Seja previdente: não conte com a Previdência Social

22 de novembro de 201018 comentários

Há algumas semanas, os franceses protestaram bastante contra as mudanças no seu sistema de previdência social. Basicamente, o governo propôs aumentar a idade mínima para se aposentar de 60 para 62 anos. Apesar dos protestos, a reforma foi aprovada pelo senado francês. [tweetbutton] Mas não se preocupe: tenha a certeza de que mudanças parecidas ocorrerão no país ao longo dos próximos anos.

Por que tenho tanta certeza? Por uma simples razão: a aposentadoria pelo sistema da previdência social é algo feito para não funcionar. Simples assim.  Já ouviu falar de esquema de pirâmide? Um esquema desses vem disfarçado de várias formas diferentes. Talvez a mais comum seja a que envolve uma corrente postal, em que uma pessoa envia uma carta a outras pessoas, com o nome e o endereço de 15 outras pessoas nela e a instrução para que o destinatário enviasse uma pequena quantia em dinheiro (algo em torno de R$ 10,00) para a primeira pessoa da lista, retirasse o nome dessa pessoa da listagem e o substituísse, no final da lista, por outro nome. Então, ele enviaria a carta com a nova lista para os 10 ou 15 nomes que constam dela, para que elas seguissem fazendo isso. Se todos participassem, cada pessoa teria um lucro de R$ 90,00 (10 pessoas) ou R$ 140 (15 pessoas), abatido os R$ 10,00 que ele mesmo enviou. Entre 900% e 1400% não é nada mal!

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Mas a verdade é que o esquema é insustentável, seja porque muito pouca gente das listas acaba participando, seja porque cada vez mais fica mais difícil encontrar pessoas novas para participar do esquema. Para que você tenha uma idéia, se o esquema precisar de 10 pessoas a cada nível, no oitavo nível seriam necessários  100 milhões de participantes do esquema. No nono nível, 1 bilhão de pessoas, e no décimo, 10 bilhões de pessoas. Ops, na Terra não existem tantos habitantes assim!

Pois a Previdência Social é um esquema de pirâmide que é projetado para aumentar ao máximo o tempo necessário para que tudo afunde. O único motivo para ela não ter naufragado até agora é que o governo toma medidas para adiar isso pelo maior tempo possível. É por isso que, pontualmente, são feitas reformas no sistema. Na década de oitenta, muitas pessoas podiam contribuir para receber 20 salários mínimos (hoje, seria uns R$ 10.000), depois foram feitas reformas para diminuir o benefício para o máximo de 10 salários mínimos (hoje,  seriam R$ 5.100). Hoje, o benefício máximo é de R$ 3.418,00 (pouco menos de 7 salários mínimos).

Se eu prometesse pagar R$ 10.000 pra você daqui a 30 anos se você me desse R$ 100,00 por mês (corrigido pela inflação todo ano), e no meio do caminho dissesse que não cumpriria o prometido, mas te pagaria R$ 3.500,00, você estaria coberto de razão se quisesse me processar. Mas, como o governo administra mal o dinheiro da previdência, você não tem direito ao que foi combinado. Em outras palavras, o governo pode mudar o esquema do jeito que quiser e você tem que se conformar. E isso inclui tudo: valor da contribuição, valor do benefício a ser recebido, tempo de idade mínimo para se aposentar, etc.

Por que o governo precisa mudar tanto as regras do jogo? Porque o nome do jogo é pirâmide. Há 40 anos, quando a previdência social era apenas uma criança, o sistema foi institucionalizado sem que se refletisse sobre a rentabilidade necessária para garantir os benefícios prometidos. Além disso, o governo pegava o dinheiro da contribuição e o aplicava em projetos faraônicos, jogando pra frente os problemas que ocorreriam quando fosse necessário começar a pagar os benefícios. E prometeu pagar aposentadoria para algumas categorias que nunca contribuíram para o sistema, fazendo favor com o dinheiro dos outros (os que estavam pagando a contribuição com a doce ilusão de que receberiam 20 salários mínimos quando se aposentassem). A previdência social é uma pirâmide porque o fluxo de caixa necessário para mantê-la é cada vez maior, e a tendência é de que a base de contribuintes seja cada vez menor, dado que a população brasileira está envelhecendo e tendo uma quantidade menor de filhos. Ou seja, há uma necessidade cada vez maior de recursos, sendo que a base para fornecê-los é cada vez menor. O governo só enxerga duas alternativas para resolver o problema: ou diminuir o valor  das aposentadorias, ou diminuir o tempo em que cada aposentado poderá usufrui-la, aumentando a idade da aposentadoria. Simples assim.

