Governo quer alterar índice de inflação… e você deveria se preocupar

29 de novembro de 201023 comentários

Essa semana li uma notícia preocupante: o ministro Guido Mantega, disse que o Ministério da Fazenda está estudando a formulação de um índice de inflação que exclua alimentos e combustíveis de sua composição. Segundo o ministro, nos Estados Unidos a inflação já é medida a partir dessa metodologia de cálculo, enquanto nós estamos “acostumados a olhar a inflação cheia”. A proposta parece razoável à primeira vista. Afinal, se os americanos já medem a inflação assim, devem estar certos, não é? Mas a verdade é que, ao retirar alimentos e combustíveis do índice oficial de inflação, o governo pode começar a andar por um caminho perigoso, que pode trazer prejuízo para o pequeno investidor. 

1. Por que alterar o índice de inflação pode ser perigoso?

Por que pode ser perigoso? Porque a inflação que afeta o meu, o seu, o nosso bolso, é a inflação cheia. Afinal, você paga aluguel (ou recebe, ou paga prestação de imóvel, se ainda não tem casa própria quitada), você come, usa energia elétrica, telefone, gasolina, compra roupas, paga plano de saúde, compra remédios… a inflação que te afeta deve refletir todos esses gastos, concorda?

Imagine que você resolva comprar um título do Tesouro Direto que pague 5% de juros + IPCA. Você o compra porque quer se proteger contra a inflação: mesmo que a inflação aumente, ainda assim você vai estar protegido. O IPCA é calculado a partir dos seguintes preços: alimentação, transportes, comunicação, despesas pessoais, vestuário, habitação, saúde e cuidados pessoais e artigos de residência. Parece razoável, não é? Nem tanto. Afinal, se você não for apenas um empregado, mas um pequeno comerciante, o índice de inflação que você utiliza para controlar a sua contabilidade não deveria refletir apenas os seus gastos como consumidor, concorda? Você precisaria de um índice que considerasse, por exemplo, os preços de atacado, que refletem as variações de preço dos seus fornecedores. Esse índice já existe, é o IPA. E, para medir a inflação do país, também seria interessante computar o crescimento dos preços dos materiais de construção civil, concorda? Esse índice também existe e, se você está pagando um financiamento bancário, já o conhece: é o INCC.

2. O índice de inflação deve medir o seu padrão médio de consumo

Já existe um índice que leva tudo isso em consideração: é o IGP-M, que é muito utilizado para corrigir contratos de aluguel e as tarifas de energia elétrica. Por que, então, o governo não o utiliza? Por que ele prefere usar o IPCA para divulgar a inflação oficial? Por um simples motivo: o governo tem interesse político em que os índices de inflação sejam baixos, para dar a impressão de que está tudo sob controle e que a política monetária do país está andando nos trilhos. Como o IGP-M leva em consideração vários itens que não são computados no IPCA (como o INCC e o IPA), é um índice historicamente mais alto. Ao usar o IPCA como parâmetro, o governo consegue alardear aos quatro ventos o sucesso de sua política inflacionária, dizendo que a inflação está próxima ao centro da meta de 4.5% ao ano. O IPCA, hoje, está pouco acima da meta, em 5.19%. Isso não quer dizer que nossa inflação está baixinha. O IGP-M, por exemplo, está bem alto – na casa dos 8,8% nos últimos 12 meses, sendo que só durante este ano está na casa dos 8,97%. O que você acha? É melhor divulgar uma inflação de 5,19% ou uma inflação de 8,9%? A diferença parece pouca, mas representa, em termos percentuais, 72%!!!!

3. Governos adoram brincar com índices de inflação

Não é a primeira vez que o governo brinca com os índices de inflação. Até alguns anos atrás, o governo vendia títulos do Tesouro Direto que eram indexados pelo IGP-M. Mas o IGP-M constantemente vinha superior ao IPCA, como já mostramos em outro post. Isso significa que o governo, ao pagar um título indexado pelo IGP-M, tinha que desembolsar mais dinheiro do que ao pagar títulos indexados pelo IPCA. Para evitar que isso acontecesse, o Banco Central tirou do mercado os títulos indexados pelo IGP-M. Fácil, né? Você dá a impressão de que está corrigindo a inflação para o investidor, quando na verdade a inflação real está corroendo ainda mais avidamente o patrimônio dele.

