Quem quer ser um milionário?
A cifra R$ 1.000.000,00 parece ser um número mágico. A maior parte dos brasileiros diria que sua vida financeira estaria resolvida para sempre se, de repente, esse valor aparecesse em sua conta. Alguns dizem que viveriam para sempre, como um milionário, com a renda obtida pelo investimento da quantia. O problema é que, como qualquer quantia, o valor de R$ 1.000.000,00 é corroído impiedosamente pela inflação, mesmo que esta já não seja tão alta quanto há 17, 18 anos atrás. [tweetbutton]
Vamos calcular o quanto a quantia perdeu em valor de 1995 até hoje, utilizando o IPCA como medida da inflação no período (A inflação de 2010 foi apenas estimada). Teríamos o seguinte quadro:

Ou seja, quem ficou com R$ 1.000.000,00 parado, sem investir o dinheiro, tem, hoje, poder de compra equivalente a apenas 32% do valor original – R$ 320.875,26. Assustadora a força da inflação, não é? Em meros 15 anos, R$ 1.000.000,00 perdeu 68% de seu valor. Apenas no primeiro ano, em 1995, quando o país estava começando a domar a inflação, a quantia já tinha perdido 22,41% de seu poder de compra, passando a valer, apenas R$ 816.000,00. E isso porque vivemos um período de estabilidade econômica! Imagine como era a situação em 1993, quando a inflação anual passou dos 2.400%!! Investir, naquela época, não era uma opção, mas uma obrigação do investidor. Guardar o dinheiro no colchão significava transformar o equivalente a R$ 1.000.000,00 no início de 1993 em meros R$ 11.154,00!!
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Por outro lado, quem tinha R$ 1.000.000,00 em 1995 e decidiu investir a quantia, não tem do que reclamar. Quem tivesse investido R$ 1.000.000,00 em 1995 em um fundo de ações que reproduzisse o Ibovespa, teria aproximadamente R$ 15.732.028,03 (valor nominal), ou R$ 4.686.647,68 em valores nominais:

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Nos últimos anos, os juros da renda fixa eram tão elevados (e ainda são!) que, mesmo com os expressivos ganhos do mercado de ações, quem investiu em fundos de renda fixa com boas taxas de administração e que pagassem algo próximo do CDI (é difícil, mas o valor serve como parâmetro de comparação) se saíram ainda melhor: seu R$ 1.000.000,00 teria se transformado em R$ 17.297.093,47 (valor nominal) ou R$ 5.152.888,29 (valor real).

É claro que isso não significa dizer, necessariamente, que o investimento em renda fixa foi melhor do que o investimento em ações. O índice Ibovespa é composto por várias empresas, sendo que muitas delas são bem problemáticas e diminuem o ritmo de crescimento do índice. Quem selecionou com cuidado as ações pode ter tido resultados muito superiores aos resultados — já excelentes — da tabela. Preferi utilizar o Ibovespa porque é uma medida média do retorno esperado de quem resolveu investir nesse mercado. Da mesma forma, quem investiu na renda fixa pode ter tido resultados inferiores aos demonstrados, já que dificilmente um fundo pagaria 100% do CDI. De qualquer modo, investir na renda fixa foi um excelente negócio nos últimos anos. De qualquer modo, quem investiu em ações ou em renda fixa (ou nos dois!) não tem do que reclamar!
Outro aspecto a ser considerado, no tocante ao valor de R$ 1.000.000,00, diz respeito à qualidade de vida que este capital pode assegurar a seu proprietário. Esqueçam as viagens para a Europa, viver em mansões e jantar todo dia no restaurante mais luxuoso da cidade. Quem tinha R$ 1.000.000,00 em 1995 tinha o equivalente, em poder de compra, a algo em torno de R$ 3.500.000,00 – valor que, com uma renda fixa que gerava mais de 1,5% ao mês em termos de rentabilidade real, possibilitava uma renda mensal de mais de R$ 70.000,00 em poder de compra de hoje (uns R$ 20.000,00 em 1995). Com isso, era possível viver uma vida de rei – bastava viver com R$ 35.000,00 e reinvestir mais R$ 35.000,00 que estava tudo certo – garantia-se uma estupenda qualidade de vida e a manutenção do patrimônio.
