O medo paralisante do próximo crash

27 de outubro de 201022 comentários

Um dos fatores que mais afasta o investidor iniciante do mercado de ações é o medo de que, assim que ele investir parte de suas economias, ocorrerá um crash na bola como o de 1929. Às vezes, ele compra umas açõezinhas ou umas quotas de um fundo de ações, mas na primeira queda, desesperado, desfaz suas posições e sai do mercado na primeira oportunidade (com prejuízo). [tweetbutton] O medo de que o crash aconteça tão logo o dinheiro seja investido cega e paralisa. Mas quais são as chances reais disso acontecer?

Vamos pensar na situação dos EUA, sobre as quais temos dados concretos mais firmes. O último crash como o de 1929 foi o de… 1929!! Tá certo que foi O crash, tanto que até hoje o utilizamos como parâmetro de comparação. Sempre que há uma crise nova, os economistas e analistas temem que seja A crise que vai abalar o mundo e vai nos levar de volta para a Idade Média por causa da quebradeira geral. A crise de 1929 demandou longos 15 anos para que a bolsa de Nova Iorque retornasse aos patamares anteriores. E muita gente perdeu dinheiro com a bolsa, mas a maioria dos americanos nem investia nesse mercado. O prejuízo que eles tiveram foi na vida real, com o desemprego e a miséria que a economia real sofreu. Ao contrário do que as pessoas pensam, não foi o crash que causou a depressão nos anos seguintes. A depressão foi causada por uma retração econômica que ocorreu no mundo inteiro e por políticas equivocadas do governo americano.

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Em 1950, vinte anos depois da crise, boa parte dos americanos ainda tinha medo do mercado de ações. Justamente pelo medo de que algo tão ruim quanto o crash de 29 viesse a ocorrer novamente, eles perderam lucros excelentes dos anos seguintes. Depois de 1929, a economia americana passou por várias crises, como a de 73-74 (crise do Petróleo), a de 81-82, a de 1987, a de 2000 (bolha das empresas pontocom) e a de 2009, da qual não nos recuperamos integralmente. Uma crise a cada dez ou quinze anos, acompanhada de recessões ou de períodos de baixo crescimento, mas que são normais na economia. E o que aprendemos com isso? Que cada uma dessas crises foi um momento espetacular para investir em ações. O mundo não acabou e não voltamos à Idade Média. Se isso não aconteceu em 1929, por que deveria acontecer agora? Vamos ver o que aconteceu nesses momentos no seguinte gráfico, que retrata o movimento da bolsa de Nova Iorque nesses períodos:

wpid-NY-2010-10-27-20-54.jpg

Como você pode observar no gráfico, mal dá pra perceber o impacto da crise de 1929 sobre os rendimentos da bolsa americana. É um tracinho praticamente imperceptível, mas cujos efeitos podem ser vistos nos anos seguintes: até 1945, o Dow Jones permaneceu bem próximo aos patamares da década anterior.E dali por diante, vemos a crise de 73 como outro pontinho, mas que teve reflexos na manutenção de uma certa estabilidade até 82 e, a partir daí, só alegria. A crise de 87 também aparece como uma retração pontual no mercado. Proporcionalmente, as crises de 2000 e de 2009 foram muito piores, como o gráfico indica. Por que, então, temos a noção de que a crise de 1929 foi tão ruim? Afinal, a crise do ano passado levou o índice lá pra baixo, e a de 1929 parece só um pontinho de queda?

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Cada uma dessas crises foi histórica a seu tempo. Mas o crescimento da economia tem sido tão grande que, passadas algumas décadas, mal podemos percebê-los nos nossos gráficos atuais. Daqui a 20 ou 30 anos, olharemos a queda de 2009 e mal a perceberemos, senão como uma contração pontual. Mas, quando vemos um gráfico do período, podemos perceber como o impacto delas foi grande. Vamos ver um gráfico alusivo à crise de 1929, por exemplo:

wpid-ishot-57-2010-10-27-20-54.jpg

Como você pode observar, a queda foi feia, chegando a 89% de declínio desde a máxima. Mas quem aproveitou aquele momento para comprar ações teve bons lucros já nos anos seguintes, quando, apesar de o índice não ter se recuperado integralmente, houve crescimento substantivo desde o fundo do poço. Quem comprou ações próximo ao fundo do poço, em 1932, teve mais de 1000% de lucro quando o mercado se recuperou por completo, treze anos depois. Um rendimento composto de 19% ao ano.

