Compreendendo os indicadores fundamentalistas
Talvez uma das maiores dificuldades para quem não está acostumado com a linguagem típica do mundo dos investimentos em ações é decifrar o que significam os indicadores fundamentalistas. Termos como “lucro por ação”, “dividend yield” e siglas esquisitas como P/L, P/VPA parecem ser tão obscuras quanto um livro religioso escrito em latim, que é compreendido apenas por aqueles que destinaram anos e anos de estudos a sua compreensão. [tweetbutton]
Isso não é verdade, contudo. É certo que, como tudo na vida, investir no mercado de ações também depende de estudo. Se você quer ser jogador de futebol, deve treinar um bocado para conseguir se tornar um profissional. Se deseja ser médico, advogado, dentista, cientista político, nutricionista, economista, sociólogo, vendedor, empresário, tem que estudar. Calma, leitor: eu não estou dizendo que, para investir em ações, é necessário fazer um curso superior ou um MBA. É importante ter conhecimento antes de investir nesse mercado – mas a maior parte do que você precisa saber sobre uma empresa antes de investir nela é quase intuitivo. Por exemplo, você investiria numa empresa que dá prejuízo ou que lucra, a cada ano, menos do que lucrou no ano anterior? Não! E por que você não faria isso? Pelo motivo de que uma empresa boa tem lucros que crescem, e não que diminuem!
Quem sabe disso já tem um bom caminho percorrido para ser um bom investidor em ações. É verdade! Há muita gente que, por mais que saiba disso, insiste em passar anos e anos especulando com empresas que não dão lucro, buscando ganhar dinheiro com as flutuações de mercado. No curto prazo, esta estratégia pode até dar certo; mas dificilmente alguém conseguiria bons resultados anos a fio investindo desse jeito.
Para saber se uma empresa é lucrativa e eficiente, é importante obter informações sobre ela. Muita gente acredita que é necessário ter informação privilegiada e que só ganha dinheiro com ações as pessoas que sabem o que acontece por debaixo dos panos, em reuniões secretas dos executivos das grandes empresas. Mentira deslavada! A maior parte das pessoas pode ganhar muito dinheiro com informações que são obrigatoriamente divulgadas pelas empresas a cada 3 meses. Todas essas informações estão disponíveis no site da própria Bovespa, de graça, para qualquer um que deseje acessá-las. Lá, você pode ler os relatórios trimestrais e anuais de todas as empresas e verificar se vale a pena investir seu dinheiro nelas. Além disso, todas as empresas listadas na bolsa de valores têm nos seus sites páginas de Relações com Investidores, nas quais também é possível obter essas informações.
Mas você pode obter muitas informações importantes gratuitamente pela internet. Um dos principais sites que oferecem essas informações de maneira mais acessível para os pequenos investidores é o Fundamentus, que está indicado na barra lateral do site como recomendado. Lá, é possível baixar arquivos em Excel com os balanços patrimoniais e financeiros de cada empresa listada na bolsa. Além disso, se você quiser ver um retrato do momento da empresa, é só digitar o nome da companhia no campo próprio que aparecerá uma página como a seguinte, indicando vários indicadores dos fundamentos da empresa:

Números, números e números! Siglas indescritíveis! Mas o que eles querem dizer? Vamos ver o que querem dizer os principais indicadores para o investidor.
No quadro superior, estão os dados que identificam a ação. O “papel” indica o nome da ação negociada na bolsa, o chamado “ticker”: AMBV4. É o nome das ações preferenciais da Ambev. Como eu sei que são ações preferenciais? Porque, logo abaixo do nome, no “tipo”, está escrito “PN”. Ações preferenciais são chamadas de PN e as ações ordinárias são chamadas de ON.
“Peraí, Fábio: vamos com calma. O que é ação preferencial e o que é ação ordinária? Uma é preferida e a outra é vagabunda?”
Não é nada disso. Esses termos dizem respeito ao tipo da ação e aos direitos que elas conferem a quem as tem. Ações preferenciais dão ao seu proprietário prioridade na distribuição de dividendos, mas, em regra, não dão direito de voto ao acionista na Assembléia Geral da empresa, ou estabelecem restrições a esse direito. Ou seja, você manda menos na empresa (o que não é um grande problema para o pequeno investidor), mas ao mesmo tempo tem prioridade na hora de ganhar o lucro que é distribuído pela empresa. Já a ação ordinária confere direito a voto nas assembléias (cada ação, um voto) e, apesar de não ter prioridade na distribuição de dividendos, confere ao investidor o direito de receber, no mínimo, 80% do valor pago pelo novo controlador caso ocorra a venda do controle da companhia (é o chamado tag along). É importante decidir os direitos que se espera ter na companhia antes de investir nela, porque eles refletem como o mercado irá avaliar as ações. No caso da Ambev, por exemplo, as ações preferenciais AMBV4 são negociadas por R$ 236,49, ao passo que as ações ordinárias AMBV3 por R$ 193,23.
