Como as ações podem proteger seu patrimônio contra a inflação

24 de novembro de 201015 comentários

Um dos principais problemas enfrentados pelo pequeno investidor é a proteção contra a inflação. Ela corrói, lentamente mas de maneira persistente, o poder de compra de seu dinheiro. Cada real vale um pouco menos a cada dia. Se você guarda dinheiro no colchão, repense sua estratégia, porque a cada dia, mês e ano que passa, ele vale menos. [tweetbutton]

Também não se apegue à ideia de que a inflação, hoje, está baixinha, baixinha. O governo costuma fixar suas metas de inflação com base no IPCA, mas esse índice é habitualmente inferior ao IGP-M, que também é muito utilizado para o reajuste de preços de algumas coisas bem importantes para o nosso dia-a-dia, como o aluguel de um imóvel. Dêem uma olhada na dinâmica dos dois índices ao longo dos últimos anos:

Destaquei em vermelho os anos em que o IPCA foi maior do que o IGP-M. 3 anos nos últimos dez. Adivinhe qual o índice que o governo usa para medir a inflação: obviamente, o IPCA. Mesmo o Tesouro Direto utiliza o IPCA como base para indexar os títulos que pretensamente têm por objetivo proteger contra a inflação: até pouco tempo atrás alguns dos títulos eram indexados pelo IGP-M, mas aparentemente o governo viu que poderia ter prejuízo se continuasse com a prática. Para quem paga, é melhor indexar tudo pelo IPCA, porque dá a aparente sensação de “garantia contra a inflação” para o investidor, quando na maior parte do tempo os títulos serão corrigidos por uma inflação menor do que a do IGP-M.

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O que fazer, então, para fugir da inflação? Uma boa medida é investir em ações. Existem alguns setores do mercado cujos produtos são sempre reajustados para refletir a perda de valor decorrente da inflação, o que é uma “certa” garantia de que os lucros da empresa, desconsiderados outros fatores, também serão automaticamente reajustados, ano a ano. É o que acontece, por exemplo, no setor de energia elétrica. Periodicamente, essas empresas reajustam seus preços de acordo com parâmetros previamente ajustados.

Mesmo que ocorra (como alguns analistas estão prevendo que vá acontecer nos próximos meses) um reajuste menor do que o esperado em um ou outro ano, no longo prazo os reajustes compensarão a inflação porque, segundo a legislação administrativa, em um contrato de concessão de serviço público (como é o caso dessas empresas) é preciso assegurar o equilíbrio econômico-financeiro para a prestadora do serviço. Traduzindo o juridiquês: os preços devem ser reajustados para garantir a lucratividade do negócio para a empresa! Se a inflação sobe, os preços também subirão.

Outras empresas garantem esse “reajuste” automaticamente, em razão de seu nicho de atuação. Por exemplo, uma empresa como a Ambev, que tem produtos consumidos repetidamente por seus fiéis clientes, pode reajustar, ano a ano, os preços de seus produtos. Veja, por exemplo, o que diz o blog “Seu Bolso”, do Estadão, em comentário sobre o balanço trimestral da empresa no segundo trimestre do ano:

“A receita líquida da operação de cerveja no Brasil no segundo trimestre foi de R$ 3,097 bilhões, alta de 19,7% ante os R$ 2,587 bilhões registrados no mesmo período de 2009. A receita por hectolitro em cervejas avançou 5,3%, devido aos aumentos de preço em linha com a inflação. A média de participação de mercado em cerveja no período apresentou um crescimento de 2,2 pontos porcentuais na comparação com o segundo trimestre de 2009.” (Suzana Inhesta)

É importante notar que nem toda companhia é protegida contra a inflação. Outras empresas enfrentam uma competição tão feroz que o reajuste de preços em linha com a inflação afastaria seus clientes em potencial. É um dos motivos pelos quais as companhias aéreas são, em geral, um péssimo investimento. A concorrência é tão alta que é preciso oferecer preços cada vez mais baixos para os consumidores. Hoje, é possível comprar uma passagem aérea por preços menores do que os praticados em 2002!! É o que acontece, também, com certos produtos de alta tecnologia, como computadores. A não ser que a empresa tenha uma vantagem comparativa enorme com relação à concorrência, seus produtos devem ser vendidos por preços cada vez menores. Lembro de ter comprado um computador médio, em 2000, por R$ 2.000,00. Hoje, é perfeitamente possível comprar um computador médio (para os padrões de hoje), por quase metade desse preço.

