Todo mundo tem que investir em Petrobras e Vale?

21 de março de 201112 comentários

As grandes vedetes da bolsa de valores brasileira são as ações da Vale e da Petrobras. Há muitos anos, investir em ações é sinônimo de ter uma pequena fração das duas gigantes do Ibovespa. Quem investiu nelas no início deste período, que se iniciou na fase posterior ao Plano Real, com a estabilização da economia, não tem do que reclamar. De 1998 pra cá, por exemplo, as ações preferenciais da Petrobras subiram 2.334% (27,84% ao ano, em média), e as da Vale, 4.540% (ou 34,35% ao ano). Tão impressionante que, para muitas pessoas, as ações das duas empresas devem constar nas carteiras de investimento de qualquer pessoa – e seria uma “maluquice” não ter ações delas. Mas será mesmo?

1. Investir na Vale e na Petrobras no passado foi um bom negócio…

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Gráfico da esquerda: Vale – Gráfico da direita: Petrobras

A evolução dos preços das duas empresas parece seguir uma lógica bem parecida. A Vale, em 1998, encerrou o ano cotada a aproximadamente R$ 0,99 por ação; a Petrobrás, a R$ 1,15 (os preços já descontam eventuais splits nos preços das ações). Hoje, as empresas estão cotadas, respectivamente, em torno de R$ 46,00, e R$ 28,00, por ação preferencial. Sem contar com os dividendos. Quem tinha R$ 10.000,00 investidos nas ações de cada uma das empresas em 1998, quando a economia brasileira estava derrapando em meio a sucessivas crises e em decorrência dos baixos preços das commodities, teria, hoje, R$ 464.000,00 em ações da Vale, e R$ 243.000,00 em ações da Petrobras.

Uma performance impressionante, sem sombra de dúvidas. Isso significa que a grande mídia está certa, ao aconselhar que o investidor tem que ter ações da Vale ou da Petrobras em sua carteira? Não, em absoluto. Vale e Petrobras são empresas como qualquer outra. Não têm qualquer selo de garantia de que as impeça de quebrar ou de dar prejuízo.

2. Riscos de investir em Vale e Petrobras

Mª Ángeles

Image by Lady Pain via Flickr

A Petrobras vem acompanhada de um grande risco associado – o risco governo -, que não pode ser desconsiderado. No ano passado, no processo de capitalização, vimos o quanto esse risco pode prejudicar o pequeno investidor: na surdina, o governo surrupiou quase 30% da proporção que cada ação representava no patrimônio da empresa, e até hoje muita gente não se deu conta disso. Além disso, os investimentos necessários para explorar lucrativamente o pré-sal ainda são obscuros, apesar da propaganda estatal de que o céu é o limite para a empresa.

Por enquanto, a Vale tem conseguido se desvencilhar desse risco. Mas o governo também tem uma grande fatia das ações da Vale em sua posse (por meio do BNDES), e além disso tem estado descontente com a atitude da empresa de não se alinhar ao perfil político governamental. Em outras palavras, a Vale tem resistido a ser mais um “cabide de empregos” direcionado para a satisfação dos interesses do Planalto. Embora a empresa seja uma espetacular pagadora de impostos – hoje, ela é mais rentável para o governo do que jamais fora enquanto estatal -, o governo quer ter um papel mais ativo na gestão da empresa. Há algum tempo, o presidente da Vale há 10 anos, Roger Agnelli, tem sido “fritado” pelo governo, que deseja indicar seu substituto. Agnelli foi um espetacular gestor, tendo sido responsável por uma administração que levou a empresa a ser um dos principais players do mercado.

Das duas, eu prefiro a Vale à Petrobras. Mas isso não significa que eu estou aconselhando ninguém a comprar ações dela ou de nenhuma companhia (até porque eu não tenho o poder de fazer qualquer recomendação: sou um simples investidor tentando compartilhar minhas opiniões). Investir nas empresas tem seus riscos que também devem ser avaliados criticamente. Mas acredito que a Vale tem uma gestão melhor e, principalmente, mais independente que a Petrobras.

Outro risco associado às duas diz respeito ao seu setor de atuação. As duas empresas atuam no setor de commodities, que passou por um boom na década passada. Se na era FHC as commodities estavam no seu piso histórico, durante o governo Lula elas se recuperaram rapidamente e chegaram ao seu teto histórico. Antes que um lulista diga que isso foi responsabilidade do ex-presidente, na verdade a relação de causalidade é contrária: o governo Lula foi tão bom, em parte, justamente porque o preço das commodities disparou a partir de 2002, levado pela locomotiva chinesa e pelo mercado americano (até a crise de 2008). Como o Brasil é grande exportador de commodities, sua economia foi particularmente beneficiada por este contexto – bem ao contrário do que aconteceu entre 1994 e 2002, quando sucessivas crises neste setor impediram que o Brasil tivesse um maior crescimento.