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A tabela também apresenta o setor de atuação da empresa (Bebidas – subsetor de bebidas e refrigerantes), a cotação da empresa no último dia de negociações e os valores mínimo e máximo das ações da empresa nas últimas 52 semanas. Por que 52 semanas? Porque é aproximadamente o número de semanas de 1 ano. Ou seja, a ação preferencial da Ambev foi negociada por um preço mínimo de R$ 152,82 e máximo de R$ 238,41 nos últimos anos, uma variação expressiva de 56%. Em anos bons e em anos ruins, as ações de boas e más empresas sofrem uma flutuação absurda em seus preços: por isso, saber qual foi a mínima dos últimos 52 meses é um indicador importante para que o investidor saiba se é melhor aguardar uma queda dos preços antes de investir na empresa ou se deve investir agora. No caso da Ambev, estamos muito próximos do topo das últimas 52 semanas.
Estes são os principais dados a serem observados na primeira parte da tabela. Vamos ver o que os próximos indicadores dizem sobre a empresa:
1) LPA - O lucro por ação reflete o lucro líquido da empresa em determinado período dividido pelo número de ações da empresa. Por exemplo, digamos que a empresa tenha um lucro líquido de R$ 1.000.000,00 e 10.000.000 de ações. Isso significa que o LPA é de R$ 0,10 (1.000.000 de reais dividido por 10.000.000 de ações). O indicador, por si só, não é tão relevante assim. O que é importante é verificar a capacidade da empresa de ter um LPA crescente ao longo dos anos. Infelizmente, a tabela do Fundamentus não traz esse dado, mas você pode obtê-lo por outros meios, como no próprio site do Ibovespa ou no do Instituto Nacional de Investidores. Por mais que uma empresa fantasie seus balanços com dados falsos, dificilmente ela poderia fazer isso com sucesso em um período de 7, 8, 10 anos. Se ela consegue, é porque tem importantes vantagens comparativas a seu favor.
2) P/L – É o famoso Preço por Lucro. Já escrevi várias vezes sobre as nuances desse indicador e como ele deve ser utilizado pelo investidor. O P/L indica a relação entre a cotação da empresa e o lucro por ação. Ele é calculado dividindo-se a cotação (indicada na primeira tabela) e o LPA (lucro por ação), que é indicado na primeira linha da segunda coluna, à direita. No caso, R$ 236,49 dividido por R$ 9,56, que é igual a 24,73. Isso quer dizer que a cotação da AMBV4 é 24,73 vezes o lucro da empresa.
Normalmente, diz-se que um índice P/L em torno de 15 indica que a empresa está com um preço mediano, acima disso está cara e abaixo disso, barata. Eu mesmo já falei esse tipo de abobrinha, logo que comecei a escrever no blog. Não acredite nesse tipo de coisa: empresas cujos lucros crescem muito rápido tendem a ter um P/L maior, e empresas cujos lucros crescem muito devagar não podem ter um P/L muito alto, pois é injustificado. Veja o caso da Ambev, por exemplo: a empresa teve um crescimento médio de seu LPA nos últimos 8 anos na casa dos 300%, com uma média de 21,65% ao ano. Isso significa que, mantida essa média, no próximo ano o LPA da empresa seria de R$ 11,62. Com a cotação de R$ 236,49, isso significaria um P/L de 20,35. Ainda alto, mas já abaixo dos 24 atuais. Em 2 anos, o P/L já seria de 16. Ou seja, quanto maior o ritmo de crescimento dos lucros da empresa, maior o índice P/L justo a ser pago por ela. No mundo ideal, o melhor a fazer é comprar uma empresa de forte crescimento com um P/L baixíssimo, como ocorreu durante a crise de 2008/2009.
