Investir na bolsa de valores é igual a apostar em cassino? O fator sorte e os investimentos

28 de fevereiro de 201113 comentários

Uma imagem bastante popular do investimento em ações é a comparação com a aposta em um cassino – assim como num cassino, o fator determinante para o sucesso nas ações seria a sorte. Assim como num cassino, o único que ganha dinheiro de verdade é o cassino (ou, no caso das ações, quem tem informação privilegiada), muita gente acredita que é quase impossível “ganhar” dinheiro na bolsa, e que só ganharia quem tem informação privilegiada. Essa é uma imagem que boa parte das pessoas tem do investimento em ações. Mas será verdade?

1. O que é o fator sorte?

Em boa parte dos jogos disponíveis em um cassino, o fator sorte é determinante para o resultado positivo do jogador. Mas o que é a sorte? Um jogo de azar é, na verdade, um mecanismo baseado em probabilidades onde a frequência de resultados positivos para o jogador é, desde o início, determinada a ser muito menor do que a frequência de resultados negativos (ou, em outras palavras, resultados positivos para a casa). Um jogador “sortudo” é aquele que consegue, em suas jogadas, estar na zona de frequência de resultados positivos para ele.

O problema é que ele não tem o menor controle sobre como ficar nessa frequência: na maior parte dos jogos, o resultado é completamente aleatório – e, pior, apesar de ser aleatório, a lógica dos jogos é determinada de forma que resultados positivos sejam a minoria entre todos os resultados possíveis! Sorte não existe; o jogo é programado para que alguns poucos apostadores ganhem – mas, em algum momento, alguém ganhará. Dizer que essa pessoa tem uma característica especial – a “sorte” – é apenas uma maneira de dizer que ela ganhou por deter esse atributo especial. Mas isso não é verdade! Alguém sempre ganhará no cassino, mas a soma dos que ganham é muito inferior à soma dos que perdem. E é por isso que jogos de azar são tão atrativos para quem os oferece. Quem ganhou, não ganhou por ter um atributo especial; ganhou porque alguém ganharia de qualquer jeito, e calhou de ser aquela determinada pessoa.

Números estatísticos são interessantes porque, às vezes, acontecem determinadas anomalias estatísticas que parecem se desviar do padrão estatístico esperado. Lance uma moeda ao alto por 10 vezes e você perceberá que, em 10 lançamentos, não é tão difícil obter uma sequência diferente da esperada de 50% cara e 50% coroa; muitas vezes, você obterá 6 caras e 4 coroas (ou vice-versa) e, às vezes, até uma sequência mais improvável, como 9 caras e 1 coroa. E isso, sem que a moeda esteja viciada. Isso ocorre porque o espaço amostral (o número de vezes que a moeda foi lançada) é muito pequeno. Se você lançar moedas 1 milhão de vezes, provavelmente obterá uma frequência estatística de 50% para cada resultado. Mas 10 vezes é um espaço amostral muito, muito pequeno. É por isso que na maioria dos concursos da Mega Sena existe um ganhador: embora a chance de qualquer pessoa em particular seja ínfima de ganhar, o número de jogadores é tão grande que é esperado que, em algum momento, alguém ganhe. Se a chance é de 1 pessoa em 1 milhão ganhar o prêmio de uma determinada loteria, se temos 2 milhões de jogadores, não é tão difícil assim que haja 2 vencedores.

É por isso que, muitas vezes, alguém que jogou duas vezes na máquina caça níquel e ganhou nas duas vezes acredita estar com sorte. Não é sorte; é que o espaço amostral dele (duas jogadas) foi muito pequeno. Se ele continuar a jogar por dezenas de vezes, o número de jogadas vencedoras diminuirá até ficar em harmonia com o padrão estatístico prédeterminado. Foi puro acaso o fato de as duas primeiras jogadas terem sido bem sucedidas. Puro acaso. Mas nossa mente é programada para identificar padrões e, por isso, ela acaba sendo enganada quando eventos não recorrentes acontecem: o jogador que ganhou nas duas primeiras rodadas acredita que está num dia especial e acaba jogando fora todo o dinheiro que conquistou.