Política à parte, o fato é que a próxima década pode não ser tão boa para o setor de commodities quanto foram os anos 2000. Os Estados Unidos são ainda o principal motor da economia mundial – ou você acha que um PIB de 14 trilhões de dólares é pouco? -, e eles ainda estão derrapando por conta da crise que se iniciou em 2008. O desemprego é alto, e a inflação também tem crescido muito nos últimos anos. A economia japonesa, outro grande participante do mercado mundial, também está em baixa há um bom tempo (e, como desgraça pouca é bobagem, nas últimas semanas nossos irmãos orientais enfrentaram terremotos, tsunamis e estão à beira de uma catástrofe nuclear). A Europa também está crescendo muito pouco.

Baixo crescimento econômico significa menos consumo de Petróleo e de minérios, além de outras commodities. A não ser que haja um crescimento sustentável em outras partes do planeta – a China também já dá alguns sinais de desgaste e de incapacidade de manter seu crescimento nos níveis excepcionais dos últimos anos -, o cenário econômico pode ser desfavorável a essas empresas.

Mas, como alguém que acredita no livre mercado e no capitalismo, tenho certeza de que novos mercados serão desbravados e, quiçá, as economias americana, japonesa e europeia se recuperarão nos próximos anos. Boa parte da Ásia ainda precisa se desenvolver, e talvez esteja perto da hora de os países africanos começarem a ser beneficiados pela economia capitalista. Não tenho dúvidas de que nas próximas décadas o mundo se voltará para a África – quiçá, com a derrocada de regimes ditatoriais e a instauração de democracias constitucionais capazes de institucionalizar economias produtivas. Muitas empresas brasileiras já se voltam para esse mercado, como a Marcopolo. A própria Petrobras já explora petróleo no continente, assim como a Vale, que já procura parceiros comerciais por lá. Espero que a onda de derrubada de ditaduras se torne, de fato, uma tendência, e que seja acompanhada de uma estabilização política que leve ao desenvolvimento social e econômico do continente, que foi explorado por centenas de anos.

3. Petrobras e Vale foram as campeãs de crescimento?

A grande razão para que a grande mídia recomende o investimento em Vale e Petrobras diz respeito ao espetacular crescimento das empresas nos últimos anos. Um analista que não recomende Vale ou Petrobras em sua carreira é olhado com desdém. Talvez, muitos analistas indiquem as duas empresas apenas para não ir contra a maré: afinal, errar em conjunto com outros é melhor do que errar sozinho.

Mas o que muitas pessoas não sabem é que as duas não foram as campeãs de crescimento nesse período. Algumas outras empresas deram a seus acionistas rentabilidade superior às duas vedetes.

As ações da Randon Participações (RAPT4), por exemplo, estavam cotada a meros R$ 0,15 em 1998, e hoje estão avaliadas em torno de R$ 10,90 – um crescimento de 7.592%. As ações de uma empresa do setor elétrico – que normalmente é considerado de baixo crescimento -, a Coelce (COCE5), valiam R$ 1,17 em 1998, e hoje valem em torno de R$ 30,00, um crescimento de 2.464%, comparável ao da Petrobras. Em 2000, as ações da Ambev (AMBV4) estavam cotadas a R$ 3,50; hoje, estão avaliadas em torno de R$ 45,00 (rentabilidade de 1.185%). As ações preferenciais da Livraria Saraiva (SLED4), empresa que quase nenhum analista cobre, estavam cotadas a R$ 1,65 em 1998, e hoje são negociadas a R$ 37,00 (rentabilidade de 2.142%). Sem contar dividendos. Com os dividendos, por exemplo, não tenho a menor dúvida de que as ações da Coelce, que é uma excelente pagadora de proventos, teriam tido uma rentabilidade espetacularmente superior à da Vale e da Petrobras. Embora nem todas as empresas citadas tenham crescido tanto quanto Petrobras e Vale, é fácil perceber que outras boas companhias também tiveram rendimentos espetaculares.

Claro, comparar o crescimento de empresas diferentes olhando pro passado é fácil. É só escolher empresas que cresceram e comparar. Alguém poderia me acusar de ser desonesto por fazer isso; saber quem ganhou depois do jogo ter acabado é fácil. O difícil é saber quem serão os vencedores daqui a 10, 15 anos.

Meu objetivo, contudo, não foi o de mostrar que Coelce, Ambev, Randon ou Saraiva são investimentos melhores que Vale ou Petrobras para o futuro. Embora eu tenha ações de todas estas empresas, não as recomendo para ninguém. Cada um é responsável por seu patrimônio. Só quero mostrar para quem investe apenas em Petrobras e Vale que outras empresas existem e que precisam ser estudadas, porque podem ser um melhor investimento do que as duas queridinhas do Ibovespa.

* Em atenção à política de transparência que adoto no site, declaro que sou proprietário de ações preferenciais da Vale (VALE5), mas não detenho ações da Petrobras desde meados de 2010, quando ficaram mais evidentes os imbróglios da capitalização da empresa. Detenho, ainda, entre as empresas citadas, ações da Coelce (COCE3), Ambev (AMBV4), Randon (RAPT4), Marcopolo (POMO4) e Saraiva (SLED4).

