Começando a investir em ações no pior momento possível

22 de dezembro de 201012 comentários

Hoje escrevo sobre um dos piores medos que alguém poderia ter ao pensar investir em ações: o de começar a investir no pior momento possível, ou seja, pouco antes de uma crise avassaladora derrubar o preço de praticamente todas as ações do mercado. Obviamente, não estou aconselhando ninguém a fazer isso. [tweetbutton] É duro investir e, logo na sua primeira experiência com as ações, ver seu patrimônio ser dilapidado mês após mês, semana após semana, e ter estômago de aço para permanecer com seu capital investido.

1. Começando a investir no meio de uma crise

Mas, ainda assim, faz sentido investir em ações nesse cenário.

“Você tá maluco, Fábio? Você está dizendo que eu deveria investir em ações mesmo quando uma crise estiver se aproximando?”

Estou. Obviamente, não estou dizendo para você pegar todas as suas economias e aplicar em ações imediatamente. Ninguém – NINGUÉM – deveria fazer isso, principalmente sem experiência e autocontrole emocional, características que você só adquire após algum tempo no mercado financeiro. Mas, se você poupar um pouco de sua renda mensal todo mês e utilizar o valor economizado para comprar ações de boas empresas – empresas com vantagens competitivas e com capacidade de sobreviver à mais dura das crises -, você pode se beneficiar da crise para comprar cada vez mais ações.

Na verdade, a melhor coisa que poderia acontecer para um investidor iniciante é enfrentar uma crise monumental logo no início, por uma série de razões. Em primeiro lugar, ele teria a oportunidade de forjar seu caráter de investidor, que é uma das virtudes mais importantes que alguém deve desenvolver antes de investir em ações. Aprender a perder dinheiro e a não se desesperar com isso é, talvez, a característica mais difícil que alguém poderia desenvolver. Quem começa a investir em anos áureos, nos quais a bolsa só sobe mesmo que você invista em empresas péssimas, não desenvolve essa característica. Passa 4, 5 anos ganhando dinheiro e, na hora que a primeira crise surge, já fica desesperado, pensa em pular da ponte ou fica com incontinência urinária. Quem começa a investir no início de uma crise, por sua vez, já se acostuma desde logo com a possibilidade de perder dinheiro e, se tiver firmeza de caráter, ainda pode se beneficiar muito do momento.

Pois eu digo, com convicção: a melhor coisa que pode acontecer para um investidor de longo prazo é uma crise.

Duvida? Eu mesmo sou fruto dessa experiência. Depois de uma experiência ruim em 2006, voltei à bolsa em maio de 2008 com a ideia fixa de que iria investir apenas em empresas com qualidade superior com base nos fundamentos delas, e não com base em comentários de analistas financeiros. Aprendi bastante entre 2006 e 2008 sobre como avaliar empresas e a utilizar os dividendos a meu favor, reinvestindo-os na aquisição de novas ações. E hoje não posso me queixar: por ter comprado, aos poucos, muitas ações justamente no momento em que o preço delas estava muito baixo, a rentabilidade que tive desde que comecei a investir foi bastante satisfatória, e bem superior ao que eu obtiria investindo na renda fixa.

2. Exemplificando: investindo em ações no meio de uma crise de médio prazo

Para mostrar o meu ponto, vamos brincar com uma experiência de pensamento. Imagine a situação de dois investidores, João e Maria. João, sujeito bastante conservador, só investe em títulos do tesouro direto. Ele tem medo da volatilidade do mercado de ações e, por isso, só investe na renda fixa. Maria, por sua vez, é uma mulher de coragem, não tem medo de volatilidade e resolve investir apenas em ações. Mas ela não é boba. Ela entende um pouco de matemática e, por isso, resolve investir apenas um pouco do capital que tem a disposição a cada mês em ações. Ambos os investidores têm a sua disposição R$ 1.000,00 por mês e decidem aplicar seu dinheiro. João obtém com os títulos do tesouro direto uma rentabilidade de 10% ao ano e Maria, por sua vez, tem garantidos apenas os dividendos de suas ações.

