Investir para a educação dos filhos
É muito comum vermos, nos filmes americanos, a situação de famílias que economizam com o único propósito de pagar a faculdade dos filhos. O preço de estudar em uma boa universidade de lá é realmente salgado, podendo chegar a US$ 36.000 por ano, algo em torno de R$ 61.200,00. Um curso de 4 anos poderia custar em torno de US$ 144.000,00, ou R$ 244.800 (levando-se em conta uma cotação do dólar de R$ 1,70). [tweetbutton] Como se vê, os preços de estudar numa boa universidade americanas são bem salgados. É verdade que alguns alunos felizardos (por serem competentes) conseguem boas bolsas de estudo, que financia a maior parte dos custos, mas a maioria dos alunos depende da economia de seus pais ou de programas de financiamento estudantil, que também são bastante custosos e representam um percentual significativo dos primeiros salários dos recém-formados.
Embora os custos do ensino superior no Brasil não sejam tão altos, a mensalidade das faculdades particulares também pode representar um custo elevado. Um curso como direito, administração ou medicina nas melhores faculdades privadas não custa menos do que R$ 1.800,00. Em determinados lugares, a mensalidade de um curso de medicina pode chegar a um valor próximo de R$ 5.000,00. É claro que esta não é a média do valor das mensalidades brasileiras, assim como o valor de US$ 36.000 por ano não é a média nos EUA, mas o valor pago em uma universidade de ponta. Mas, se você quer que seu filho estude numa boa universidade, deve se preparar para pagar por sua educação, até porque não há como garantir que ele venha a passar no vestibular de uma universidade pública. Além disso, também não é possível garantir que daqui a 15 ou 20 anos as universidades públicas terão a qualidade das melhores de hoje ou que continuarão gratuitas. Ë perfeitamente possível que daqui a alguns anos as universidades públicas brasileiras passem a cobrar mensalidade daqueles que podem pagar, relegando as vagas gratuitas apenas para os menos abastados.
Em suma, é preciso se preparar para pagar uma mensalidade bastante salgada. Como se preparar para isso, se você nem tem filho ainda ou ele é apenas uma criança que nem sabe o que quer da vida? Como decidir o quanto economizar, já que não é possível sequer saber o curso a ser escolhido ou mesmo a instituição em que ele irá estudar? Economizar muito pouco pode significar a frustração dele, por ser obrigado a estudar numa instituição de qualidade inferior à que ele deseja, e economizar demais pode comprometer a própria qualidade de vida da família no presente.
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Um dos principais aspectos a serem considerados para fazer a conta de quanto economizar é estimar quanto será o valor da mensalidade no momento em que o moleque estará começando a estudar na faculdade. É preciso considerar que normalmente as mensalidades são reajustadas anualmente a uma taxa superior à inflação média. Em 2009, por exemplo, o reajuste médio das mensalidades escolares foi de 10%, mesmo tendo sido o IPCA de 2008 apenas 5.9%. Em 2010, o mesmo aconteceu. Ou seja, é preciso economizar o suficiente para mais do que compensar a taxa de reajuste. Pra fazer uma primeira simulação de quanto seria necessário economizar, vamos supor que o pai (ou a mãe, não sejamos machistas!) de uma criança que nasceu hoje acredite que poderá pagar uma faculdade cuja mensalidade seja equivalente a R$ 1.000,00 hoje. Isso significa que a faculdade precisará começar a ser paga apenas em torno de 2028, quando a criança terá 18 anos. Se os pais começarem a economizar a partir de 2011 e terminarem daqui a 17 anos, quanto precisarão acumular para pagar sem atropelos a faculdade?
Para calcular o montante necessário a ser investido, vamos fazer algumas contas. Em primeiro lugar, vamos calcular o valor da mensalidade em 2028, o que é necessário para sabermos quanto será necessário acumular. Supondo que a taxa média de reajuste da mensalidade seja de 8% ao ano, qual será, aproximadamente, o valor da mensalidade que, hoje, é de R$ 1.000,00?

Nessas condições, o valor da mensalidade em 2028 seria de R$ 3.996,02. Como o curso de graduação médio tem duração de 5 anos, temos que calcular também o valor das mensalidades nos anos seguintes: R$ 4.315,70 (2029), R$ 4.660,96 (2030), R$ 5.033,83 (2031), R$ 5.436,54 (2032). Somando o valor gasto ao longo dos 5 anos, teríamos um custo total de R$ 281.316,62. Que facada, não? Temos que considerar, obviamente, que o valor da mensalidade parece assustador porque, na verdade, esse valor vai representar muito menos do que hoje, por causa da inflação.
Mas quanto seria necessário economizar hoje para poder pagar com certa tranquilidade o custo total da faculdade? Para calcular o valor necessário a ser economizado, considerei que nosso pequeno investidor aplicaria os recursos em investimentos que dessem, em média, 10% ao ano em rentabilidade nominal. Para calcular quanto seria necessário investir mensalmente para chegar aos R$ 281.316,62, utilizei a seguinte fórmula:

Fonte: http://webcalc.com.br/
R = O valor das parcelas fixas (o que queremos descobrir)
S = Valor futuro a resgatar (o valor total das mensalidades – no caso, R$ 281.316,62)
i = Taxa de rentabilidade (no caso, 10%)
n = número de períodos (no caso, 17 anos)
Calma, não se assuste com a matemática!! Você poderá fazer o download de uma tabela bem fácil de usar logo abaixo, sem precisar fazer as contas você mesmo.
O resultado que temos após fazer as contas é o seguinte: é preciso economizar R$ 6.938,43 por ano, ou R$ 578,20 por mês nessas condições. Teríamos o seguinte quadro:

