Porque não investir em empresas do setor aéreo
Uma das coisas que o multibilionário Warren Buffett e o bilionário brasileiro Lirio Parisotto têm em comum? Ambos NÃO aconselham o investimento em empresas relacionadas ao setor de aviação. Buffett até brinca com o assunto, dizendo ter um telefone vermelho que serve para que seus conselheiros o liguem caso ele esteja interessado em adquirir ações de uma companhia aérea (apesar disso, ele já investiu em empresas do setor). E Lirio Parisotto elenca entre seus 10 mandamentos o seguinte: “Nunca compre coisa que voa, nem que fabrica objeto voador”. Mas por que essa rejeição a um setor que é fundamental para a economia e que parece girar tanto dinheiro?
Vamos fazer um exercício de memória. Você consegue lembrar as grandes empresas de aviação da década de 1980 e 1990? Vasp, Varig e Transbrasil. Agora pergunto: alguma delas ainda continua a voar? Não. As três faliram. Você, que já viu filmes das décadas de 50, 60 e 70, deve se lembrar da Pan American World Airways, talvez a mais famosa companhia aérea do mundo. A cada 3 filmes, 5 mostravam alguma cena em que um avião da empresa aparecia pousando, levantando vôo ou suavemente planando nos ares norte-americanos. Também faliu há quase 20 anos, apesar de todo o seu sucesso.
Ou seja, não importa o quanto a empresa seja grande, famosa ou pareça confiável, uma empresa aérea nunca é administrada bem o suficiente para ser considerada boa demais para quebrar. Isso ocorre por vários motivos. O primeiro deles é que é dificílimo que uma empresa do setor alcance uma vantagem competitiva durável. Se elas oferecerem conforto demais a seus passageiros, os custos aumentam e se torna necessário cobrar mais pelo serviço, o que afasta os clientes. Muito pouca gente está disposta a pagar muito mais por um serviço que dura duas horas em média, o que não compensa os custos operacionais de uma empresa aérea gigantesca (talvez compense para empresas pequenas que ofereçam serviços diferenciados para a elite econômica). A alta concorrência do setor exige preços cada vez mais baixos de passagem, o que comprime as margens de lucro. Se o preço do combustível aumentar demais, os lucros vão pro espaço.
Para que o leitor tenha ideia, uma passagem de avião custa, em média, menos do que há 10 anos atrás. Lembro de uma viagem que fiz entre Brasíli e Aracaju em 2000 ou 2001 que custou aproximadamente R$ 500,00. Hoje, a mesma viagem sai por menos de R$ 350,00. Para viajar de Brasília ao Rio de Janeiro, é possível gastar menos de R$ 200,00 o trecho em determinadas épocas. Por outro lado, o preço dos combustíveis varia demais, tornando difícil a previsibilidade de margem dos lucros. Se o preço da querosene dispara, é praticamente impossível lucrar alguma coisa. Pergunto ao leitor: por que investir em um negócio cujo serviço precisa ser prestado por preços cada vez menores, os custos não podem ser minimamente previstos pelo empresário e há uma concorrência cada vez maior? Compare com empresas com Ambev e Natura, que já têm um público fiel, vendem produtos que precisam ser substituídos a cada dois ou três meses, têm custo bastante previsível e cujos preços acompanham, no mínimo, a inflação?
Vamos dar uma conferida nas três grandes empresas brasileiras do setor de aviação do país: TAM, Gol e Embraer. TAM e Gol, à primeira vista, parecem empresas excelentes: o ativo total das duas companhias, assim como o patrimônio líquido delas, aumentou bastante entre 2003 e 2009. O ativo total da Gol, por exemplo, passou de R$ 544 milhões para R$ 8,400 bilhões no período (1444%), ao passo que o da Tam, passou de R$ 3,537 bilhões em 2002 para R$ 13,137 bilhões no ano passado (271,42%). O patrimônio líquido das duas empresas também cresceu bastante no período (TAM – de R$ 204 milhões para R$ 1,634 bilhões entre 2002 e 2009 e Gol – de R$ 221,48 milhões para R$ 2,840 bilhões entre 2003 e 2009). Mas esse crescimento se deu em grande parte em razão de dívidas assumidas, que elevou o acréscimo do passivo exigível das duas companhias: a TAM, por exemplo, passou de um passivo exigível total de R$ 3 bilhões para mais de R$ 11 bilhões entre 2002 e 2009, e a Gol, de R$ 323 milhões para R$ 5,5 bilhões entre 2003 e 2009. Ou seja, as empresas cresceram, mas em razão do aumento de seu passivo. É preciso tomar mais e mais dinheiro emprestado para crescer continuamente.