2. A sorte influencia nos investimentos?

Jogos de azar são jogos de soma zero. Para que alguém ganhe 1, alguém perde 1. Jogos de azar têm esse nome porque a probabilidade de o jogador ganhar alguma coisa é muito menor do que a dele perder. Isso significa que, em uma rodada qualquer, ele é um jogo de soma zero (ou o jogador ganha, ou o jogador perde). O problema é que os jogos de azar organizados por cassinos são ajustados de tal maneira que as chances de um resultado negativo para a casa acontecer são mínimas.

Muita gente acredita que a bolsa de valores funciona da mesma maneira. Segundo alguns, para que alguém ganhe dinheiro na bolsa, é necessário que alguém perca. Afinal, se alguém vende uma ação e outra pessoa compra, como podem ambos estarem ganhando com a transação? E a verdade é… podem sim.

Vejamos a situação de alguém que começou a investir em ações em 2001, e comprou ações da Vale. As ações da Vale, naquela época, poderiam ter sido adquiridas por R$ 3,62. Esta pessoa poderia ter vendido essas ações, na última sexta-feira, por R$ 49,26 (um ganho total de 1260%). Quem comprou essas ações, fez um mal negócio? Não necessariamente. Se ele decidir manter as ações da empresa, é bem possível que, no longo prazo, suas ações se valorizem bastante ao longo do tempo. Então, na verdade, ambos os investidores podem ganhar bastante dinheiro com as mesmas ações. Isso significa que quem vendeu as ações fez mal negócio? Não! Ele pode ter vendido porque encontrou uma oportunidade de investimento que julga melhor, ou porque quer gastar o dinheiro em coisas que julga serem mais valiosas.

Onde está “a pegadinha”? Não parece ser um negócio bom demais esse em que tanto quem compra quanto quem vende podem ganhar?

“A pegadinha” do investimento em ações está no prazo do investimento e na qualidade da empresa. A transação mutuamente benéfica foi possível porque o prazo do investimento foi longo, e a qualidade da Vale é excepcional. No longo prazo, o risco de se perder dinheiro investindo em uma empresa adequada comprada por um preço adequado é mínimo. Se os investidores tivessem comprado ações da Vale para vender no curto prazo, poderia ter ocorrido de ambos perderem dinheiro, ou de um deles perder dinheiro e o outro ganhar. Imagine a situação em que o primeiro investidor comprou ações da Vale a R$ 52,00, vendeu a R$ 49,00, e o novo comprador as vendeu a R$ 46… todos perderam dinheiro com uma empresa excelente!

A Week in Singapore 3

Image by Ronald HN Tan via Flickr

O fator sorte influencia menos o sucesso de um investimento feito no longo prazo. No curto prazo, as chances de perder dinheiro são maiores do que no longo prazo. No curto prazo, a flutuação dos preços não segue qualquer lógica; no longo prazo, ela segue a performance da empresa. O ponto de entrada só é importante no curto prazo; no longo prazo, ele se torna cada vez mais irrelevante. Não é por acaso a seguinte citação de Benjamin Graham:

“No curto prazo, o mercado é uma máquina de votação, mais no longo prazo o mercado é uma balança”.

Uma máquina de votação registra o humor de mercado em um determinado momento. Uma balança, por sua vez, registra o peso de uma empresa. Quanto mais bem sucedida, maior o peso registrado.

3. Conclusões: sorte ou competência?

A sorte influencia no mercado de ações? Sim e não. Influencia o sucesso de traders e investidores de curto prazo, que buscam identificar pontos de entrada e de saída a partir do que julgam ser anomalias estatísticas no comportamento dos preços das ações. Para quem se torna um verdadeiro acionista de uma empresa de qualidade e acompanha o comportamento de sua atividade operacional, o fator sorte assume cada vez menos relevância.

Por essas razões, não desejo boa sorte a você, leitor. Desejo que você não dependa da sorte e aprenda cada vez mais sobre o investimento em ações, acompanhe suas empresas e tenha o conhecimento necessário para tomar boas decisões!

sorte
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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (13)

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  1. Andre Luiz disse:

    É isso aí, Fábio.

    Cada vez que leio o seu blog, me convenço mais de que investir em ações no sistema buy and hold é a melhor estratégia para ser bem sucedido.

    Um abraço.

    • André disse:

      André Luiz, antes que você assuma esta certeza, leia o texto abaixo que tem se espalhado pela internet em vários sites:
      http://lauromartins.com/2011/02/19/a-teoria-dos-ingenuos-um-estudo-sobre-a-falacia-de-siegel/

      Fábio, você fala em “longo prazo” como grande objetividade.