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3) VPA – O valor patrimonial por ação (VPA) indica o valor do patrimônio líquido da empresa por ação. O patrimônio líquido é calculado subtraindo-se do total de ativos da empresa (máquinas, dinheiro em caixa, fábricas, terrenos, patentes, etc) o patrimônio exigível total dela (suas dívidas). Ou seja, é o efetivo patrimônio da empresa e de seus acionistas. Para calcular o valor patrimonial por ação, divide-se o seu patrimônio líquido pelo número de ações da empresa. Se a empresa tem R$ 10.000.000 em ativos e 10.000.000 de ações, o VPA é igual a R$ 1,00.
4) P/VP – É calculado de maneira análoga ao P/L. Divide-se a cotação pelo patrimônio líquido da empresa. Empresas boas normalmente têm um P/VPA superior a 1, porque ela é tão lucrativas que seu preço de mercado é muito superior ao seu patrimônio líquido. Os acionistas consideram que a capacidade de lucrar da empresa é muito superior ao que ela vale. Mas, se você encontrar uma empresa lucrativa com P/VPA inferior a 1, são boas as chances de você estar levando uma pechincha para casa: afinal, está comprando a empresa por um valor inferior ao de seu patrimônio. Empresas ruins normalmente têm o P/VPA inferior a 1, porque o mercado as considera tão ruins que provavelmente logo logo seu patrimônio será constituído inteiramente por dívidas. No caso da Ambev, o indicador é igual a 6,96. Talvez caro, mas reflete a confiança do mercado na capacidade da empresa de lucrar.
5) P/EBIT - EBIT significa o lucro antes dos impostos e despesas financeiras. É uma aproximação do lucro operacional da empresa, ou seja, o lucro obtido com as atividades da empresa. Isso exclui algo que acaba afetando o lucro líquido da empresa e pode levar a distorções: o lucro não operacional, ou seja, o lucro decorrente de atividades que não são propriamente típicas da empresa. O negócio da Ambev é vender cerveja: mas digamos que ela tenha obtido um lucro fantástico com a venda de uma fábrica para uma cervejaria holandesa. O resultado do negócio poderia impactar bastante no seu lucro líquido (e por conseguinte em seu lucro por ação), mas não indicaria nada em termos de sua produtividade ou de sua eficiência. Ao usar o EBIT, busca-se afastar esse tipo de influência da análise da empresa. O P/EBIT indica a relação entre a cotação e o EBIT da empresa, uma boa aproximação de seu lucro operacional.
6) Margem líquida – É a relação entre o lucro líquido da empresa e sua receita líquida, abatendo-se todos os custos de produção e venda de seus produtos. É uma boa medida da eficiência da empresa: quanto maior a margem, mais eficiente a empresa, pois isso significa que a cada Real recebido pela venda de um produto, a empresa conseguiu lucrar mais. No caso da Ambev, cada R$ 1,00 de receita gerou R$ 0,25 de lucro líquido. Compare com o Pão de Açúcar (PCAR4), que teve apenas R$ 0,04 de lucro líquido para cada R$ 1,00 de receita!
7) ROIC e ROE – Esses dois indicadores também apresentam dados que permitem analisar a eficiência da empresa. O ROIC significa o retorno sobre o capital investido da empresa. Ele mede a capacidade da empresa de obter lucro a partir de seus investimentos. Quanto maior, melhor. O ROE, por sua vez, indica o retorno sobre o patrimônio líquido da empresa, ou seja, a eficiência da empresa de produzir lucro a partir de seu patrimônio. Quanto maior, melhor também. A Ambev é excelente no tocante a ambos: ROIC de 26,8% e ROE de 28,2%. ROE/ROIC superiores a 15% indicam boa eficiência da empresa. O ideal, também, é comparar o ROE e o ROIC com anos anteriores, a fim de verificar se o resultado é constante.
8) Liquidez corrente e Divida Bruta Total/ Patrimônio líquido – Esses dois indicadores indicam a solvência da companhia, ou seja, a sua capacidade de pagar suas dívidas. Um índice de liquidez corrente superior a 1 indica a capacidade de pagar a dívida de curto prazo: a Ambev tem um indicador de 1,21. Caso a empresa não tenha condição de pagar suas dívidas de curto prazo, esse índice é inferior a 1. Já a relação entre Dívida Bruta Total e o Patrimônio líquido indica a porcentagem do patrimônio líquido da empresa que está comprometida com dívidas. No caso da Ambev, há uma relação saudável: apenas 21% de seu patrimônio está comprometido com dívidas. O Pão de Açúcar, por exemplo, tem uma relação de 70% (0,7).