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Uma alternativa que o governo não enxerga é aumentar a rentabilidade do dinheiro aplicado, reinvestindo-o na atividade econômica. O governo não pode contar com essa alternativa porque o dinheiro das aplicações dos atuais trabalhadores é automaticamente revertido para pagar os benefícios dos atuais aposentados. Pois é: quem recebe aposentadoria hoje não está contando com o dinheiro que contribuiu no passado, mas com o dinheiro dos atuais trabalhadores. E os atuais trabalhadores, quando se aposentarem, irão receber seu benefício pago com o dinheiro dos trabalhadores de então. Só que haverá menos trabalhadores do que hoje, o que significa que quem está trabalhando hoje terá que trabalhar até muito mais tarde e irá receber muito menos dinheiro.

O governo criou um monstro de 7 cabeças e não sabe lidar com ele. Faz reformas paliativas que não atacam diretamente o problema. Isso não significa que você não pode fazer aquilo que o governo deixou de fazer, que era investir o patrimônio acumulado com as contribuições de gerações inteiras de trabalhadores  e, com os frutos desses investimentos, pagar os proventos de aposentadoria. O governo não fez isso, mas você pode — se resolver economizar uma parte de seus salários e investi-la para garantir um bom complemento para sua aposentadoria.

Não conte com o sistema previdenciário: faça você mesmo sua previdência, economizando e investindo o máximo que puder. Ao longo dos anos, por menos que você invista, com certeza formará um patrimônio que assegurará uma renda muito maior do que a permitida pela previdência social, garantindo sua verdadeira independência financeira.

É óbvio que, aqui, não estou dizendo que você deva deixar de recolher sua contribuição previdenciária. Ela também é um seguro que garante uma renda mínima para o caso de invalidez. Mas o recado é: não conte apenas com ela, ou o futuro poderá ser o mesmo de quem confia numa pirâmide.

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (18)

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  1. Comentário sobre Seja previdente: não conte com a Previdência Social por Investidor Independente | Finance Planet | 23 de novembro de 2010
  2. Tweets that mention Seja previdente: não conte com a Previdência Social -- Topsy.com | 23 de novembro de 2010
  1. Zão disse:

    Como servidor, não tenho (por enquanto) teto de proventos a serem recebidos pela Previdência. Todavia, não tenho tento também de contribuição, ou seja, todo mês é descontado 11% do meu salário bruto, sem limitador.

    Uma das coisas que mais gostaria é que saísse o tal projeto que daria tetos de proventos e contribuição também ao servidor público. Isso me daria um excedente todo mês para investimento próprio, algo em que confio muito mais que a idéia de me aposentar daqui a décadas, sendo pago por um sistema no ponto para se implodir a qualquer momento.

  2. Fabio

    Muito sinistro este seu post.

    Ainda bem que não pretendo viver somente da misera aposentadoria (isto se a previdência não quebrar até lá).

    Já que você fala do governo, que não investiu corretamente o dinheiro da contribuição, então por quê o governo não compra tudo em imóveis, já que muitos acreditam que é uma máquina de lucros perpétuos….hahahaha

    Abraço

  3. Investidor Independe disse:

    Excelente Análise Fábio.

    Isso é para todos prestarem atenção agora e não terem somente o INSS como aposentadoria e sim outras fontes de renda para um aposentadoria mais segura

    http://www.investidorindependente.blogspot.com

    abraço

  4. Deuteron disse:

    Fábio,

    perfeito seu artigo!

    Apenas uma pequena correção: na França o governo propôs passar a aposentadoria PROPORCIONAL de 60 para 62 e a INTEGRAL de 65 para 67. Fonte: http://www.lemonde.fr/cgi-bin/ACHATS/acheter.cgi?….

    De qualquer forma, ficar postergando a data da aposentadoria é apenas enxurgar gelo como bem disseste.

    Estou repassando o teu artigo ao meus colegas de trabalho, pois é certamente de utilidade pública.

    • Fábio Portela disse:

      Obrigado pela contribuição, Deuteron!

  5. Grave Digger disse:

    Muito boa a análise e o conceito de Pirâmide.

    Realmente essa previdência é um sistema falido, deveria acabar, e coitado de quem for depender dela, principalmente para manter o padrão de vida que tinha antes de aposentar.

    Fico com medo de nós termos que trabalhar mais e pagar mais impostos para bancar a aposentadoria dos outros. Por mim eu não pagava era nada e não recebia nada também, prefiro muito mais pegar a minha contribuição forçada mensal e aplicar eu mesmo!

  6. janeilson disse:

    boa observação acho que,com os mesmos,11%destinado a previdencia social,cada pessoa,aplicasse 11% em titulo publico,o retorno seria muito mais satisfatorio,pois teria um montante consideravel,e recebendo uma renda mensal muito alem de um salario minimo, do governo.