      “(…)No longo prazo, o risco de se perder dinheiro investindo em uma empresa adequada comprada por um preço adequado é mínimo”

      Logo eu gostaria que você me esclarecesse o seu conceito de “longo prazo”, 5, 10, 11, 20 anos? Ou o o seu “longo prazo” é definido a partir do momento em que o preço de sua ação sobe até um ponto desejado? Se for baseado na segunda opção, seus argumentos são muito mais subjetivos do que você tenta demonstrar. Desta forma, considerando os conceitos de karl Popper, não existe um meio de falsear sua “teoria” de que no long prazo o risco é mínimo. Não existiria nenhuma lógica em seus argumentos, tudo seria apenas uma “crença” em que devemos acreditar sem comprovação.

      Considerando que você responda a primeira questão, eu gostaria que em um próximo texto, ou até mesmo neste comentário, você me apresentasse algum estudo comprovando a eficácia do “longo prazo” investindo em boas ações dentro de um determinado tempo de estudo. E se possível, até comentasse sobre o texto acima que está circulando pela internet.

      Obrigado por compartilhar o espaço para esse debate.
      André Ferreira

      • Fábio Portela disse:

        André,

        O longo prazo a que me refiro é um tempo de, no mínimo, 20 anos – e, de preferência, superior a 30 anos. Já falei sobre isso em outros tempos: 5 anos é um período de tempo extremamente curto para que possamos extrair qualquer conclusão. O próprio estudo do Siegel mostra que, em períodos de tempo superiores a 30 anos, em mais de 99% dos períodos analisados as ações foram superiores a investimentos em renda fixa. Em períodos superiores a 20 anos, a correlação diminui um pouco, mas ainda é superior a 90% dos períodos analisados.

        De minha parte, sempre recomendo a diversificação no portfólio, com alocação periódica dos recursos. Quem utilizar bem um sistema de alocação para aplicar o dinheiro da renda fixa em ações em períodos de crise, decerto se sairá bem no longo prazo.

        Quanto ao artigo que você mencionou, encontrei alguns problemas também:

        (1) A maior parte da argumentação dele se baseia no período pós-1984, enquanto o período examinado por Siegel vai do início do século XIX até o início do século XXI. Ou seja, ele pega um período de 25 anos, enquanto Siegel pegou um período de mais de 200 anos. E a conclusão de Siegel é que, mesmo em um período de 25 anos, existe algum risco de que investimentos em ações percam para o investimento em títulos do tesouro, embora seja um risco baixo, inferior a 10%. Ou seja, a teoria de Siegel também tem espaço para cisnes negros.

        (2) Eu não tenho dados para confrontar as afirmações de Zweig quanto aos equívocos de Siegel – o que não significa dizer que Zweig está certo e Siegel errado, mas apenas que EU não tenho esses dados.

        (3) A referência aos últimos 10 anos ou 15 anos do Ibovespa me parece irrelevante para desconstruir a tese de Siegel, já que o próprio autor mostrou que em períodos de 10 anos a possibilidade de as ações perderem para a renda fixa existe. Além disso, nos últimos 15 anos a taxa Selic esteve em níveis absurdamente altos, já que o risco país no início do período era bastante alto. A economia brasileira nos últimos 40 anos passou por tantos períodos de crise e de reformulações que não sei se os dados disponíveis confirmam ou refutam qualquer tese.

        A única conclusão que eu tenho é a seguinte: quem investiu (em ações ou na renda fixa) se deu muito bem e conseguiu aumentar bastante seu patrimônio. E é isso o que eu tenho defendido nos meus textos. Eu mesmo tenho conseguido resultado superior à renda fixa em meus investimentos em ações, mas ainda assim grande parte de meu patrimônio está em fundos de renda fixa.

        Atenciosamente,
        Fábio Portela

      • Eu disse:

        Longo prazo pode ser difinido como o tempo necessário para sua aplicação render mais do que o custo de oportunidade. Definindo dessa forma, ele passa a variar de aplicação para aplicação e garante também que, automaticamente, nunca existirá prejuízo.

        O principal problema dessa definição é que nem sempre é possível acompanhar o longo prazo, pois só temos uma vida. O interessante seria poder utilizar pelo menos uns 3 continues no jogo, mas infelizmente não dá.