Espero ter esclarecido como usar esses indicadores a seu favor! Ler essas informações é essencial para não fazer besteira no mercado de ações.
Arquivado em: Ações • Educação financeira
Sobre o autor (Perfil do autor)
Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.Comentários (21)
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- Análise da Cielo | 1 de agosto de 2011





Fábio tu é o cara!
Fabio!
muito bacana seu trabalho, eu estou iniciando na bolsa, apesar de toda sua informação em realação a AMBEV. vc acha que seria uma otima empresa para quem está começando
Hoje, acho uma empresa que precisa ser muito bem estudada pelo investidor. O preço está caro, mas a empresa tem apresentado bom crescimento. No meu caso, estou comprando aos poucos.
Ótimo artigo!
Está tudo muito bem explicado e de fácil entendimento. Sobre a Ambev considero uma boa empresa, tem bastante mercado e apresenta bons lucros mas pra mim ela ficou um pouco cara. Queria ver o índice de liquidez corrente dela também acima dos 1,5. Mas enfim, não deixa de ser uma boa opção para se estudar e tem um mercado muito bom para garantir sua lucratividade.
Abcs,
Artigo fantástico! Continue com o bom trabalho.
Fábio,
Excelente artigo, muito esclarecedor!!
Vc poderia nos dizer quais seriam as faixas de valores ou percentuais aceitáveis para analisarmos indicadores como por exemplo LPA, P/EBIT, P/VP…?
Estou começnado agora no mercado de ações, mas procuro sempre buscar critérios para análise das ações.
Parabéns pelo seu trabalho!
Um abraço!
Gustavo
Muito bom
Praticamente um resumo da obra "Analise de balanços" de Warren Buffet
Abraço
Parabéns por mais um belo artigo, Fábio. Você mencionou isso no texto, mas nunca é demais reforçar que os dados do Fundamentus são uma foto do momento da empresa. Para um "holder" é importante avaliar como estes indicadores se comportam ao longo do tempo.
Com certeza, Daniel!! Gosto de pegar os dados e acompanhá-los ao longo do tempo. Normalmente, pego as planilhas em Excel do fundamentos, que trazem bons dados trimestrais a respeito dos balanços das empresas.
Otimo post!! Parabens Fabio!!
O blog continua show!
abs,
Erico
Fábio, mais um ótimo post !
Apenas um questionamento : qto ao EBIT, acho q a venda de um ativo ñ impactaria no mesmo já q na conta “Receitas/Despesas ñ operacionais”(nas quais estaria registrada o valor desta venda) , no DRE, fica após o resultado operacional .
Há um excelente site para análise fundamentalista além do Fundamentus: http://www.comdinheiro.com.
Abç
fábio,
parabéns pela análise. mas fica claro sua preferência pela ambev e sua “bronca” com o pão de açucar, com o que eu concordo plenamente.
abraço
Excelente! Finalmente alguém explicou de forma simplificada o que significam estes indicadores…
Fabio, eu nao estou muito confiante na economia internacional, especialmente a dos EUA. Portanto, eu gostaria de investir em 1) algo que fosse minimamente afetado pelo desempenho da economia internacional e tambem 2) no que se refere a acoes, quais as empresas que atuam voltadas principalmente pro mercado interno, e que portanto estariam teoricamente menos expostas a volatilidade do mercado externo.
Valeu!! Parabens pelo blog.
Glauber,
É difícil encontrar algum investimento que não seja afetado pela economia internacional. Mesmo empresas do setor de energia são afetadas pelo panorama internacional. O consumo é todo interno, mas como boa parte das empresas brasileiras produz também com o intuito de exportação, uma crise internacional afetaria a demanda por energia aqui também. Mas, mesmo assim, acredito que as empresas menos expostas são as do setor de energia!!
Fábio,
mais um excelente artigo seu que ajuda muito os investidores iniciantes como eu.
Gostaria de te pedir para corrigir dois pequenos errinhos:
“…por um preço mínimo de R$ 152,82 e máximo de R$ 238,41 NO ÚLTIMO ANO (não no plural, já que estamos falando apenas de 52 semanas, certo?) ,….. por isso, saber qual foi a mínima dos últimos 52 SEMANAS (e não meses, certo?)” Concorda com as correções, ou eu que interpretei errado?
Abraço
Fábio,
como é que se analisa, basicamente, o P/EBIT? quanto maior, melhor? Quanto maior, pior?
Obrigado!
A lógica é a mesma do P/L: quanto menor, melhor, em média.