Para piorar as coisas, Maria não sabe que nos próximos dez anos enfrentará uma crise financeira gravíssima, que reduzirá o preço das ações, nos piores momentos, a menos de 50% do valor inicial. Suponhamos que o lucro da empresa em que ela investe permanece constante ao longo do tempo (uma empresa ruim, portanto) e que ela distribui 25% de seu lucro na forma de dividendos, que são reinvestidos religiosamente por Maria na compra das ações. Ao final de dez anos, o preço da ação é idêntico ao preço do primeiro ano. Como Maria e João se sairiam?

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Como você pode ver, João teve sempre uma rentabilidade constante: a cada ano, recebia juros compostos na ordem de 10% ao ano. Maria, por sua vez, passou por maus bocados. A cotação da ação passou de R$ 50,00 no primeiro ano para apenas R$ 25,00 no terceiro ano, e para R$ 20,00 no sétimo ano, quando a cotação começou a se recuperar até chegar aos mesmos R$ 50,00 do início. Mas o patrimônio que ela conseguiu construir foi maior do que o de João. Como ela conseguiu essa proeza?

Por dois motivos. Em primeiro lugar, como a cotação da ação diminuia a cada ano, mas os dividendos pagos por ação se mantinham constantes, ela recebe, mais dividendos a cada ano, proporcionalmente ao capital investido. Para entender esse ponto, imagine a seguinte situação: você tem R$ 1.000,00 investidos em 5 ações de uma empresa (cada ação vale R$ 200,00, portanto). Cada uma daquelas ações paga R$ 10,00 em dividendos. Ou seja, se você tem 50 ações, você recebe R$ 50,00 em dividendos, ou 5% do seu patrimônio. Mas imagine que no ano seguinte você compra mais R$ 1.000,00 em ações, mas elas valem R$ 100,00 agora. Ao invés de comprar apenas 5 ações, agora você pode comprar 10 ações com o mesmo dinheiro. Se cada ação pagar os mesmos R$ 10,00 em dividendos, agora você recebe R$ 150,00 – os R$ 50,00 iniciais, mais R$ 100,00 das novas 10 ações. E isso eleva a rentabilidade total de seu investimento. No ano, seu patrimônio é de R$ 1.500,00, mas, como você recebeu R$ 150,00 em dividendos, sua rentabilidade passa a 10% naquele ano, ou 7,5% sobre o investimento inicial (divida R$ 150,00 recebidos em dividendos por R$ 2.000,00, o valor investido até então). Seu patrimônio ainda está no negativo, mas você teve uma rentabilidade em dividendos superior ao do ano anterior.

Isso significa dizer que, a cada ano em que a cotação da ação cai, mas os dividendos permanecem constantes, a rentabilidade de seu investimento SOBE, uma vez que você pode comprar mais ações com o mesmo dinheiro. No caso de Maria, sua rentabilidade inicial em dividendos, no primeiro ano, foi de apenas 2,5% (R$ 300,00 recebidos em dividendos dividido por R$ 12.000,00, o total investido). No ano 5, ela teria investido R$ 60.000,00 e receberia, em dividendos, R$ 2.747,32. Sua rentabilidade, naquele ano, seria de 19% e, no total, de 4,5%. Quase o dobro da rentabilidade inicial obtida no primeiro ano! Parece pouco, quando comparado aos 10% que João recebe a cada ano, mas isso significa que Maria, no ano seguinte, poderá comprar ainda mais ações do que no ano anterior, já que cada centavo investido, agora, tem uma rentabilidade melhor do que no passado.

O segundo motivo para Maria ter se saído melhor do que João se refere ao fato de que ela pôde comprar mais ações a preços mais baixos. Como o objetivo de Maria era investir para o longo prazo, ela aproveitou para comprar, a cada ano, cada vez mais ações a preços bastante baixos. Na média, portanto, o preço de cada ação foi baixíssimo: tão baixo que, mesmo tendo a cotação das ações permanecido no mesmo patamar, dez anos depois, ela teve um bom lucro ao conseguir formar um bom preço médio.

