-18-06-00.jpg

Como você pode observar no primeiro gráfico, o lucro líquido é pífio – assim como a rentabilidade das ações da empresa, que valem hoje menos de 1/6 do que valiam no início de 2007…

Quanto às ações da Renova (RNEW11), sobre a qual o leitor formula sua pergunta, é difícil dizer qualquer coisa. A empresa, que produz energia elétrica por meio de parques eólicos e pequenas centrais elétricas, abriu seu capital apenas em julho de 2010, e não tem um histórico de lucros que permita avaliar sua evolução. Essa, aliás, é uma das principais dificuldades de se investir em uma empresa que abriu seu capital recentemente: sem histórico, não é possível dizer qualquer coisa. A RNEW11 teve ganhos fantásticos em 2010 (+54,14%) e em 2011 (+51,33%), mas é difícil saber se as ações ainda têm espaço para maiores avanços. Tudo depende de como seu lucro irá se comportar no longo prazo…

3. Por que as pessoas acreditam que comprar ações de forte desempenho no passado não é um bom negócio?

Como o leitor pôde observar nos exemplos citados, não é possível dizer que uma performance forte no mercado de ações no passado recente indique uma performance ruim no futuro, e nem vice-versa. No longo prazo, tudo depende da performance operacional da empresa. Se a empresa tem lucros crescentes, é razoável esperar que as cotações reflitam essa performance. Mesmo assim, existem situações em que o mercado “desconta” certos “futuros” possíveis da empresa, distorcendo os preços sem qualquer razão fundamentalista relevante.

Acredito que muitos pensem que o forte desempenho no passado impeça um forte desempenho no futuro por acreditarem que os preços de ações seguem uma lógica de elástico: quanto mais você puxa um elástico, mais ele tende a fazer força para o movimento contrário. Quando os preços sobem de mais sem qualquer razão aparente, essa imagem pode ser adequada. Mas às vezes, principalmente em empresas com forte vantagem competitiva, essa imagem não é realista. Os preços sobem, sobem, sobem, e continuam a subir porque a empresa consegue, trimestre após trimestre, ano após ano, apresentar lucros crescentes e consistentes, com fortes margens operacionais. É óbvio que o lucro não diz tudo sobre a atividade da empresa, mas é um forte indicador de sua realidade: ninguém consegue falsificar seus balanços por décadas a fio, sem punição (muito embora isso seja possível por alguns períodos, como o caso Panamericano mostrou).

E você, tem mais exemplos de empresas que têm se valorizado anos a fio sem qualquer sinal aparente de desgaste? E recomenda comprar ações dessas empresas?

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (12)

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  1. Anonimo disse:

    The trend is your friend, my friends. Vale nos fundamentos também, até certo ponto.

  2. Andre Luiz disse:

    Muito boas as dicas, Fábio.

    Realmente empresa nova é muito difícil de avaliar. A Renova vem apresentando um ótimo desempenho, poderia ser uma boa opção, mas vale lembrar o episódio da Ecodiesel: estreou bombando na bolsa e hoje suas ações valem centavos.

    Abraços.

    • Fábio Portela disse:

      Pois é, é difícil avaliar empresas novas. Por isso, não gosto de comprar em IPOs: você não tem histórico algum da empresa para comparar e avaliar!

  3. Jean Jacques disse:

    Questão difícil de ser respondida já que na bolsa incluindo ações, ETFs, fundos imobiliários, simplesmete temos mais de 572 ativos a nossa disposição e nesse universo relativamente grande, temos todo o tipo de casos, o melhor para quem está começando ou quer começar é adquirir conhecimento sobre analise técnica e fundamentalista e montar um trading system que mescle as duas analises na hora de escolher um ativo.

  4. EvertonRic disse:

    Ah meu amigo Portela, mas ai nesta análise tem mais um montão de fatores financeiros que necessitamos analisar.
    A análise fundamentalista financeira de cada companhia requer muito estudo e não pode ser considerado tão simples assim, apenas com dois ou três gráficos de lucro, crescimento, lucro líquido etc.
    Descordo de você neste caso, porém o blog está cada dia melhor.
    Um forte abraço.

    • Fábio Portela disse:

      Prezado Everton,

      Com certeza! O que eu quis mostrar é que o simples fato de a cotação ter subido muito não indica nada… ela pode subir muito e depois cair, como ocorreu com a Gerdau, ou pode subir, subir e subir, como no caso da Coelce ou o da Natura. Normalmente, isso ocorre por conta de fundamentos, no longo prazo. É claro que eu poderia ter escolhido várias outras variáveis, mas o objetivo foi mostrar que, se uma empresa consegue aumentar sua lucratividade consistentemente, é de se esperar que sua cotação também aumente. Além disso, há muitos outros artigos no blog que mostram outras variáveis, tais como o ROE, o P/L, a margem de lucro, e por aí vai…

  5. Fábio,

    Acho que você deveria analisar mais a fundo o tema. Existe um texto do Bernstein bem introdutório falando sobre o MOMENTUM, que, apesar de ser uma anomalia, é real. Portanto, o fato é que AÇÕES COM RETORNO POSITIVO NO ANO ANTERIOR TEM UMA PROBABILIDADE MAIOR DE TEREM RETORNO POSITIVO NO ANO SEGUINTE. Tem muitos estudos sobre isso, dê uma pesquisada. O estudo clássico sobre isso é “On Persistance in Mutual Fund Performance” de Mark M. Carhart.

    O engraçado é que para períodos mais longos (2-4 anos) o inverso acontece: ações depreciadas tem uma performance muito superior às valorizadas. Isso é chamado de winner-loser anomaly.

    Ou seja, no curto prazo momentum, no longo prazo reversão.

    Abraços,

    VR.

    • Fábio Portela disse:

      VR,

      Estou ciente do estudo. O próprio Damodaran o cita. Mas note que o estudo diz respeito à média estatística, e não a ações individuais: não tem nada que impeça uma cotação a se valorizar por muitos e muitos anos a uma taxa elevada, seguindo bons fundamentos. No meu caso, eu quis mostrar que um bom investidor deve se atentar aos fundamentos (assim como falei com o Everton, há muitas coisas a serem consideradas, e não apenas o lucro): se eles forem bom e melhorarem ainda mais ao longo do tempo, provavelmente a ação se valorizará também.

      Um abraço,
      Fábio

  6. Bom post!

    abços

    ITM

  7. Grave digger disse:

    Concordo com o post, mas só temos que atentar que nao basta olhar o crescimento do lucro e do preço sem olhar o quanto cada um cresceu – ou seja, olhar o p/l. Isso vale pra coce por exemplo. O preço subiu bem mais que o lucro, e sendo assim ela pode estar muito cara.
    Um exemplo impressionante desse assunto e a hering. Subiu umas 15x em 2 anos e ainda nao esta sobrevalorizada… Eu devia ter confiado na minha analise e comprado ela a vinte e poucos reais…

  8. Noberto disse:

    análise técnica é chute

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