As empresas também têm sido razoavelmente lucrativas ao longo dos últimos anos. À exceção do ano de 2008, quando a Gol teve um prejuízo de mais de R$ 1 bilhão, em todos os outros anos a empresa teve lucro. Mas seu lucro líquido apresentou um movimento bem inconstante: houve crescimento de R$ 113 milhões para R$ 684 milhões entre 2003 e 2006, com queda dos lucros para R$ 268 milhões em 2007 e o prejuízo a que me referi antes em 2008 (anos em que o preço do combustível se elevou rapidamente). Em 2009, houve grande recuperação dos lucros, com um lucro líquido de mais de R$ 850 milhões. Essa inconstância nos lucros se reflete na capacidade de pagamento das dívidas da empresa: o índice de liquidez corrente da companhia é completamente inconstante, flutuando entre 0,62 (em 2008) e 2,85 (em 2006). Esse índice deve ser superior a 1,00, o que indica a capacidade de a empresa liquidar todas as suas dívidas. Como os lucros são inconstantes, é difícil saber como a empresa se comportará no futuro.
A TAM apresenta características parecidas. Em 2002 e em 2008 teve prejuízo (respectivamente, de R$ 605 milhões e R$ 1,360 bilhões), mas em vários dos períodos o seu índice de liquidez corrente foi inferior a 1, indicando possíveis problemas para pagamento de sua dívida. Em 2002, por exemplo, o índice foi de 0,53; em 2003, de 0,8; em 2008, de 0,96; e em 2009, de 0,98. Nos demais anos o indicador foi superior a 1. O problema não é que a empresa tenha dificuldade de pagar suas dívidas, mas que, em anos ruins, ela não venha a ter a capacidade de fazê-lo. É difícil saber o que acontece se a empresa, assim como a Gol, passar por 4 ou 5 anos de preços de combustíveis caros. Como não é possível aumentar demais o preço das passagens em razão da alta concorrência, a empresa pode ter que vir a amargar alguns anos de prejuízo.
E a Embraer? A empresa, queridinha de alguns analistas, deu prejuízo para quem começou a investir nela em 2002. A máxima cotação daquele ano foi de R$ 11,09, ao passo que a máxima cotação de 2009 foi de R$ 10,63 (hoje, as ações da empresa estão cotadas a R$ 11,70). Como o dividend yield é razoavelmente baixo, girando em torno de 3,5% ao ano, os ganhos obtidos com a empresa perderiam até com a inflação. Aliás, isso também teria acontecido com quem investiu na Gol, cujas ações caíram de R$ 40,61 para R$ 26,57 em 2009 (hoje, estão cotadas a R$ 27,14). E isso, obviamente, é fruto dos resultados operacionais da empresa. O ativo total da empresa subiu pouco menos de 50% ao longo dos últimos 7 anos, um pouco melhor do que o crescimento de seu passivo exigível. Por outro lado, no ano passado o lucro líquido da empresa foi de R$ 894 milhões, inferior ao lucro líquido de 2002, de R$ 1,179 bilhões (que, aliás, é o segundo maior lucro líquido do período, sendo inferior apenas ao de 2004, de R$ 1,280 bilhões). Ou seja, a empresa não tem um histórico de lucros crescentes que seja minimamente confiável. Pelo contrário, os lucros estão derrapando no mesmo patamar há quase dez anos. A Embraer até tem uma boa taxa de retenção dos lucros (cerca de 50%), com um bom ROE (média de 15% no período), mas não consegue aumentar sua lucratividade. Sem lucros crescentes, não há como a cotação crescer e ter uma boa rentabilidade para o acionista.
A grande questão, portanto, é: por que investir em empresas de aviação com tantas boas empresas de outros setores menos problemáticos da economia? Os custos são altos e crescentes, a competição é voraz e é muito difícil identificar uma empresa do setor com grande vantagem competitiva, mesmo que sua administração seja bastante eficiente, como têm sido as administrações da TAM e da Gol. Sigo acompanhando as opiniões de Buffett e Lirio Parisotto.
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Comentários (7)
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Nunca havia parado para pensar que um setor com serviços indispensáveis nos dias atuais e onde parece girar tanta grana pudesse ser um mal negócio…
Artigo sensacional!
Concordo plenamente!
Tenho montado uma carteira "Brasil Mercado Interno 2020", comprando ações de empresas que têm excelentes perspectivas de crescimento.
Pensei nas aéreas, pois tem muita gente começando a viajar, principalmente da classe C, etc. Mas lendo o Buffet, achei melhor ficar de fora.
Eu ainda adicionaria outros riscos: se tiver um acidente, as ações despencam. Estão sujeitos a regulação, governo, burocracia, estão na mão dos controladores de tráfego e até da tripulação.
E incluo outros setores nessa aí: commodities são complicadas, a não ser em tempos áureos. As frigoríficas por exemplo, não entro nem a pau, se o dólar cair mais um pouco eles não conseguem nem exportar, e ainda tem problemas de vaca louca/gripe aviária, proibições de exportação para países, etc. Outra, a Positivo, não entro pois não sei se daqui 10 anos eles vão estar aí ou se vão ter sido engolidos pela concorrência. Gosto de empresas que tenho certeza que vão estar por aí e muito bombantes daqui 10 anos.
O que acha de David Neeleman e sua Azul?
Se as companhias aéreas não valem a pena, por que elas existem?
Sabem qual a melhor forma de se tornar um milionário?
Basta um bilionário investir em uma empresa aérea!