** As cotações de todas as empresas, inclusive Vale e Petrobras, foram extraídas do site Fundamentus.

Vale
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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (12)

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  1. Bom post.

    Hoje em dia, quais ações voce acredita que poderiam se destacar daqui pra frente ?

    • Fábio Portela disse:

      É difícil responder a esta pergunta com exatidão. Gosto muito de small caps e estou investindo em Randon, Saraiva, Coelce e Drogasil.

  2. Andre Luiz disse:

    Ontem eu estava folheando o “Valor Econômico” e dei uma olhada em todas as ações negociadas na BOVESPA. Acredita que a que mais me chamou a atenção foi a Marcopolo? Justamente por ser uma empresa de ponta naquilo que faz e pelo baixo valor nominal das ações, o que permite comprar maior quantidade. Vim ao trabalho disposto a saber um pouco mais da empresa e das ações desta. Aí entro aqui e me deparo com esse post! Deve ser algum sinal divino. rsrsrs

    Um abraço, Fábio.

  3. André W disse:

    Parabéns pelo post. Todos q iniciam na bolsa ou q não tem ações ainda sempre levam em conta a compra de vale e petro. Imagino tb q a mídia associe a imagem do ibov a essas duas ações. Quanto ambv4, no seu cálculo, vc levou em consideração os desdobramentos? Acredito q a valorização foi muito maior, pois ano passado estava acima de 200 reais até o desdobramento.
    Grande abraço

    • Fábio Portela disse:

      Os dados que usei levaram em consideração o desdobramento sim…

  4. Blog Pensando Grande disse:

    Olá, tudo bem?
    Sou do blog Pensando Grande, um projeto da Microsoft voltado para pequenas e médias empresas onde são publicados diariamente conteúdos voltados para os empresários deste porte.
    Gostaria de um e-mail de contato para trocarmos conteúdos e futuras parcerias.

    Obrigado!

    • Fábio Portela disse:

      Pode entrar em contato pelo fabio@opequenoinvestidor.com.br

  5. As novas petro e vale da Bovespa as vezes ainda nem existem rsrs… Essas duas empresas vão continuar por um bom tempo ocupando o espaço das duas potências do índice, o mercado delas é muito bom e tem comprador no mundo pra pelo menos 10 ou 20 anos de operações. Mas não significa que irão continuar bombando, mesmo porque na minha opinião essas empresas não estão baratas pra comprar. Mas nada impede de tirar proveito do momento especulando nesses dois papéis, ainda tem espaço para long x short (petroxvale) também com risco baixo.

    Abcs,

  6. Fernanda disse:

    Surpreendente mesmo foi a valorização das Lojas Americanas. A LAME4 valia aproximadamente R$ 0,08 em 1999 e agora a cotação está em torno dos R$ 14,40. Valorização de 18.000%!
    Dez mil reais teriam se transformado em um milhão e oitocentos mil.

    OBS: não gosto e não tenho ações da empresa.

  7. Humberto disse:

    Excelente artigo… Existe muito mais que Vale e Petro na bolsa. O que muita gente não faz é parar para analisar outras ações e investigar seus fundamentos. A maior parte das pessoas que conheço que ivestem na bolsa não conhecem minimamente os fundamentos das empresas em que colocam seu dinheiro, vão pelo oba-oba e pelas notícias que são veiculas na mídia.
    É isso, cada um é responsável por seus investimentos. Mais uma vez, parabéns pelo artigo.
    Abração

    Humberto

  8. Fabricio Costa Bandeira disse:

    Fábio, parabéns pela qualidade dos seus textos. Sempre bem elaborados e com excelentes fundamentos. Das small que possuo, a que me deu mais alegria foi EZTC3 comprada a R$1,97 salvo engano em jan/fev 2009 e que hoje fechou a R$14,00. Ainda não tenho Randon e Marcopolo mas são emprsas que gostaria de possuir na minha carteira.
    Gostaria que abordasse o tema aluguel de ações e também que fizesse um comparativo entre retorno entre epresas de crescimento x pagadoras de bons dividendos no LP. Qual a melhor estratégia?
    Agradeço.

  9. rjcinvest disse:

    Pois é,
    E esqueceram da eternit umas das que mais pagam dividendos…, Itaúsa, wege e outras…
    Referente a petr e vale,as suas opcões são também as mais negociadas, são muito acompanhadas, e isso contribui para a alta liquidez. Mas, para mim, o fato é que apesar de não gostar muito de empresas de commodities onde são normalmente cíclicas e com participações acionárias significativas do governo( aja paciência), estas empresas mostram pela minha avaliação e sou radical e linha dura neste quesito bons fundamentos e o valor intrínseco da petr está baixo em relação a sua cotação. Na vale, apesar de bons fundamentos de um modo geral ainda preciso fazer a valuation atualizada para dizer isso…Mas, de um modo geral, são boas empresas, claro que, ainda há outras MELHORES, e outras blue chips que não são tão azuis assim…Por sinal, uma grande parte de blues chips nem considero.

    Abraços

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