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Mas, em geral, as ações de empresas dos setores de energia e de consumo são bastante “protegidas” do dragão da inflação. É claro que não estou recomendando o investimento em qualquer empresa de energia e de consumo. É preciso garimpar o mercado e verificar se a empresa é bem administrada antes de investir nela.

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (15)

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  1. Fabio

    Acredito que você encontrou a resposta para uma duvida minha. A tempos eu ficava imaginando, como que era investir em bolsa de valores, na época das hiperinflações ??…Como era feita a correção dos valores ?

    Abraço

    • Fábio Portela disse:

      O pessoal comparava com o valor do dólar… devia ser complicado mesmo!!

  2. Pedro Andriow disse:

    Olá Fábio, tudo certo?

    Muito interessante esse seu tex´to, como sempre, porém fiquei com dúvide sobre como empresas de Commodities como a Vale e a Petrobras trabalham em periodos de inflação, elas seguem a inflação nacional ou seguem um indice internacional de inflação daquele produto específico?

    E em tempos de indicação de inflação alta, acredito que se o novo presidente do banco central for tão competente quanto foi o Meireles, ele vai atentar a isso e vai subir a taxa de juros básica, isso leva a um aumento no lucros de bancos, o que leva a ações da área financeira, principalmente de grande bancos, a se valorizar bastante também, fazendo assim uma espécie de Hedge contra altas grandes na inflação. Estou certo ou acabei tomando um rumo errado na ligação das idéias?

    • Fábio Portela disse:

      Pedro,

      O caso das commodities é bem interessante, mas não acho que haja uma relação direta com a proteção contra a inflação, já que há vários fatores (políticos e econômicos) em jogo na hora de definir os preços.

  3. Investidor Independe disse:

    Isso é mais um dos pontos interessantes ao se pensar em investir em ação, a proteção contra inflação. Tudo vai depender das escolhas certas dos papéis. Parabéns pelo texto

    http://www.investidorindependente.blogspot.com

    abraços

  4. Gui disse:

    Fábio, você que é mestre nesse assunto, saberia dizer qual foi a relação média entre o preço do aluguel e o do imóvel em Brasília nos últimos anos? Essa proporção, que hoje varia entre 3-4%, costumava ser mais alta ou mais baixa?

    Abraços!

    • Fábio Portela disse:

      Mestre no assunto? Que nada! rs… bom, aqui em Brasília eu não tenho dados históricos sobre essa relação. Lembro de um amigo que tinha um apartamento de 3 quartos alugado por 600 reais na época, e que foi vendido por R$ 150.000,00 em 2000. Por aí, tiramos que o aluguel equivalia, anualmente, a 4,8% do valor do imóvel, uma relação bem acima da atual, na qual certos imóveis são alugados, anualmente, por 2,6% do preço de venda. Claro que essa é uma evidência anedótica, não tem valor estatístico algum, mas me parece que sustenta a tese de que estamos em um período de descolamento dos preços.

  5. Grave Digger disse:

    Esse é um dos princípios do Warren Buffet, de pensar também nisso na hora de escolher as empresas.

    • MTrindade disse:

      Grave Digger

      When you dig my grave

      Could you make it shallow

      So that I can feel the rain…

  6. Guilherme disse:

    Parabéns pelo texto!

    Ter cuidado com a inflação é crucial para ter sucesso nos investimentos!

    É isso aí!

    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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