E hoje? A renda fixa, hoje, tem gerado algo em torno de 9% ao ano para o investidor. Isso significa que, com R$ 1.000.000,00, poderia ser assegurada uma renda extra de R$ 90.000,00 por ano – ou R$ 7.500,00 por mês. Se o investidor decidisse viver com metade deste valor e reinvestir a outra metade (para evitar que seu patrimônio fosse corroído pela inflação), deveria se contentar com meros R$ 3.750,00. Longe da vida milionária que você imaginou, não é? Caso decidisse viver com os dividendos decorrentes de R$ 1.000.000,00 aplicado em ações, nosso bravo investidor teria que se contentar com menos ainda, já que os dividendos, ao menos no início, corresponderiam a apenas 3 ou 4% do investimento inicial (salvo, claro, se ele decidisse investir apenas em empresas do setor elétrico, que pagam mais de 10% de dividendos por ano – e mesmo estas não têm essa rentabilidade garantida, já que logo a iminente revisão tarifária poderá levar à diminuição do percentual dos lucros pagos na forma de dividendos). Com isso, o investidor teria a sua disposição aproximadamente R$ 30.000 ou R$ 40.000 por ano em dividendos – entre R$ 2.500,00 e R$ 3.333,33 por mês.
R$ 1.000.000 não é tudo o que você imaginava, não é mesmo? Em partes: se o feliz proprietário dessa quantia for paciente e investir sabiamente seu dinheiro, é perfeitamente possível que ele venha a obter, em alguns anos, a feliz vida de milionário que tanto almeja. A propósito, eu não estou dizendo que R$ 1.000.000,00 é pouco dinheiro, porque não é (o escritor desse blog ainda está bem longe desta cifra!!!). Apenas estou afirmando que é insuficiente para garantir a vida de um milionário que talvez pudesse assegurar há 10 ou 15 anos, por causa dos efeitos deletérios da inflação.
Arquivado em: Educação financeira
Sobre o autor (Perfil do autor)
Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.Comentários (22)
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Fabio
Se está dificil para voce chegar nestes 1 milhão, imagine para mim…hehe
Bem legal o post
Abraço
Fábio, pode comentar um pouco mais acerca da revisão tarifária e dos dividendos das empresas do setor elétrico? Abraços e parabéns pelo blog.
Muito bom!!!
Jeferson, chegar a 1 milhão só com trabalho e investimento leva muito tempo (10, 20 anos?). Não vejo outra alternativa de acelerar o processo a não ser sendo empreendedor.
Fábio, acho que é chamado milionário quem possui 1 milhão de dólares, e não reais.
Sim, Fabio, mas isso não invalida o cerne do argumento – e a maioria das pessoas considera milionário quem tem 1 milhão de reais mesmo.
Sim, tem razão.
Fábio,
em primeiro lugar, parabéns pelo texto. Sou leitor assíduo do blog e sempre acompanho as questões relativas à possível bolha imobiliária. Recentemente decidi criar também um blog falando sobre educação financeira. Gostaria de saber se tem interesse em realizar uma parceria.
Muito obrigado e continue com o bom trabalho!
O milionário no imaginário da população hoje em dia é quem ganha na Mega-Sena acumulada, Fábio. Já faz até um tempinho que a galera pensa assim.
Alan,
Muitas pessoas consideram que quem ganha na Mega-Sena já tem um outro patamar de milionário. Mas muita gente ainda acha que, com pouco mais de um milhão, já é possível ter um estilo de vida excepcional – algo que o artigo mostra não ser verdadeiro. Mas é verdade que há muita discussão sobre o que é ser um milionário… rs
Eu quero ser milionário! Eu acredito que a cifra de um milhão de Reais (ninguém fala um milhão de Reais tão bem quanto o Silvio Santos) realmente seja mágica, mas não para proporcionar uma vida de exageros. A grande mágica em se ter um milhão de reais é que isso proporciona uma vantagem nos INVESTIMENTOS. Alguém com um milha pode girar muito mais a grana, ter reserva de caixa para os momentos de baixa no mercado, para investir em novos projetos, etc… Enfim, o negócio é fazer um milhão para ficar mais fácil fazer dez milhões. Com dezinho no banco já dá pra começar a pensar em viver como um legítimo playboy.
