Investimento ativo e passivo em ações
Um modo muito utilizado para “classificar” os investidores em ações diz respeito ao modo pelo qual eles investem. Se o investidor prefere confiar em um índice de ações particular e investe paulatinamente seu capital em um fundo de ações que o replica, com o mero objetivo de ter uma rentabilidade idêntica à do índice, diz-se que é um investidor passivo. Por outro lado, quem prefere selecionar suas próprias empresas e, ao longo do tempo, vende e compra ações de acordo com suas análises a cada momento, é classificado como um investidor ativo. Mas, no fim das contas, quem tem maiores chances de ser bem sucedido na administração de seu patrimônio?
1. Revendo a dualidade entre investimento ativo e passivo em ações
A meu ver, esta tentativa de classificação mistura duas coisas diferentes. Investir em um fundo de ações que replique um índice em particular, por si só, não indica que o investimento tem natureza ativa ou passiva.
Imagine a seguinte situação: Joãozinho, um sujeito muito esperto, resolve investir em ações. Mas, como ele não quer se comprometer com qualquer empresa em particular, prefere investir em um fundo que replique um índice qualquer – por exemplo, o Ibovespa. Mas, como se julga esperto e capaz de identificar tendências, nosso querido Joãozinho compra quotas do fundo quando acredita que o Ibovespa vai subir, e as vende quando julga que o mercado está pessimista. Em outras palavras, apesar de investir em um fundo de ações que replique um índice particular, Joãozinho está adotando uma postura ativa na gestão de seus investimentos.
Vejamos uma outra hipótese. Mariazinha, uma investidora que já passou por muitas crises, acredita que a economia irá crescer no longo prazo, apesar dos solavancos das crises que vez ou outra acontecem. Além disso, ela sabe que muitas empresas são mal administradas e, por isso, prefere selecionar bem as empresas em que investe. Ela sabe, também, que boas empresas são bem administradas por longos períodos de tempo e, por esta razão, acredita que não deve comprar e vender muito suas ações, porque no longo prazo o que importará, principalmente, será adquirir ações de boas empresas a preços razoáveis. Portanto, Mariazinha está adotando uma postura passiva na gestão de suas economias.
Você percebe, portanto, que investir em um fundo ou investir diretamente em ações não tem nada a ver com “gestão ativa” ou com “gestão passiva” de seus investimentos? É perfeitamente possível administrar passivamente uma carteira de ações, ou um fundo, assim como também é possível gerir ativamente o investimento em um fundo ou em ações diretamente. Da mesma forma, os gestores de um fundo de ações em particular podem adotar uma postura ativa ou passiva na gestão dos ativos que compõem o fundo.
2. Quem se sai melhor no investimento em ações? Gestores passivos ou ativos?
À primeira vista, alguém poderia pensar que gestores ativos têm maior probabilidade de se sair melhor no investimento em ações. Afinal, se você compra ações no momento correto e as vende quando o preço é atrativo, e faz isso muitas vezes, deve ter um resultado melhor do que quem apenas compra ações e as deixa quietinhas, não é?
Pois é: mas a experiência mostra que não é bem assim. Aswath Damodaran, em um livro muito interessante, mostrou que fundos ativos obtiveram, da década de 1960 para cá, um resultado inferior ao de fundos que adotaram uma estratégia passiva de investimento. E o estudo abrange tanto o investimento em ações quanto o investimento em renda fixa, em vários países. No estudo internacional, em que se analisou a rentabilidade em vários mercados (latino-americano, asiático e demais mercados emergentes) entre 1980 e 2000, a tendência se manteve, como se pode observar no gráfico abaixo:

Fonte: DAMODARAN, Aswath. Filosofias de investimento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2006. p. 464
Em outras palavras, a rentabilidade média dos fundos de investimento foi inferior à dos índices do mercado. Por que isso acontece? Segundo Damodaran, isso ocorreu em razão de boa parte dos fundos adotar uma estratégia ativa – já que, se eles adotassem uma estratégia passiva que replicasse o índice médio do mercado, teriam um desempenho superior.
