Pergunta do leitor: diversificação no mercado de ações e definição realista de objetivos
Essa semana, Luccas, um de nossos leitores, fez duas perguntas bem interessantes, que dizem respeito aos objetivos de um investidor ao investir, bem como ao modo pelo qual ele deveria diversificar seus recursos. Segue a pergunta:
“Olá Fabio..conheci seu site agora e está de parabéns!
Me tira uma dúvida: comecei semana passada no mercado ações. Comprei fracionado R$3000 em vale5 e vou aportar R$1000 todo mês…quando devo começar a diversificar meu investimento??? e quando diversificar devo procurar uma nova Blue chips ou partir para uma small caps…Meu objetivo é 1 milhão e no máximo 10 anos..
Abraços e parabéns”
Portanto, são duas dúvidas, que dizem respeito a 3 questões diferentes: (1) quando começar a diversificar o investimento no mercado de ações; (2) como definir em que tipo de empresa diversificar (blue chips e small caps); e (3) como definir realisticamente os objetivos a serem alcançados, em termos de rentabilidade.
Vamos às questões:
1) Quando começar a diversificar o investimento em ações?
Minha resposta é: o quanto antes. Se você não sabe o que está fazendo ao investir em ações, o melhor é investir em uma quantidade razoável de ativos – de preferência, em um fundo que espelhe em um índice de ações.
“Peraí, Fábio: eu li em outro artigo do blog que não é uma boa investir em fundo de ações! Você não está se contradizendo?”
Não é uma contradição. Se você sabe analisar uma empresa, tem critérios bem definidos para comprar ou vender suas ações, não tenha dúvidas: invista em empresas que satisfaçam seus critérios e, mesmo que sejam poucas ações, provavelmente fará um bom negócio. Mas, se você não sabe o que está fazendo, o melhor é investir aos poucos em um fundo que reflita um índice e tirar um bom tempo para ler bons livros sobre esse mercado.
Se você pretende diversificar investindo em ações, o ideal é adquirir ações de setores diferentes e não complementares da economia. Por exemplo: se você já investe no Bradesco e quer diversificar, não adianta comprar ações do Banco do Brasil, do Itaú e do Santander. Como são três bancos enormes, os riscos setoriais que afetarem um deles afetarão a todos.
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Isso não significa, contudo, que não seja possível diversificar no mesmo setor. Por exemplo, se você tiver ações do Bradesco (branco privado enorme), pode comprar ações do Banco Pine (branco privado pequeno) ou do Banrisul (banco público estadual pequeno). Além disso, se você estudar a composição da carteira de empréstimos dos bancos, pode notar que cada um deles tem riscos diferentes: alguns emprestam mais para pessoas de baixa renda, ao passo que outros emprestam mais para empresas. Mas, como já disse antes, tudo depende de estudo; se você não quer se dar o trabalho de estudar, confie em um fundo de investimento que espelhe um índice e seja feliz.
2) Diversificar em blue chips ou small caps?
Essa questão também é importantíssima. Blue chips são as maiores empresas da bolsa; muitas delas consolidadas no mercado e com um excelente histórico de lucros. Small caps, por sua vez, são empresas pequenas, muitas vezes com histórico recente de lucros. Mas isso é um olhar apenas parcial sobre a questão: também existem small caps tradicionais, que estão há muitos anos no mercado, são bem respeitadas e têm um histórico excepcional de crescimento de lucros, como é o caso da Saraiva ou da Randon, por exemplo. E também existem blue chips que estão há anos derrapando nos lucros.
O principal problema das blue chips é o potencial de crescimento. Como já se trata de empresas que valem bilhões de reais, dificilmente elas poderiam crescer a taxas elevadíssimas. Uma empresa de valor de mercado de mais de R$ 300 bilhões, como a Vale ou a Petrobras, não pode crescer consistentemente a taxas de 20% ao ano, porque em poucos anos valeriam mais do que todo o PIB mundial. Não parece razoável, concorda? Por outro lado, as small caps têm um potencial fantástico de crescimento. Muitas delas têm valor de mercado inferior a R$ 500 milhões e, portanto, podem crescer bastante ainda.
Mas as blue chips são empresas relativamente mais confiáveis. A probabilidade de que a Vale entre em processo de falência amanhã ou no horizonte médio é mínima (embora possa acontecer, como alguns bancos extremamente ”sólidos” dos EUA mostraram em 2008. Mas a probabilidade de uma small cap derrapar é muito maior.
O ideal, portanto, é diversificar o portfólio entre blue chips e small caps. As blue chips dão alguma estabilidade à carteira de investimentos, e as small caps dão a ela um acelerador importante, que no longo prazo fará uma diferença importante, mesmo que eventualmente uma delas quebre.
3) Como definir realisticamente seus objetivos?
O objetivo de nosso leitor é o de conseguir, investindo R$ 1.000,00 por mês, R$ 1.000.000,00 em dez anos. Mas este é um objetivo realista? Para alcançar esta meta, ele precisaria ter uma rentabilidade de 2,87% ao mês (36,51% ao ano). É uma meta possível, mas improvável. Para que o leitor tenha uma ideia, Warren Buffett, em toda a sua carreira, teve uma rentabilidade média de aproximadamente 21% ao ano – ou 1,75% ao mês. É claro que, nos primeiros anos de sua carreira, Buffett deve ter alcançado uma rentabilidade média superior a esta: afinal, em termos porcentuais é mais fácil crescer uma quantia pequena do que uma quantia maior. Mas isso mostra que alcançar 36,51% ao ano, em média, por um período de 10 anos, não é uma tarefa fácil.