Abraço a todos!
Concordo, Marcelo Pirilampo! Não estou dizendo que é ruim ser um milionário – mas apenas que é um passo para garantir o estilo de vida que se imagina típico de um milionário.
Eu não sei se é mais fácil aumentar a rentabilidade com mais dinheiro. Deve haver um valor ótimo em que a partir daí fica mais difícil aumentar a rentabilidade (algo como uma parábola com concavidade pra baixo). Só não faço idéia desse ponto.
Concordo, Fabio. Mas o "valor ótimo" em que ter muito dinheiro atrapalha está muito acima do primeiro milhão, lá na casa dos bilhões. Antes disso, ter mais dinheiro só ajuda a atrair maior rentabilidade. Com bilhões é que a coisa fica difícil: imagina comprar R$ 1 bilhão em ações da Saraiva. Vc leva a empresa quase toda (valor de mercado de R$ 1,19 bilhão)!
a velha piada do cara que entra em coma, por 30 anos. Ao voltar a "vida", liga pra corretora e ouve a gravação: "voce tem 46 bilhoes de reais na sua carteira de ações. Deposite 7 milhoes para continuar ouvindo esta gravação."
a diferença entre quem ganha 1 milhão no big brother e de quem ganha com o suor do seu trabalho e investimentos, é de ''muitos milhões''.
BOA TARDE FABIO GOSTARIA DE SABER UMA OPINIAO SUA TENHO UM INVESTIMENTO EM CDB E UMA QUANTIA REFERENTE AO UM CARRO POPULAR HJ, DEIXO ELE NESTE INVESTIMENTO OU VC ME SUGERE OUTRO .
OBRIGADO E TENHA UM OTIMO ANO NOVO.
Prezado Alessandro,
Não sei se compreendi bem sua pergunta (e por favor me corrija se eu estiver errado): você tem um dinheiro investido em CDB e tem uma outra quantia, equivalente ao valor de um carro, que pretende investir? Bom, é difícil aconselhar você nessa situação, sem saber maiores detalhes sobre seu perfil de investidor e sua situação financeira. O ideal é que o dinheiro investido na renda fixa (como o CDB) seja suficiente para cobrir suas despesas por alguns meses, para suprir alguma eventualidade. Se você já tiver esse “colchão”, a decisão sobre onde investir o restante de suas economias depende de seu perfil e de seu conhecimento. Portanto, aconselho a leitura dos artigos do blog sobre educação financeira, renda fixa e ações. Caso você queira maiores conselhos, por favor me mande um e-mail: fabio@opequenoinvestidor.com.br.
Fabio, boa tarde
Me diga uma coisa. Uma pessoa que ja chegou ao R$ 1.000.000,00 e ja possui a sua casa própria e o seu carro, isso tudo aos 42 anos. Quanto acha que essa pessoa pode gastar todo mês estimando uma vida até aos 80 anos. Não quero morrer com todo este valor no banco.rs.
abraços
Ela teria que gastar o suficiente para que o valor do patrimônio não diminua por causa da inflação. Por exemplo, se a inflação for de 5% ao ano, e a rentabilidade de 12% ao ano, você poderia gastar aproximadamente uns 7% do patrimônio por ano (a conta não é bem essa, estou apenas aproximando – mas o valor é aproximadamente este). Mas não entendo a preocupação com “o dinheiro no banco”: eu me preocuparia em garantir um fluxo de caixa sempre crescente, e não ficaria chateado por morrer com milhões no banco – desde que tivesse ensinado a meu(s) filho(s) como administrar bem o patrimônio e tivesse a certeza de que eles o usariam bem.