O mesmo padrão pode ser observado no Brasil. Já tivemos quedas feias e longos períodos de recessão e de estabilidade na bolsa, mas a tendência também é “para cima”. A casa cai, mas nossa economia se recupera, mais ou menos rápido do que nos ciclos anteriores. Nosso pior momento da década de 1960 pra cá ocorreu na década de 1970, quando demoramos longos quinze anos para recuperar o topo histórico de 1971. Mas quem teve sangue frio e paciência para comprar ações nesses anos ruins foi bem recompensado nas décadas seguintes. Tivemos outro período complicado entre 1986 e 1992, e mais um entre 2000 e 2003. Em termos percentuais, praticamente nos recuperamos da crise da “marolinha” (que, contudo, ainda não acabou). Vejamos o gráfico do Ibovespa de 1960 pra cá.

wpid-ishot-58-2010-10-27-20-54.jpg

O que podemos aprender com tudo isso? Em primeiro lugar, que o crash de 1929 foi um evento único até aqui. As chances de que ele se repita são muito, muito baixas. Pode acontecer? Claro, mas é improvável. Além disso, também é possível perceber que os momentos de crise normalmente são excelentes para comprar ações. Comprar ações de boas empresas quando elas estão subvalorizadas é a melhor medida que o investidor poderia tomar. Pode demorar, mas quem faz o dever de casa e compra ações nesses períodos provavelmente será muito beneficiado nos anos subsequentes. Ficar paralizado, com medo do crash, é contraproducente e só pode levar a um resultado: impedir que o investidor se aproveite das benesses do investimento em ações.

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (22)

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  1. Erico disse:

    Fabio,

    otimo artigo!

    e o que fazer com bolsa a 75k? 80k?

    a 2 anos faco compras mensais de mesmo valor, mas nesse mes nao consegui comprar… vale, bbdc, bbas, natu, ambv, ate os ETFs bova e pibb que sao o que costuma comprar subiram muito esse ultimo mes!

    Joguei meu dinheiro no Tesouro Direto, e fico esperando… mas sera que eh uma boa solucao? Ou deveria seguir comprando acoes, e aumentando meu preco medio!?

    Nao achei nenhum estudo relacionando este tipo de comportamento!

    Fica ai uma sugestao!

    abss

    • Fábio Portela disse:

      Érico,

      Esses dias eu tava lendo um dos livros do Peter Lynch, o Learn to Earn (vou escrever sobre ele pro site). Ele disse que o importante é comprar ações, independentemente de estar no topo ou lá em baixo: no bull market do final dos anos 80, por exemplo, a diferença de rentabilidade anual entre quem havia comprado no fundo e de quem comprou no topo foi de meros 2% ao ano. É muito, no fim das contas (2% ao longo de 5 ou 6 anos faz uma diferença danada), mas não o suficiente para achar que não devemos comprar quando os preços estiverem um pouco mais altos (a não ser, evidentemente, que seja um absurdo). Mas temos boas empresas a preços bem razoáveis, como a Gerdau, por exemplo, que está na mínima das últimas 52 semanas. Não é indicação de compra, mas apenas uma sugestão de estudo. Se você garimpar, pode encontrar boas oportunidades ainda.

      • Adriana disse:

        Olá Fabio!
        Você leu todo o Learn to Earn? Sabe me dizer se ele trata somente sobre investimentos na Bolsa ou sobre o tema investimento em geral?
        obrigada e parabéns pelo site!

    • Fábio Portela disse:

      Quanto a mim, seguirei comprando todo mês um pouco. É o que faz sentido para mim.

    • fabio disse:

      Erico,

      Concordo, por isso estou aumentando minha participação em renda fixa, até para contrabalancear minha alocação. Mas, como Fábio disse, existem boas empresas que ainda estão com bons preços, só é preciso garimpar.

  2. Lembrando que a oscilação do Ibovespa representa percentual mínimo do que realmente está em jogo na capitalização bursátil e que, também, não afeta em nada o valor de mercado das companhias de capital aberto, mas apenas o prêmio pela liquidez imediata.

  3. Carlos Ranna disse:

    Erico, o que o Fábio comentou faz sentido, porém a tua escolha pelo Tesouro Direto não é de todo ruim. Na verdade você precisa ter uma estratégia definida e se ater a ela. É sempre interessante que uma percentagem da tua grana esteja em renda fixa. Não faz mal que uma parte esteja até mesmo em dinheiro, rendendo na famigerada poupança, se for o caso… Este capital pode ser extremamente útil para aproveitar períodos de baixa forte no mercado de ações…

    Fábio, tem como vc postar umas imagens um pouco maiores? Fica complicado enxergar os detalhes dos gráficos que ilustram os teus arquivos. Muito obrigado, e continue o bom trabalho.

    • Fábio Portela disse:

      Concordo! A maioria do meu dinheiro está em renda fixa, inclusive – em títulos do tesouro direto.

      Quanto às imagens, fica difícil, por causa do tamanho delimitado para o texto. Mas vou ver o que posso fazer.

      • Carlos Ranna disse:

        Com relação às imagens, deve haver alguma maneira de elas ficarem pequenas no texto, porém com a opção de visualização delas maiores ao clicar… Abração!

        • Fábio Portela disse:

          Vou pesquisar, mas ainda não conheço! Mas valeu pela identificação do problema!

  4. Diogo disse:

    Fábio,

    Também concordo com essa estratégia de investimento, de comprar um pouco mês a mês. Afinal, se estamos comprando no topo, a ação tanto pode cair quanto pode continuar subindo ainda mais, nunca saberemos. Um exemplo disso, são as ações da Marcopolo, estão bem acima do topo histórico, mas para muitos, a ação ainda está "barata".