A baixa performance média dos fundos decorreu de vários fatores, segundo Damodaran. Destaco os principais:
a) Custos com transação de ações:
Como os investidores ativos precisam negociar mais vezes suas ações, pagam cada vez mais corretagem. Já o investidor passivo, por sua vez, paga apenas uma vez – no momento em que compra o ativo. Imagine que uma corretora cobre R$ 5,00 de corretagem por operação. Um investidor passivo pagará R$ 5,00 pela compra do ativo, e mais R$ 5,00 a cada vez que compra ações novamente. Já um investidor passivo que realize 20 operações por mês, pagará R$ 100,00. Pode parecer pouco, mas em um único ano, o investidor passivo que investisse uma vez por mês, comprando ações de uma única empresa, teria pago apenas R$ 60 em corretagem; já o investidor ativo, teria pago R$ 1.200,00. Em 10 anos, seriam R$ 600,00 contra R$ 12.000,00. Uma bela diferença, não é?
Esses custos também afetam quem investe em fundos de investimento. Fundos de investimento ativos são mais caros, por cobrarem taxas de administração maiores – justamente para cobrir os custos com corretagem e para “remunerar” gestores mais ativos, dos quais se espera uma performance superior à do mercado. Já fundos passivos cobram taxas de administração menor.
b) Impostos:
como investidores ativos compram e vendem ações muitas vezes ao longo de um mês, eles tendem a pagar mais impostos do que quem administra passivamente seus investimentos. Esse custo afeta, especialmente, quem negocia mais de R$ 20.000 por mês (quem negocia dentro desse limite, é isento). Já quem investe passivamente, pode até não ter que pagar imposto nunca em sua vida (desde que não venda suas ações ou as venda no limite de R$ 20.000 em cada mês). Imagine a situação de um investidor ativo que tem um lucro de R$ 2.000 por mês em suas operações, e paga 15% de Imposto de Renda (R$ 300,00 por mês em impostos): em 1 ano, já seriam R$ 3.600,00; e em 10 anos, R$ 36.000,00 entregues de bandeja pro governo.
c) Excesso de atividade:
Quem investe ativamente também pode correr o risco de ser excessivamente ativo. Girar a carteira demais dá muito trabalho e, em boa parte das vezes, como já visto, apenas potencializa ainda mais os gastos com corretagem e com impostos. Mesmo que o lucro recebido nas operações seja superior ao de um investidor passivo, os custos decorrentes do excesso de atividade podem diminuir sensivelmente o lucro líquido percebido – que é, no fim das contas, o que importa, não é mesmo?
d) Ficar fora do mercado:
Este talvez seja o principal risco de quem investe ativamente. Essa estratégia pressupõe que o investidor tem dinheiro em caixa para poder comprar novas ações. Nem sempre é possível deixar todo o dinheiro investido porque é preciso ter dinheiro para investir em “novas oportunidades” no mercado. Mas isso significa que o investidor que deixou dinheiro de fora pode perder alguns dos melhores dias para se ter dinheiro na bolsa. No meio de um mercado em marasmo, pode ocorrer, de repente e sem aviso, uma alta inesperada que inicia um ciclo importante de alta. Se boa parte de seu dinheiro “fora”, aguardando uma oportunidade, o investidor ativo pode ficar a ver navios. Já quem permanece investido, faça chuva ou faça sol, sempre estará lá para pegar esses dias. E ainda pode aproveitar os períodos de turbulência para aumentar ainda mais seu patrimônio.
No longo prazo, investir em ações de companhias com bom histórico aumenta a sua probabilidade de sucesso!
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Ótimo post Fábio, Parabéns.
Poderia citar as empresas que investe no longo prazo?
Abraço.
Sempre direto no ponto!
Eu mesmo sofria desse mal de pensar que investimento em índice fosse uma atitude passiva e de “ticar” as ações fosse o contrário.
Já não sofro mais desse mal!
Obrigado
Por essa definição de gestão passiva/ativa realmente a passiva leva vantagem.
Mas acho que a definição corrente seria:
Fundos ativos: Fundo de investimento que busca alcançar lucratividade superior ao benchmark indicado (IBovespa, IBA etc).