Acredito que o melhor é tentar definir um benchmark (um índice que sirva de comparação) para comparar os seus ganhos. Afinal, você não tem o melhor controle sobre a taxa de juros ou sobre a rentabilidade de qualquer investimento. Mesmo que você invista nas melhores empresas do mundo, por preços razoáveis, não é possível prever a rentabilidade a ser obtida. No máximo, você pode ter uma estimativa!
No meu caso, adoto a taxa Selic como benchmark. É uma taxa importante para a economia e define os ganhos dos produtos de renda fixa. Se eu conseguir superá-la, já estarei no lucro, porque ganharei mais do que quem tiver investido apenas em renda fixa. Se você for mais ousado do que eu, pode tentar bater algum índice de ações – por exemplo, o Ibovespa.
Isso não significa, evidentemente, que nosso leitor não poderia alcançar R$ 1.000.000,00 em 10 anos. Para que isso acontecesse, contudo, talvez fosse necessário que ele investisse mais que os R$ 1.000,00. Se pudesse investir o triplo, poderia chegar ao primeiro milhão com uma rentabilidade de 1,55% ao mês (18% ao ano) – ainda alta.
No fundo, como chegar a R$ 1.000.000,00 (ou a outro fator) depende de três fatores: tempo, valor acumulado e rentabilidade. Se você tiver tempo e valor suficientes, com uma rentabilidade relativamente baixa é possível fazer uma grande fortuna. O ideal é ter os 3 fatores em abundância, mas os únicos fatores sob seu controle são, evidentemente, a rentabilidade e o valor a ser acumulado. Portanto, mãos à obra!!
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Obrigado Fábio pela explicação…ajudou bastante…
Esta semana consegui vender um terreno que vai me sobrar R$175.000,00 para aplicar..então, além deste R$3.000,00 aplicados em Vale5 vou conseguir aportar mais R$3.000,00 mensais…Meu pensamento é investir 50% destes R$175.000,00 em ações(small Caps e Blue Chips)e 50% em tesouro direto…Acha que meu pensamento está certo??? Vou conversar com a minha corretora(link trade) sobre quais empresas seriam melhor investir para chegar no tão sonhado 1 milhão em 10 anos ou menos…
A alocação de seus ativos depende de uma série de fatores – incluindo a sua aversão ao risco. Investir, de cara, metade do dinheiro em ações pode ser arriscado. Se você realmente deseja alocar 50% de seu patrimônio em ações, por que não investe nelas aos poucos? Eu tenho feito isso: comecei com uma alocação inicial de 100% em renda fixa, em 2007, e a partir de 2008 comecei a investir em ações, transferindo o “dinheiro novo” das economias para as ações. Hoje, minha alocação está na casa dos 35% em ações, e o restante em renda fixa.
Fábio,
Muito bom post. Concordo contigo. Aqueles que queiram entrar no mercado devem dominar alguma técnica de análise de ativos. Seja AF ou AT. Quem não quer ou não tem tempo para aprender, o mais seguro é partir para um fundo de investimento com benchmark IBOV ou IBX.
Gosto bastante dos seus posts sobre imóveis em Brasília. Também acredito na teoria da bolha. A incógnita é saber quando e quanto os preços cairão.
Um abraço,
Gustavo Garcia
Pois é… o problema é querer acertar o momento exato da queda dos preços. Pode ser, inclusive, que eles continuem a subir por um bom tempo! É tão vasta a quantidade de fatores envolvidos que fica difícil adivinhar qualquer coisa…
Muito boa a explicação.
Eu tenho investido em fundos, justamente por ainda não entender bem do mercado de ações. Não basta comprar na baixa e vender na alta, tem que saber o que está comprando, para proteger o investimento.
Quando estiver mais a par do mercado e tiver juntado uma graninha legal, eu parto para a compra de ações diretamente.
Um abraço.
Boa sorte em seu projeto, André! De fato, o maior risco é o da ignorância. Admitir que não se sabe de algo é o primeiro passo para aprender – e, até lá, investir em ações indiretamente, por meio de fundos, pode ser uma boa estratégia.
Abraços,
Fábio
Vale lembrar ao Luccas quanto ao custos dos aportes mensais.
Tenho como prática fazer aporte apenas quando os custos representarem 1% do valor a ser investido. Ou seja, se o custo é 16 reais de corretagem, investiria apenas se meu aporte fosse de 1600 reais.
Lucca, acho que você deveria investir seu dinheiro em renda fixa primeiro, com uma boa parte no tesouro direto. Enquanto seu dinheiro está na renda fixa você vai estudando o funcionamento do mercado de ações…como diversificar…o que é investimento em valor…para só então investir em ações. Não confie em corretora !! O interesse deles é apenas ganhar dinheiro em cima de corretagem. Só invista em ações quando estiver realmente sabendo o que vai fazer.