    Só acho que o gráfico do Dow Jones não está correto, ele deveria estar em escala logarítmica para fazermos essa avaliação (O gráfico do IBOV parace estar correto). Pois se lá em 1929 o índice estava em 200 pontos e caiu para 50, o efeito é pior do que quando estava em 14.000 e caiu para 6.000 pontos. No longo prazo a crise foi totalmente superada, porém, isso não quer dizer que a crise de 2007 foi pior do que a de 1929.

    • Fábio Portela disse:

      Diogo,

      Com certeza, na época a crise de 1929 foi muito pior. Mas, olhando retrospectivamente, vemos que quem investiu naquela época em ações teve bons motivos para sorrir nas décadas seguintes.

  5. bventura disse:

    Fábio, muito bom o post acima.

    Vinha fazendo como vocês, mas dei uma parada para avaliar o que venho lendo ultimamente.

    Há gente preocupadíssima com a economia mundial para o curto, curtíssimo prazo e recomenda neutralidade nos investimentos em ações, isto é, não sair às compras. Por outro lado, sugere investimento em dólares, euro e ouro. O que você pensa sobre isso?

    Obrigado pela divulgação do seu trabalho.

    • Fábio Portela disse:

      Bventura,

      Não gosto do investimento em moeda ou em ativos que não produzem juros. Até porque tanto EUA quanto Europa passam por dificuldades: há muita gente que acredita que essas moedas devem se valorizar muito nos próximos anos (e outros tantos que acham que elas irão se valorizar). É difícil saber! Mas sempre é possível investir um pouco em renda fixa também: não despreze os bons juros do tesouro direto!

  6. Humberto disse:

    Fábio, excelente post. Acho seu blog muito legal, com textos bem atuais e interessantes. Quanto ao texto acima, acho que o mais correto é analisar longos períodos na escala log, pois assim podemos comparar uma queda (ou alta) com outra, em termos de percentuais. Na crise de 1929 a bolsa de NY caiu quase 90%. Esta crise passou muito longe disso, apesar de ter sido uma grande queda (60% do Ibovespa).

    • Fábio Portela disse:

      Bom, acho que o gráfico do seguinte link talvez satisfaça sua curiosidade!

      http://www.epips.com/djia.html

  7. Sérgio disse:

    Nesta altura, o melhor é apertar o cinto e fazer poupança.

  8. Rui disse:

    Fabio, o crash de 1929, ja aconteceu novamente, com a queda vertiginosa, do index NASDAQ entre 2000 e 2002, mais de 50%.
    No momento no Brasil, a curto e medio prazo, é impossivel, pois
    os fundamentos da economia, não justificam. Porem é possivel, acontecer devastadores crashs, em acões individuais. Portanto
    extremo cuidado.O crash de 1929, não aconteceu por equivocadas
    politicas economicas, mas sim by design. Foi programado. Dolar
    e Euro, a medio prazo, vão perder metade de seu valor, atual.
    Investir no currency market, a medio e longo prazo, é suicidio financeiro.

  9. Grave Digger disse:

    Fabio,
    Eu não concordo totalmente com essa estratégia de comprar sempre um pouco a cada mês.
    Eu prefiro seguir a estratégia Buffet, do Sr. Mercado. Acho que o principal é sempre avaliar o preço da ação e ver se ele está barato ou caro. É fazer as projeções pra 5/10 anos para a empresa e projetar um preço alvo, e pensar: se eu comprar hoje, qual o retorno composto anual que vou ter com ela, e comparar com o Tesouro. Se ao preço de hoje ela está dando 20% ou 30% aa, eu compro. Se mais de 30%, compro all in, que seria na crise. Se começa a ficar 15%, 10%, já começo a preferir garantir essa rentabilidade no Tesouro, e além de não comprar, começo a vender o que já ficou caro. E espero uma nova oportunidade.
    Foi isso que não fiz na época da crise, e me dei mal tanto perdendo dinheiro na queda e não tendo dinheiro disponível suficiente para comprar as pechinchas. Vai olhar quanto as empresas ligadas ao mercado interno já multiplicaram desde o fundo do poço.
    Como diz o Buffer, em um mercado de ursos, o caixa é rei!

  10. Nunca na bolsa você vai ter um momento certo que te dê confiança pra entrar/sair, pois sempre vai existir a possibilidade de cair/ubir. E não existe receita mágina nem melhor estratégia em renda variável, pois como o próprio nome diz é variável, as vezes dá certo, as vezes não. Para minimizar os riscos vale tudo, estudar economia, fundamentos, técnica além de um bom feeling que só é adquirido com bastante estudo e experiência.

    Abraços

  11. Andre Franco disse:

    Para mim o importante e' ter um vies positivo sobre o mercado acionario; ou seja, manter-se investido nele sempre, comprando acoes de empresas solidas quando houver crises ou liquidacoes no mercado. E' isso ai! AF.

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