E Maria investiu numa empresa péssima, que não conseguiu aumentar seu lucro em nenhum centavo ao longo de uma década. Se o lucro por ação da empresa aumentasse à razão de 8% ao ano (o que é bastante razoável), ela teria se saído ainda melhor. Vejamos o que aconteceria nessa situação:

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Nessa situação, bastante razoável, o patrimônio de Maria teria tido uma rentabilidade de 117,11%, contra apenas 75,31% de João. Imagine qual não seria a rentabilidade de Maria quando a economia se recuperasse e o mercado atribuísse o real valor da empresa? Nessa última hipótese, por exemplo, a cotação da ação é apenas 5 vezes o lucro da empresa, no décimo ano. No primeiro ano, o preço da ação equivalia a 10 vezes o lucro anual da companhia. Ou seja, a empresa está ainda mais barata no ano 10 do que no primeiro ano. Se o mercado resolvesse avaliar a empresa a partir de um índice P/L (preço por lucro) equivalente ao do primeiro ano, cada ação deveria valer R$ 100,00: como Maria tem 5.211 ações da empresa, seu patrimônio seria avaliado em R$ 521.100,00 – e a rentabilidade total de seu investimento seria de 334%, mais de quatro vezes superior à obtida por João.

E tudo porque Maria resolveu começar a investir no pior ano possível para fazer isso, no meio de uma crise…

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (12)

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  1. Fábio

    Se for se acordo com a sua análise, comecei em um péssimo momento. Comecei a investir em maio de 2008. O resto da historia você imagina…
    Quando recuperei quase todo o capital, dai veio a Petrobras pra levar embora parte do dinheiro…Estou com rentabilidade negativa, mas mesmo assim me mantenho firme e forte. Não sei pq não me abalo com a diluição do meu patrimônio de longo prazo…

  2. Tem que traçar uma estratégia muito bem definida pra segurar algum papel na queda a empresa tem que ser rigorosamente bem fundamentada. Pois a queda é maior e a alta é menor, exemplo:

    Um papel que tombou 50% vai ter que voltar a subir 100% pra voltar a valer o preço de compra. Um exemplo recente: posi3

    Abcs,

  3. André Paixão disse:

    Olá Fábio,

    Parabéns e obrigado por mais um artigo de excelente nível, gostaria de acrescentar apenas uma pequena correção no texto. No último parágrafo o valor correto para que a ação tenha P/L de 10 no décimo ano será de R$100 e não R$10,00 como colocado.

    abraços

    • Fábio Portela disse:

      Verdade, André. O cálculo tinha sido feito com base no valor correto, mas agora está corrigido. Obrigado!!!

  4. bom artigo

  5. Grave Digger disse:

    Fabio, entendo o seu racional, mas não posso concordar que devemos fechar os olhos e sempre colocar mais dinheiro todo mês. Talvez para o iniciante dos iniciantes isso possa funcionar, mas à medida que aprendemos mais, acho que devemos pensar naquilo que você mesmo já publicou, de preço e valor. Tem épocas, como maio de 2008, que é um verdadeiro absurdo comprar qualquer coisa, pois não faz sentido econômico. Em outras épocas, teríamos que vender até a mãe pra colocar o dinheiro na bolsa.
    Então é isso, a estratégia tem que ser ajustada de acordo com o preço e perspectivas de cada empresa. Se o P/L histórico fica entre 7 e 13, com média em 10, qual maluco deve comprar com o P/L em 20?? Tem épocas que além de não comprar, deveríamos era vender quase tudo. Se eu tivesse essa mentalidade em 2008 teria me dado muito bem, e teria ficado rico ao comprar depois no fundo do poço!

    • Fábio Portela disse:

      Grave Digger,

      Existem várias maneiras de ganhar dinheiro. Como eu tenho economias na renda fixa, posso me dar ao luxo de deixar parte do dinheiro investido em ações e aproveitar uma boa queda para transferir dinheiro para as ações, comprando empresas por um preço menor. É claro que, se os preços começarem a ficar absurdos, pode chegar a hora de vender.

      Um abraço,
      Fábio

  6. Fabio Lourencetti disse:

    Fabio, excelente post.

    Parabéns.

    Conheci seu site a pouco tempo, mas já adicionei no meu reader…

    Abs,

  7. Muito bom Fabio, excelente post.

  8. givaldo lau da silva disse:

    gostaria que por gentileza que colocasse de cada empresa principalmente as mais liquidas os fundamentos delas para nos ajudar a traçar um parametro com vpa pl pvp roe lucro porque assim temos uma ideia de segurança eu sou leigo acho voce uma oessoa que gosta de ensinar emuito bem antes de mais nada um grande abraço

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