Nouriel Roubini: chances são altas de retorno da recessão nos EUA
Quando Nouriel Roubini fala, é bom ficar atento. O professor da Universidade de Nova Iorque previu com grande precisão o castelo de cartas sobre o qual foi erguida a bolha imobiliária americana, além de ter registrado muitos elementos do atual panorama econômico mundial. Tido como visionário por uns, e como um alarmista por outros, a única coisa certa sobre Roubini é que é importante ouvir o que ele tem a dizer. E, recentemente, ele — reforçando algo que ele já vinha dizendo desde o início da recuperação econômica — reafirmou que são bastante razoáveis as chances de a economia americana entrar novamente em recessão. Ocorreria, então, uma recessão de duplo fundo, caracterizada por uma queda na atividade econômica seguida por uma pequena recuperação e nova queda subsequente. Vejamos o que o professor disse ontem, em reportagem publicada na Bloomberg e traduzida por mim:
Fonte: Bloomberg News (14/10/2010)
Título: Roubini Expects 35-40% Chance of a Double Dip Recession in U.S.
Autor: Jun Yang
URL: http://www.bloomberg.com/news/2010-10-14/roubini-expects-35-to-40-chance-of-u-s-entering-a-double-dip-recession.html
Nouriel Roubini, professor da Universidade de Nova Iorque, disse esperar uma chance entre 35 e 50% de a economia americana entrar em uma recessão de fundo duplo, destacando os riscos enfrentados pela maior economia do planeta.
“Desde o segundo trimestre, o crescimento americano foi de apenas 1.7% e será ainda mais fraco na segunda metade do ano. No quarto trimestre, o crescimento econômico dos Estados Unidos pode ser baixo, em torno de 1%”, disse Roubini em uma conferência realizada hoje em Seul. “A taxa de crescimento está tão baixa que parecerá que estamos em recessão, mesmo que tecnicamente não estivermos”.
O Federal Reserve (Banco Central americano), no último mês, disse que provavelmente o crescimento econômico será “modesto no curto prazo”, e acrescentou estar preparado para afrouxar a política monetária ainda mais, caso seja necessário. A recuperação de economias avançadas, como a americana, provavelmente será anêmica e “na forma de U”, disse Roubini [nota: recuperação em forma de U significa que haverá um período de queda na economia, seguido por uma estabilização no fundo e, posteriormente, de uma recuperação mais consistente).
O dólar, hoje, caiu para os níveis mais baixos nos últimos 15 anos, quando comparado ao iene, e para os níveis mais baixos desde janeiro em relação ao euro, antes da divulgação de relatórios econômicos que provavelmente irão alimentar a especulação de que o Fed irá afrouxar o crédito ainda mais para sustentar os preços. A moeda americana foi negociada por 81,19 ienes às 14:02 de Tóquio, caindo de 81,81 ienes no dia anterior, em Nova Iorque, e está cotado em $ 1,4075 euros, subindo de $ 1,3961.
Alto desemprego
A taxa de desemprego americana, próxima de 10%, está afetando a confiança dos consumidores e limitando o consumo, que corresponde à maior parte da economia.
Roubini, que previu a crise de crédito, disse que a taxa de crescimento potencial dos Estados Unidos é de aproximadamente 3%. Uma vez que o ritmo de crescimento está muito abaixo disso, não haverá criação suficiente de empregos nos Estados Unidos, segundo ele.
O crescimento fraco no segundo trimestre significa que as chances de uma recessão de fundo duplo são de 40%, mais altas que a previsão alterior de 25%, disse Roubini, Presidente da Roubini Global Economics LLC, sediada em Nova Iorque.
Risco de deflação
A deflação é o pior risco para economias avançadas, disse Roubini. Os preços dos produtores japoneses de setembro caiu pela primeira vez desde julho, uma vez que a subida do iene torna as importações mais baratas, de acordo com os dados divulgados hoje pelo Banco do Japão.
Os preços ao consumidor americano subiram 0,2% em Setembro, após uma subida de 0,3% no mês anterior, de acordo com a projeção de economistas ouvidos pela Bloomberg News antes da divulgação dos dados, que ocorrerá amanhã.
Roubini disse que o Banco Central do Japão não está reagindo agressivamente aos acontecimentos. O Banco do Japão criou um fundo de 5 trilhões de ienes (US$ 61 bilhões), em 5 de outubro, para comprar títulos e outros ativos, e buscou manter sua taxa de juros de referência próxima de zero até que o fim da deflação esteja próximo.
Ao contrário do ritmo lento de recuperação das economias avançadas, as economias emergentes provavelmente se recuperarão rapidamente, segundo Roubini.
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Tem um livro recente muito bom do Roubini: "A Economia das Crises". Recomendo.
Fábio, muita atenção vem sendo dada aos mercados emergentes. Os fundamentos deteriorados ,as baixas taxas de juros pagas pelo tio Sam e cia, tendência de alta de commodities, são argumentos dados por alguns para indicar que a bolsa brasileira pode ter um bom momento. Mas diante desta ameaça de retorno da recessão anunciada pelo Roubini, Peter Schiff entre outros, todo o mercado não ruirá, incluindo nossa bolsa ?
Fico me indagando, qual seria a melhor alternativa de proteção no momento. Ficar líquido, renda fixa, ouro ?
Sem querer lhe atribuir responsabilidade sobre o investimento de qualquer um… mas qual seu ponto de vista a respeito ?
A propósito, conheci seu blog recentemente e estou gostando bastante.
Já dei meu voto.
Um abraço.
Prezado Eduardo,
Obrigado pelo voto e pelos elogios!!
Bom, minha opinião sobre o assunto é a seguinte: em algum momento esses problemas terão que ser resolvidos. Pode ser que passemos algum tempo (uma década?) tendo que lidar com o problema de nosso endividamento, e o mundo, com isso também. Para os próximos anos, não vejo isso acontecendo – pelo contrário, talvez a continuidade da elevação dos preços das commodities. Apesar da deterioração, o crescimento da China persiste — embora a taxas mais baixas, é verdade. Mas a China ainda tem muito para crescer para ficar com um padrão médio de vida sequer próximo ao nosso.
Meu ponto de vista sobre tudo isso é o de que o melhor é investir em ações. Vejo um cenário de baixos juros, ao menos para os próximos anos, e há muitas empresas boas e competentes na Bovespa. Além disso, vejo uma demanda interna ainda crescente e com potencial no Brasil. Ouro pode ser uma saída, já até escrevi sobre isso, mas ainda acredito que as ações sejam um bom caminho para o investidor. No meu caso, sigo com aproximadamente 35% em ações, e 65% em renda fixa. Se houver uma queda brusca em nosso mercado de ações — que pode acontecer caso a recessão americana realmente se confirme — o capital da renda fixa será usado para aproveitar as promoções.
Abraços,
Fábio
Eu discordo do Roubini, falar que a economia vai entrar em doubble-dip (duplo mergulho) é radicalismo demais. Os Estados Unidos estão em lenta recuperação econômica, não em uma contração econômica. É claro que alguma retração poderá aparecer e 2011, mas nada perto do que seria um duplo mergulho.
Abcs,