        Brincadeiras a parte, ainda acho que ganhar dinheiro é mais fácil trabalhando (de preferênca pra você mesmo). Bolsa é mais para remunerar dinheiro um pouco acima da RF. Daí a ficar rico com bolsa é outra história…

        Eu

      • fabio disse:

        Há muita justificativa para não ser investidor de valor (inclusive citação a Karl Popper!!!). “The efficient market people (like Fama, French, Cochrane, Lucas, and Malkiel) “ignore the data in defense of a theory.””

        É simples: se não se convenceu, não use essa estratégia de investimento.

  2. Evertonric disse:

    Bom Fabio,
    Creio que a sorte depende de outros fatores tbem, mas não vamos discutir isso aqui, pois não vem ao caso.
    O que importa mesmo é a moral da história nos investimentos. Como: Se você planta banana ira colher bananas no final da safra e não laranjas. Isso pode significar que seus bons atos e analises na hora de efetuar um certo investimento, as consequencias serão ou virão do tamanho de sua atitude. Ou seja, invista consciente que dificilmente dará algo errado.
    Forte abraço.

  3. Jean Jacques disse:

    Também escrevi sobre isso em meu blog que a minha opinião resumida é a bolsa ela é tão democrática que da para você fazer o que quiser com ela e com seu dinheiro inclusive torná-la um cassino e ofereço outras dicas acho que serve de complemento para a postagem do Fabio: http://blogjjean.wordpress.com/2010/11/23/bolsadevaloresjogodeazar/

    Sobre o longo prazo fica o alerta ele tem seus riscos não custa lembar que NETC4, KEPL3, ESTR4, ECOD3, já foram empresas com ótimos fundamentos e hoje NETC4 e ECOD3 são quase micos e KEPL3 e ESTR4 já chegaram lá, por isso mesmo que eu atuo em todas as estratégias deu lucro acima média não tem porque ficar segurando um ativo.

  4. Olá Fábio.

    Acredito que a sorte esteja presente em boa parte de nossas vidas seja na escolha da profissão, seja no sucesso profissional ou seja nos investimentos. O que eu concordo contigo é que devemos conhecer alguma técnica de análise de ativos antes de sairmos comprando ações pelo Home broker. Seja análise fundamentalista, seja análise técnica. Cada um deve procurar aquela que melhor se adapte ao seu perfil. O que não pode acontecer é encarar a bolsa como um cassino, como você bem disse. Em um cassino quem ganha é a banca.

    Um abraço,

    Gustavo Garcia

  5. O sucesso de um investidor de curto prazo não passa nem perto da sorte, é técnica pura e simples nada mais. Quem entra a curto prazo já sabe seu ponto de saída em caso de sucesso ou não da operação. Um trader nunca deve contar com a sorte, isso não existe no mercado. Abrir posição e torcer pra dar certo, quem faz isso está pedindo pra ser engolido pelo mercado.

    Abcs,

  6. fabio disse:

    Excelente, Fábio! Já briguei muito para refutar esse tipo de pensamento ingênuo de que bolsa é jogo de soma zero ou, de forma similar, a “teoria da conservação do dinheiro”.

  7. ronaldo disse:

    Mas, digamos, que eu invista em 1.000 ações ambv4, cotadas hj a 46,54 por ação, supomos, e se daqui a 5 anos, essa mesma ação for cotada a, digamos, 53,25, eu não terei aí um bom lucro?

    É assim mesmo, pessoal?

    esculpa aina sou um leigo no assunto.

  8. Octaviano disse:

    A bolsa não é casino no longo prazo, se você considerar um universo de 30 anos, qualquer empresa que esteja viva após este período estará barata hoje. A questão é saber quais serão estas empresas!

    Me parece adequado fazer um mix de estratégia Buy and Hold com uma gestão ativa da carteira principalmente se utilizando de Stop-Loss para proteger o capital e recomprar as ações mais baratas, tem que ter paciência e um pouco de trabalho e disciplina!

    Abs a todos e, por assim dizer ;) , Boa sorte!

    Octaviano

  9. investindoalp disse:

    Old, but gold, Fábio!

    Cada vez que tenho a tentação de fazer “apostas” de Curto Prazo na bolsa, lembro de artigos como este para conter minha ansiedade e manter meu patrimônio quietinho lá, nas empresas boas e visando bons retornos, mas a Longo Prazo.

    Abraço$

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