O governo diz que nossos juros reais são os mais altos do mundo, na casa dos 6% ao ano. Mas isso só acontece se calcularmos os juros reais a partir do IPCA. Quando calculamos a partir do IGP-M, os juros reais do presente ano são de aproximadamente 2%. Pois é: a taxa Selic, hoje, está em 10,75% ao ano. Se descontarmos os 8,97% do IGP-M nos últimos 12 meses, temos juros reais de 1,63%! E se considerarmos um investimento que refletisse a Selic, com Imposto de Renda de 15% sobre o lucro e uma taxa de administração de 1%, teríamos juros reais  negativos de -0,63%!  Ou seja, um título do Tesouro Direto indexado pela Selic te pagaria, em termos reais, apenas 1,63% ao ano e, descontado Imposto de Renda e taxa de administração, a rentabilidade seria negativa. Afinal, o IGP-M também te afeta: o preço do seu aluguel e o de sua conta de luz são corrigidos por ele.

Não se iluda. O governo quer mudar o índice oficial de inflação porque o IPCA, apesar de ser bem mais favorável a ele do que o IGP-M, já está se descontrolando também. Uma das principais medidas de controle da inflação está no controle da taxa de juros e está cada vez mais justificar uma queda na taxa Selic com a inflação atual, que está subindo muito nos últimos meses. Então, magicamente, o que o governo sugere? A criação de um novo índice, sem os componentes que tradicionalmente mais pressionam a inflação! Fantástico: não tenho a menor dúvida de que o novo índice (vou chamá-lo de IPCG – Índice de Preços ao Consumidor segundo o Governo) será muito menor do que o IPCA e do que o IGP-M. E aí, o governo poderá reduzir os juros loucamente, dizendo que a inflação está controlada. Não tenho dúvidas de que, se este cenário se confirmar, no futuro os títulos do Tesouro Direto também serão corrigidos pelo IPCG, sendo os atuais títulos corrigidos com base no IPCA retirados do mercado.

Estamos seguindo a lição irresponsável de EUA, Argentina e Venezuela, que começaram a utilizar índices inflacionários místicos, que não refletem a realidade do país. Vamos viver num mundo de faz de contas, onde a inflação não é um problema!

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (23)

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  1. flavio disse:

    Voce acredita em um prejuizo nos ATUAIS papeis do Tesouro? Ou seja, você acha que o atual indice do IPCA vai mudar e prejudicar os titulos ou o governo não meche nesse indice e cria outro?

    O que faço agora com meus papeis?

    • Fábio Portela disse:

      Flávio,

      O que deve acontecer é o governo adotar um NOVO índice. Quem tiver índices indexados pelo IPCA não vai ter problemas quanto ao combinado. Se ocorrerem mudanças, vai acontecer o que aconteceu com os títulos indexados pelo IGP-M: o governo deixa de emitir novos títulos indexados pelo IGP-M, mas respeita quem já tinha os títulos antes.

  2. Investidor Independe disse:

    Isso é uma grande preocupação pra quem investiu em títulos do tesouro corrigidos por esses índices de inflação. Uma pena.

    http://www.investidorindependete.blogspot.com

    abraços

  3. Eduardo disse:

    Isso é maquiar o indice oficial.
    Excluir itens que são de grande impacto no índice é mais fácil…

  4. Augusto disse:

    Como sempre, nosso governo nos envergonha

  5. jose guilherme disse:

    coitado dos aposentados e pensionitas

  6. wagner disse:

    O que ja não atrativo hoje para a maioria das pessoas,vai ficar menos ainda.

  7. Gui disse:

    Fábio, recentemente eu li sobre a forma correta de encontrar os juros reais (não basta substrair a inflação do rendimento nominal): http://hcinvestimentos.wordpress.com/2010/09/15/i

    • Fábio Portela disse:

      Gui,

      Reformulei os cálculos considerando os parâmetros considerados, no texto. E as conclusões são as mesmas!

    • fabio disse:

      a diferença é de segunda ordem. a menos que os números sejam “grandes” (mais próximos de 1 que de 0), a aproximação é muito boa, não alterando a conclusão.

  8. Pedro disse:

    Fábio,

    Você já leu o novo artigo do Leandro Roque, no mises brasil: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=837. É simplesmente incrível e explica boa parte de nossas constatações sobre a bolha imobiliária.

    Abraços,

    Pedro – bolhabrasilia.blogspot.com

  9. flavio disse:

    Obrigado pelas respostas…

    Fico preocupado, pois tenho algum $ em Titulos. Que já não rendem muita coisa, mas qual opção melhor eu tenho? mto pouco…. enfim…

    • Fábio Portela disse:

      Eu também invisto no tesouro direto, Flávio. Minha preocupação não é um alarme para que você tire o dinheiro de lá, mas apenas para que todos se conscientizem da situação.