Fundos passivos: Fundo de investimento que busca replicar a lucratividade do benchmark indicado (IBovespa, IBA etc)
Por essa definição eu já acho que a gestão ativa seria mais eficaz (o buy em hold seria gestão ativa).
Fabio,
O problema é que mesmo assim o investidor nesses fundos poderia adotar uma postura ativa ou passiva (claro, nesse caso a postura “passiva” seria ainda “ativa”, já que o gestor é “ativo”). Também conheço essa classificação.
Caro Fábio Portela, tbem temos que citar o tempo que se perde fazendo “trades” buscando uma rentabilidade maior(ativos).
O investidor passivo, tem tempo de sobra pra ficar com a familia, amigos e ainda jogar um futebolzinho, pois esta investindo a longo prazo e não se preocupa com o amanha, ou final do mês, seu objetivo é daqui uns anos. Com esta comprovação que vc citou ai acima, sendo investidor passivamente e focando no longo prazo seremos vencedores.
Agora para o outro Fabio. Caro amigo, estas definições não fecham, não se enquadram, pois todos querem “bater” o mercado, ou seja, rentabilidade superior ao benchmark, seja passivo ou ativo, e como mostra neste belo artigo e pesquisa, o passivo rende mais que o ativo. Uhaal!!!
Se engana aquele que diz que isso é ilusão, pois todos querem ganhar mais, e mais.
Sou passivo !!
Abraços
Sobre o buy and hold o que acontece é o mesmo de todas as estratégias quem gosta de uma adora criticar a outra, sendo que todas dão lucro e devem ser respeitada e fica o conselho para o pessoal do B&H e até ao nosso colega Fabio em fazer um artigo sobre os erros cometidos por quem aposta no B&H como por exemplo nos anos 80 as tais blue chips eram: Sharp, Varig e Estrela e como será que estão aqueles que fizeram o famoso B&H para 15 ou 20 anos para viver de dividendos com essas empresas?
Nos anos 90 a bluechip da vez era Globocabo, Transbrasil, Paranapanema e ai o pessoal consegue viver de dividendos de tais empresas.
Na década passada ainda que por pouco tempo a Telemar era a bambam do mercado uma ação que sim é uma ótima pagadora de dividendos porém para uma ação que já custou 80 reais e hoje custa R$37 é um caso a se pensar.
Para não desviar totalmente do tópico, economizam em corretagem isso é um fato, mas que B&H é garantia de ficar milionário, o passado já mostrou que não.
Prezado Jean,
Como eu já disse VÁRIAS vezes, dificilmente essas empresas se qualificariam como bons negócios para um investidor que adote Buy and Hold. Os critérios são estreitos para que, por exemplo, Globocabo ou Transbrasil, se qualifiquem. Mesmo que algumas dessas empresas entrasse na carteira (e dificilmente Varig, Sharp ou Estrela se qualificariam), provavelmente teria se livrado delas bem antes das quedas descomunais que sofreram.
Como já alertei, Buy and Hold não é a mesma coisa que Buy and Forget. Lembre-se sempre disso!!
Fábio
Hoje elas não se qualificariam, mas no passado pode ter certeza que o sim e sobre sair antes da falência, e a mesma coisa que falam o pessoal do curto prazo que irão sair da operação antes que entre em tendência de baixa, agora a pergunta que te faço é qual o momento de sair ? Lembrando Metron, Mappin, Banco Santos, Banco Panamericano, eram empresas que com um piscar de olhos faliram, será que até surgir o próximo balanço quadrimestral não sera tarde demais ? Quando devemos sair por exemploa Cyrela diminuiu o seu lucro esse é um momento de sair? É o inicio da falência ou somente um “mau” momento ? (perguntas somente a nível de exemplo0
Assim como você também sou adepto do B&H porém com ressalvas.
Jean, empresas aéreas e de brinquedo, além de empresas do varejo normalmente são olhadas com desconfiança por investidores fundamentalistas. Por isso digo que essas daí dificilmente entrariam no radar. Quanto aos Bancos Santos e Panamericano, não acredito que um investidor fundamentalista entraria com todo seu patrimônio nelas. Por isso, é importante diversificar: vez ou outra, cisnes negros podem aparecer sem avisar.