Com essa quantia, como se pode ver na tabela, o investidor chegaria ao final de 2027 com a quantia necessária para pagar a faculdade do seu filho. A partir de 2028, se ele não deixasse o montante investido, teria o suficiente para garantir a formatura dele. Se deixasse o dinheiro investido em um investimento de renda fixa, ainda teria algum dinheiro ao final para bancar uma parte da festa de formatura!
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É claro que o plano não precisa ser seguido à risca. Pagar R$ 578,20 hoje pode pesar bastante no orçamento familiar – muito mais do que pagar a mesma quantia em 2019 ou 2025. Nada impede que o investidor comece com quantias inferiores, como R$ 150,00 mensais, e progressivamente aumente o valor investido, à medida em que seu salário aumenta. Vamos brincar um pouquinho com os números na seguinte tabela:

Nesse exemplo, os pais do estudioso bebê investiriam R$ 150,00 por mês no primeiro ano e aumentariam o investimento, todo ano, em 20%, até 2025, quando a “prestação” se estabilizou em R$ 1.925,88. Em 2032, sobrariam ainda R$ 11.799,96. O valor da mensalidade parece muito elevado, mas se olharmos a primeira tabela, poderemos perceber que o valor é quase a metade do valor da mensalidade do curso. É bem maior do que a prestação inicial de R$ 578,20 do exemplo anterior porque, quanto mais é investido nos primeiros anos, maior o montante e o tempo que os juros compostos terão para trabalhar. Não tem como fugir da equação: se você quer investir menos hoje, vai ter que pagar mais no futuro.
Você quer brincar um pouco com esses números? Então baixe aqui a tabela em Excel e faça sua própria simulação!
Arquivado em: Educação financeira
Sobre o autor (Perfil do autor)
Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.Comentários (8)
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Muito boa esta análise
Eu nunca tinha parado para pensar nisto, realmente é viável…
Abraço
Olá, Fábio, ótimo artigo! Aliás, gosto muito dos artigos que você escreve com números e tabelas. Cada blog se destaca por apresentar um determinado tipo de perfil. Uns focam em análise de mercado. Outros, em situações de consumo. O seu se destaca pela ilustração dos textos com ótimas e bem elaboradas planilhas e números.
O mais interessante, desse texto, é a possibilidade concreta de nós podermos visualizar, em números, o impacto dos custos educacionais futuros, e a começarmos a nos precaver no dia de hoje. Sem dúvida, uma mensalidade universitária que hoje custa R$ 1 mil, 13 anos atrás, custava R$ 500. Os efeitos da inflação são nefastos, e atingem as pessoas sem que essas possam estar preparadas adequadamente.
Pais que têm múltiplos filhos devem pensar seriamente em estruturar um orçamento baseado em metas, com cofres individuais para cada pimpolho. É preciso persevança e disciplina. Mas é possível chegar lá!
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
Obrigado, Guilherme!! Isso que você falou é verdade: a gente não consegue imaginar uma mensalidade de R$ 5.000,00, mas se compararmos os preços de 1999 com os de hoje, veremos que é perfeitamente possível. Uma importante faculdade de direito daqui de Brasília cobrava R$ 500,00 por mês de seus alunos em 1999, e hoje cobra em torno de R$ 1.100,00. E por aí vai…
Muito bom artigo, porém os preços estão tão elevados que é difícil fazer um planejamento. Por exemplo, o preço de uma creche no plano piloto está em torno de 1000/mês, o filho de um amigo (4 anos) está saindo próximo ano de uma creche e ele está vendo “escolinha”, o preço está em torno de 1500/mês (por baixo).
Um filho precisa ser muito bem planejado, os preços das escolas até a faculdade estão muitas vezes mais caro que a própria faculdade, um absurdo! Inclusive eu sugiro um artigo sobre quanto custa a educação de um filho até o término da faculdade.
Um abraço
É verdade, André.
Mas, se as famílias não se planejarem, no futuro as coisas serão ainda mais difíceis. Vejo um movimento de elevação nos preços de escolas e faculdades muito forte.
Fábio – recebi um email com um artigo seu, e começei a ler os demais artigos. Estou achando tremendamente interessante – mas de uma certa forma, você despertou certo “desespero” em mim.(risos) Tenho 2 filhos, guardo em torno de 100,00, 150,00 para cada um para imprevistos e invisti meu dinheiro em imóveis (2 aps na planta, na torcida pela valorização e venda bem sucedida.
Depois de ler esta matéria e outras das bolhas, você imagina a sensação que tive, né?
De qualquer forma, estou achando muito interessante a leitura, e se puder me dar algumas dicas de investimento, eu agradeceria bastante.
Abraços, Angela.
Angela,
Fico feliz que você tenha gostado dos artigos. Quanto ao “susto” com os imóveis, não se preocupe: organize seu patrimônio para que você possa diversificar suas economias! Não tem nada de errado investir em imóveis; mas quem está apostando apenas nisso para construir seu patrimônio pode ser surpreendido!
Bom, eu não trabalho com “dicas” de investimento, mas com educação financeira. Dê uma lida nos artigos e, se tiver dúvida, não hesite em perguntar! Se você tiver alguma questão mais particular para discutir, me envie um e-mail: fabio@opequenoinvestidor.com.br.
De qualquer modo, fico feliz por ter despertado o interesse em aprender um pouco mais sobre como investir melhor suas economias!
Um abraço,
Fábio