  10. wagner disse:

    VEJAM O VIDEO: http://www.casttv.com/video/xwjp8q5/guido-mantega-quer-manipular-ndices-de-preos-video

  11. Isabel disse:

    Olá Fábio,

    Eu li o seu artigo e concordo plenamente com o que Voçê escreveu. Não esquecendo de citar que essa enganação sobre a real inflação não é coisa só do governo brasileiro. Estudei na Ciencias Politicas na Alemanha e digo que a mesma coisa acontece na Alemanha, que é considerado país de primeiro mundo. Os jornais relatam que a inflação está em torno de 3% , mas na verdade a inflação já chegou a 8%. Essa soma é exorbitante quando se trata dos nossos bolsos, mas enfim, muita gente continua a acreditar que a inflação faz parte da economia e esquecem que a mesma nada mais é que manipulação. Existem varios livros em língua alemã sobre o sistema monetário. Vou citar alguns, se alguém tiver a oportunidade de ler-los, eu aconselho. “Das silber komplott” de Reinhard Deutsch, “Freiheit durch Gold” de Prof. Dr. Hans Bocker, entre outras. Enquanto estava fora aprendi muito mais sobre a economia, e apesar de ter estudo política, sei que a teoria da política é muito boa, mas o que fazem da mesma uma catástrofe.

    Cabe a cada um cuidar do seu capital. Graças a Deus aprendi desde cedo a não investir em títulos e no decorrer dos meus estudos conheci a firma KB Swiss e comecei a investir em ouro físico. Isso é o que todos deviam fazer. Investir em metais preciosos. Os grandes investidores conhecem as melhores formas de investimentos e por que será que todos eles tem reservas em ouro? Eu acredito que isso não é mera coincidência.

    http://www.indexmundi.com/germany/inflation_rate_%28consumer_prices%29.html

    Isabel.

    • fabio disse:

      isabel, acho que o ouro está um pouco caro, não? fábio fez um artigo sobre o preço do ouro em agosto (http://tiny.cc/avdkf).

      livro em alemão complica…

  12. Cristina disse:

    Senhor Fábio, matéria fantástica. Não sou nehuma economista, mas percebo quanto o governo tem tentado enganar a população, a priori, achei que era por causa das eleições (não sou contra o PT, sou a favor do Brasil). Acho que essa estratégia do governo para maquiar a realidade inflacionária não vai dar certo, porque sentimos os elevados índices de inflação quando vamos ao mercado, por certo que a cada desculpa para o aumento de preços, seja pela falta de chuva ou pelo excesso dela, enfim, tudo é motivo elevação de algum índice colocado gargalo a baixo do brasileiro. Acredito que já estamos próximos ao colapso da Argentina e EUA.

  13. Victor Reis disse:

    Então, segundo este e outro texto seu seria melhor, por conclusão minha, investir em empresas que protegessem de forma mais dinâmica da corrosão inflacionária, como através de investimento direto em ações em empresas do setor elétrico e de consumo que estejam entre as tops e que pagassem dividendos. Estou certo?
    Se sim, porque então investir em Tesouro Direto ou qualquer outra alternativa em renda fixa a título de diversificação?

    Obrigado e parabéns pelos posts sempre diretos!

    • Fábio Portela disse:

      Prezado Victor,

      Cada investidor tem seu perfil. No meu caso, gosto de aplicar no tesouro direto para garantir um colchão, para alguma eventualidade. Mas, construído esse colchão, realmente gosto das ações. Há quem use com eficácia, também, a estratégia de alocar uma parte do patrimônio em renda fixa para aproveitar as quedas na bolsa. Existem várias maneiras de ganhar dinheiro, se você já começou a economizar!

  14. agmach disse:

    Aliás, o governo é algo que o cidadão deve tratar sempre com desconfiança. O próprio plano Real, com toda aquela engenhosidade, não fêz com que o Governo deixasse de utilizar essas siglas que indexam preços de
    taxas e impostos.

  15. Tiago disse:

    Bom dia Fabio, em primeiro lugar gostaria de agredecer a vc por sua gentileza em criar um site como esse, ajuda muito os investidores que , assim como eu, estao iniciando nesse mundo fantanastico de investimento…

    Tenho uma duvida..

    Essa brilhante ”ideia” de criar um novo indice, nunca mais ouvi falar, sera que o governo estuda isso ainda ?

    E o que o guido mantega disse, sobre os EUA usarem indice que nao costa alimentos e combustiveis é verdade >

    Grato amigo e boa sorte….

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