Fábio, me ajude. eu tenho 20 anos. Possuo 14 mil e consigo ajuntar em torno uns 600 a 800 por mes.
Desses 14 mil, 13 mil estao aplicados em um fundo de renda fixa, VGBL. Que vergonhosamente rende em torno de 7,5% ao ano. Bom, eu estudo sobre investimento há um certo tempo, nao sou um expert, mas até entendo a dinamica.
Bem, meu plano é diversificar, devido a uma eminente alta da inflação e uma consequente aumento de juros para frear o consumo. Assim, acredito que o renda fixa vai ser bom esse ano. Pretendo investir uns 10 mil em renda fixa, parte em CDB’s e outra em tesouro direto.
Mas, tambem sou otimista com ações para esse ano, acredito que papéis como Gerdau e Banco do Brasil vao apresentar altas relevantes. Assim, pretendo investir 2 mil em cada empresa. Mas, esses papéis acredito que vão ser bons esse ano, para os próximos 10 anos, acredito muito na agricultura. Assim com o dinheiro que irei economizar ao longo do ano pretendo investir papéis desse segmento.
Gostaria de saber sua opinião sobre o meu plano, acha a minha estratégia válida?
eu poderia aplicar o dinheiro economizado em fundos imobiliarios com foco na copa?
Grato pela atenção
Prezado Raphael,
Acredito que o ideal, nas suas condições, é investir em fundos mais diversificados. Seu capital ainda parece baixo para investir diretamente em ações individuais, já que o valor de cada ação representaria uma fatia importante de seu capital – o que, se algo der errado, pode afetar muito seu patrimônio. Além disso, a Gerdau, por exemplo, vive um momento bem delicado. Pode ser que suas ações subam bastante, mas o mercado está preocupado com a emissão de novas ações.
Seu plano de diversificação na renda fixa parece adequado – embora eu não goste muito de CDB’s. Também dê uma estudada nas LCI’s, além dos fundos imobiliários.
Atenciosamente,
Fábio
entendi, mas para ser mais especifico parte do dinheiro que tenho pretendo investir em tesouro LTN. já com o dinheiro economizado ao longo dos meses, pretendo fazer uma proporção de 2 para 1. 2 para renda variavel e 1 para renda fixa, estava pensando em NTN-B principal. eu tbm estava pensando em ETF’s como opção da renda variavel. os planos da renda renda fixa são validas? e tem alguma sugestao de algum setor que possa vim se destacar durante um bom tempo?
Obrigado novamente pela atenção
Fala Fabio, blza?
O IR pago para fundos passivos (SMAL11, PIBB11, BOVA11, etc…) é de 20% do lucro obtido na operação e não se for negociado mais de R$ 20.000,00 no mês!
Forte abraço e ótima semana,
Fica com Deus.
Prezado André,
O IR a que me referi era relativo a quem investe diretamente em ações, e administra passivamente sua carteira.
Olá Fábio,
Voce tem total liberdade de discordar do investimento passivo no indice ou de propor novas definições pessoais para investimento ativo e passivo, apenas com o cuidado de destacar para os leigos que são as suas definições pessoais e não a definição geral aceita pelo mercado.
Mas o que voce não pode fazer é propor uma nova definição de investimento passivo e mostrar um gráfico do Damodaran como se ele corroborasse sua definição quando na verdade ele se refere a investimento passivo no indice e não em montar uma carteira baseada em analise fundamentalista. As carteiras baseadas em análise fundamentalista no gráfico do damodaran estão entre a classe de gestores ativos, que como mostra o gráfico perdeu no longo prazo do investimento passivo (investimento passivo no indice).
André Savi,
a verdade o IR sobre ETFs é de 15% e não de 20%.
Abs
Fabio,
Tem um texto muito bom do Sharpe sobre isso, os fundos ativos sempre irao em media ter uma performance inferior ao indice, é uma questao aritmetica.
Observe que Mariazinha também é uma investidora ativa ao escolher empresas “boas” para investir. E se a empresa deixar de ser “boa”? A nao ser que haja criterios estritamente objetivos para a selecao de uma acao a gestao sera obrigatoriamente ativa.
Parabens pelo blog!
Abraços,
VR.