Direitos do acionista: o tag along
É importante que o investidor conheça seus direitos antes de decidir aplicar suas economias no mercado de ações – e um desses direitos, ainda pouco conhecido por grande parte dos investidores brasileiros, é o chamado tag along. Esse direito, basicamente, protege os interesses dos acionistas minoritários contra os dos acionistas majoritários, na hipótese em que estes decidam vender o controle da companhia para outros investidores. Aprenda porque o tag along é um direito importantíssimo e que deveria ser levado em consideração antes de você investir em uma empresa!
1. O tag along e os tipos de ações.
As empresas possuem, basicamente, dois tipos básicos de ações: as ações preferenciais e as ações ordinárias. Mesmo que você nunca tenha investido na bolsa de valores, já deve ter observado que as ações de uma empresa são acompanhadas de duas letras, ON ou PN. Essas letras indicam o tipo de ação negociada – se ordinária (ON) ou preferencial (PN). As ações ON normalmente são negociadas pelo número 3 em um ticker, e as ações PN, pelo número 4 ou 5.
Assim, as ações preferenciais da Petrobras são representadas pelo ticker PETR4, e as ações ordinárias da empresa, pelo ticker PETR3. As ações preferenciais da Vale, por sua vez, são negociadas pelo código VALE5. Acontece, também, de as empresas lançarem subtipos diferentes, associados a cada tipo de ação: as ações preferenciais do Banrisul, por exemplo, são negociadas pelos tickers BRSR4 (PN), BRSR5 (PNA) e BRSR6 (PNB). Ficou mais fácil de entender a sopa de letrinhas?
Cada tipo de ação (preferencial ou ordinária) oferece direitos diferentes para seus proprietários. As ações preferenciais são chamadas assim porque a Lei das Sociedades Anônimas dá a seus proprietários a preferência na distribuição de dividendos. Mas essa preferência tem um custo: a lei não dá aos proprietários das ações PN o direito de voto na Assembleia Geral da empresa (apesar disso, o estatuto social da companhia pode prever que os detentores destas ações têm direito a voto – embora, normalmente, limitado em relação aos detentores de ações ordinárias). Em outras palavras, o proprietário destas ações troca o direito de influenciar no negócio pela prioridade no recebimento dos lucros da empresa, distribuídos na forma de dividendos.
A lei atribui aos proprietários de ações ordinárias, por sua vez, o direito de votar na Assembleia Geral da empresa, mas ao custo de ceder a preferência ao recebimento de dividendos aos proprietários de ações preferenciais. As ações ordinárias também têm um outro direito associado a elas, chamado de tag along.
2. O que é o tag along?
O direito ao tag along assegura ao detentor de ações ordinárias a possibilidade de vender suas ações, nos casos em que o controle da empresa é vendido para outros investidores, por um preço de, no mínimo, 80% daquele pelo qual os acionistas majoritários negociaram suas ações para o novo controlador. Parece complicado?
Mas não é: imagine que você detém 1% das ações ordinárias de uma empresa, e um outro acionista é detentor de 51% do controle da companhia. Digamos que as ações ordinárias da empresa estejam negociadas por um preço de R$ 1,00, mas o acionista majoritário negociou a venda de suas ações por R$ 2,00 para o investidor, que irá deter o controle da empresa a partir de então. O tag along garante que, como o controle será transferido, você terá o direito de vender as suas ações para o novo controlador por, no mínimo, 80% daquele valor: ou seja, você tem o direito de vender suas ações ordinárias por R$ 1,60, graças ao tag along.
Mas digamos que você seja um investidor de longo prazo: por que você iria se desfazer de suas ações? Um motivo para vender suas ações pode parecer evidente: se a empresa é tão boa assim, por que diabos os acionistas majoritários venderiam seu controle para outra pessoa? Ou seja, o fato de o controle estar sendo transferido pode indicar que a empresa não é tão boa assim quanto você pensava inicialmente. Se este for o caso, aproveitar o tag along pode ser uma boa, afinal receber R$ 1,60 por suas ações é melhor negócio do que receber apenas o R$ 1,00 que ela valeria no mercado em geral. Nesse caso, a diferença corresponderia a 60% de lucro a mais!
Entende por que o tag along é um direito importante? Os proprietários das ações ordinárias podem ter um lucro fantástico em poucos dias por conta da transferência do controle, com a garantia de venda de suas ações por 80% do valor pago pelo novo controlador!
3. Como o tag along influencia o preço das ações?
O tag along pode ter um lado perverso, também. Se os acionistas detentores de ações ordinárias podem ter lucros fantásticos em poucos dias, os proprietários de ações preferenciais podem amargar um prejuízo enorme no mesmo período.
Um dos casos mais ilustrativos dessa questão, no mercado brasileiro, ocorreu em março de 2004, com a transferência do controle acionário da AmBev para a belga Interbrew. Por causa das diferenças de direitos assegurados pelos proprietários dos diferentes tipos de ações, as ações ordinárias da AmBev (AMBV3) acumularam ganho de 10,35%, mesmo após a valorização acumulada de 36,6% nos 5 pregões anteriores, que já anteciparam os rumores em relação à negociação. As ações preferenciais, por sua vez, caíram 17,98% em dois pregões, contra um ganho de apenas 7,4% nos cinco pregões anteriores. Até hoje, muitos investidores minoritários (que normalmente não têm qualquer incentivo para investir em ações ordinárias, já que os dividendos das ações preferenciais normalmente são mais atrativos) têm ressalva de investir na empresa por conta do episódio.