  7. Alexandre GM disse:

    Oi, Fábio! Muito bom e útil o artigo (como sempre).

    Penso nisso desde que começou essa discussão na França, já há um bom tempo.

    Minha dúvida pode ser um pouco primária, mas queria saber o que você acha de planos de previdência particulares (por exemplo, assim, hipoteticamente, o BrasilPrev, :P). Ouço muita gente dizendo que são roubada porque, se o banco falir, sua previdência vai junto. Mas o risco é assim tão grande? Será que o risco vale a pena, quando comparado com o risco (mais certo, imagino) da quebra da previdência?

    Abraço!

    • Fábio Portela disse:

      Alexandre,

      Eu, particularmente, não conheço o BrasilPREV. Minha birra com os planos de previdência se refere ao alto custo de investir por meio deles, já que muitos têm taxas de carregamento altíssimas, que arrastam para baixo a rentabilidade deles. Mas são melhores que a Previdência pública, até porque só dependem dos aportes de cada investidor. São um grande fundo de investimento, na verdade. A vantagem deles está (em alguns) na possibilidade de fazer seguros que garantam a renda esperada, caso algo aconteça e você fique impossibilitado de continuar a fazer os aportes.

  8. Zão disse:

    Em relação à planos de previdência privada, vale a pena olhar os produtos mais de perto. Os planos à disposição do grande público geralmente são ruins mesmo, mas algumas instituições têm planos voltados para categorias específicas que podem apresentar vantagens interessantes.

    Eu mesmo tenho um que não tem taxa de carregamento, e tem taxa de administração de 1% (só renda fixa) ou 1,5% (renda fixa+variável). Isso, somado ao benefício fiscal de abatimento do IR e à tributação regressiva, fazem dele um produto interessante.

    Agora, é algo para se ter apenas em uma instituição que você considere deveras sólida.

  9. Francisco Brito disse:

    Muito bom post Fábio. Gostaria de saber sua opinião sobre alternativas de seguro privado para o caso de invalidez ou perda de emprego, ao invés de contar com a previdência social para isso.

    • Fábio Portela disse:

      Francisco,

      Alguns planos de previdência complementar privada têm seguro. São uma boa alternativa para garantir-se por um tempo contra infortúnios.

  10. Henrique disse:

    Fábio, muito bom!
    Olha, eu fiz uma previdência pelo HSBC, com uma contribuição de R$100.00 mensais. Porém, passou-se um ano e agora eles aumentaram o valor da mensalidade para R$104, 71, isso pode ser feito?
    Outra coisa, imagina que eu investi R$1200.00 (100 mensais) ao longo do ano, mas todo extrato da previdência, vinha que meu capital tinha reduzido um pouco. O plano que fiz com eles é um meio arriscado, mas o vendedor (pseudo-amigo) me disse que era bom.
    Ele disse que se eu não gostasse e quisesse cancelar a previdência, eu podia fazê-lo depois de 13 meses, pois bem! Não gostei, eu posso retirar meu capital de volta? mesmo que seja menos do que investi.

    OBS: EU nunca ouvi falar que você paga juros para o banco para emprestar seu próprio dinheiro a ele! isso é um absurdo, e é isso que essa previdência está fazendo, estou “investindo” meu dinheiro, e eles me cobram juros por isso.

    Resumindo: Fábio, eu te empresto meu dinheiro, e te pago juros por você ficar com ele! Entrei numa fria não foi?

    abraço!

    • Fábio Portela disse:

      E por isso que acho complicado investir em planos de previdência privada. Você deixa dinheiro demais em taxas de administração, taxas de carregamento e outras taxas pelo caminho. Dinheiro que deveria estar trabalhando pra você, e não pro banco.

  11. Cristina disse:

    Fábio, fiz um plano PGBL da previbrasil e pago todo mês 100,00 reais (reajustado após um ano), vi nisso a possibilidade de ter um pouco mais para a aposentadoria, mas também, abri uma poupança e deposito todo mês 50,00 pensando no futuro. Sei que é pouco mas percebo que a cada ano o montante vai crescendo e não é todo mundo que tem pelo menos o “pouco”. Percebo que a mentalidade do brasileiro é gastar tudo e viver o momento, por sinal um momento bem endividado, que repercute a vida toda. Tenho 40 anos daqui a 20, acho que se o PGBL não garantir, pelo menos os 50 por mês estarão lá não é mesmo?

    • Fábio Portela disse:

      Com certeza, Cristina!! O mais importante é começar… em segundo lugar, aprender a investir melhor! Mas quem já começou a investir tem uma boa vantagem sobre quem ainda não fez isso…

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