Mais recentemente, ocorreu algo parecido com as ações da Usiminas. Com rumores de que a CSN adquiriria o controle acionário da empresa, as ações ordinárias da empresa (USIM3) subiram 25,6% entre 01 de janeiro e 17 de fevereiro de 2011, enquanto as ações preferenciais (USIM5) haviam subido apenas 3,79% no mesmo período. Mas os principais acionistas da empresa, objetivando acalmar o mercado, travaram o grupo de controle por mais 20 anos, até 2031 – procurando garantir que até lá não haverá mudança no controle da empresa.
E você, leva o tag along em consideração antes de investir em uma ação?

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Caso interessante é COCE3 – COCE5..
As ON tem 80% de tag along, em compensação possuem baixa liquidez. Se for comprar Coelce, com certeza tem que ir de ordinaria..
Lembrando que existe uma diferença no valor pago de dividendos nas ordinarias e preferenciais em algumas empresas, o que não é o caso em Coelce.
Diego, foi este o motivo de eu ter comprado ações COCE3!
Caro Fábio,
Gosto muito do tema e o considero de extrema importância.
Vc citou o que acontece no caso dos investidores que tem as ações ON quando ocorre a venda do controle, mas e os que possuem as PNs como ficam? Em um primeiro momento, temos a desvalorização dessas ações conforme vc citou, mas e depois? Entendo que teríamos duas situações: A primeira com o novo dono mantendo o capital a aberto, e a segunda com o fechamento do capital. Como ficariam os detentores de ações PNs nesses casos?
abraço,
Esse é o problema: quem tem as PNs é prejudicado. No primeiro caso, é prejudicado com a queda no preço das ações (o que pode significar uma boa oportunidade de compra, se o capital for mantido aberto). No segundo caso, é prejudicado porque a empresa pode recomprar as ações ao preço de mercado (e, como o preço terá caído um bocado, ele tem que arcar com o prejuízo).
Gostaria da sua opnião sobre o fato da Caixa Econônica lançar Letras de Crédito Imobiliário para pessoas físicas com investimento inicial de 10.000,00 e rendimentos de 10% + TR, com isenção de IR e com vencimento para 8 anos. Acha ser um bom investimento ou será melhor o tesouro direto?
Olá Fábio!
Sobre as ações preferenciais (o titular tem preferência no recebimento dos dividendos), essa “preferência” tem relação somente com o prazo para recebimento (recebe antes) ou percentualmente recebe mais do que quem tem ações ordinárias?
Abs,
Em boa parte dos casos, não muda nada em termos de direitos. As ações recebem exatamente os mesmos dividendos. A preferência só tem razão de ser quando a empresa não tem caixa pra pagar todo mundo – caso em que ela deve pagar primeiro quem tem ação preferencial.
Caro Fábio,
Só complementando a sua resposta com relação à pergunta do Fabio Lourencetti, temos alguns casos onde as empresas pagam valores diferentes, normalmente em torno de 10% a mais para os detentores de ações preferenciais. É o caso da Aes Tietê, uma excelente pagadora de dividendos, porém, quem tem a ação ON recebe 10% a menos de dividendos. Todavia, normalmente a cotação da PN é exatamente esses 10% mais “cara” devido ao valor maior de dividendo recebido.
Antes de escolher qual comprar, sempre avalio o tag along, os dividendos distribuídos por cada classe e a diferença entre as cotações. Como faço compras para longo prazo, a liquidez não tem muita importância na minha estratégia.
Abraço,
Fabio, onde eu posso consultar as ações que possuem tag along? esse percentual é sempre de 80% ou pode ser 100%?
Não sei se existe um lugar onde haja a informação sobre todas as ações que possuem tag along. É preciso ver o estatuto da empresa (ou então, entre em contato com o Diretor de RI).
Abraços,
Fábio
É possível ver todas as empresas direto no site da Bovespa…
http://www.bmfbovespa.com.br/cias-listadas/consultas/empresas-com-tag-along.aspx?Idioma=pt-br
Abraços
Ploko
Valeu, Ploko! Eu mesmo não conhecia essa forma de consulta!
Olá Ploko,
Valeu pela dica.
Olhando esta lista que você passou, percebi que várias tem Tag Along tambem nas PN… neste caso este direito, que é o tema do post, também se aplicaria correto? Neste caso a PN não seria um melhor negócios (devido a ter “Preferência”)?
Igor.
Olá Fábio,
Se vc tiver papéis ON de uma empresa e ocorrer esta transferência de controle, como os acionistas minoritários são notificados? Como exercer este direito de venda a 80%?
Igor.
Prezado Igor,
A notícia é divulgada como fato relevante. Além disso, em empresas com boa governança, o comunicado é feito também por correspondência direta…