Ceticismo nas eleições
Sou um defensor do pensamento cético. Numa democracia liberal, como a nossa, a população deve desconfiar, sempre, dos nossos governantes ou de quem tem anseios por sê-lo. As eleições de 2010 deixam cada vez mais claro o quanto nossa política precisa de cidadãos céticos. Os candidatos de ambos os partidos têm apresentado argumentos falaciosos, estatísticas deturpadas, lançados factóides, entrelaçando questões absolutamente impertinentes no debate presidencial. Desde o início (e até antes), o panorama político tem sido marcado por alianças espúrias entre partidos historicamente antagônicos, cujas ideologias são inconciliáveis. [tweetbutton]Ceticismo, ceticismo, ceticismo; o ceticismo deveria ser uma instituição política prevista na Constituição e ensinada nas escolas e faculdades.
Alguém imaginaria, há vinte anos, uma aliança entre Lula e Sarney? Ou que a Tradição, Família e Propriedade (TFP), instituição que já deveria ter sido abolida do panorama nacional, viesse a ter influência na campanha de um partido como o PSDB, cujos princípios históricos deveriam aproximá-lo mais da social democracia do que do DEM? Pra quem não lembra, Mário Covas, líder histórico do PSDB, apoiou Lula no segundo turno em 1989. Fernando Henrique e Lula estiveram lado a lado na luta pela democracia, no movimento “Diretas Já”. Estatísticas são deturpadas para transformar o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na pior desgraça que poderia ter acontecido no país, desconsiderando importantes avanços que realmente ocorreram (por mais que tenha havido aspectos a serem criticados, como no atual governo também há). Esquece-se das políticas importantes implementadas entre 1995 e 2002, boa parte das quais foram mantidas, no que estava certo e no que estava errado, pelo atual governo. Discute-se a paternidade de programas sociais com uma voracidade típica de casais em processo de divórcio ligitioso, que brigam pela guarda dos filhos.
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De outro lado, a influência nefasta e “oculta” da TFP sobre o PSDB nos trouxe uma discussão estapafúrdia sobre o aborto. Estapafúrdia, não porque a discussão a respeito da legalização do aborto seja irrelevante, mas porque o Presidente não tem competência para dar qualquer contribuição sobre o tema. O Presidente não pode decidir sobre o aborto. Não pode editar uma Medida Provisória reformando o Código Penal, uma vez que a Constituição proíbe a edição de Medida Provisória sobre direito penal. Se o Congresso Nacional decidir editar uma Emenda Constitucional incluindo o aborto como direito fundamental, o Presidente também não pode fazer nada, pois Emendas Constitucionais somente podem ser promulgadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, sem a necessidade de sanção presidencial. O Presidente pode fazer apenas duas coisas quanto a esta questão. Ele pode vetar um projeto de lei que revogue o crime de aborto – e nesse caso não teria poder algum para decidir a questão, pois o veto deve ser julgado no Congresso, que pode inclusive derrubá-lo. Ou então, pode sancioná-lo – mas nesse caso, a responsabilidade não é somente do Presidente, uma vez que o projeto todo foi discutido pelo Poder Legislativo antes. Ou seja, em nenhuma hipótese o Presidente da República tem qualquer poder para decidir o que quer que seja no que diz respeito ao aborto. É claro que ele pode e deve exercer sua influência política nas discussões a respeito da questão, mas, sozinho, não pode fazer nada. Os outros candidatos que já foram eleitos e compõem a Câmara dos Deputados e o Senado têm muito mais poder que o Presidente, mas ninguém discutiu essa questão em suas campanhas.
Se os dois candidatos fossem realmente comprometidos com a democracia, e não com projetos de poder, discutiriam propostas. No meu mundo ideal da política, os dois iriam a público dizer que, no passado, realmente defenderam o direito ao aborto: Serra quando era ministro da saúde, cargo do qual tanto se gaba, e Dilma, há poucos anos, quando decidiu, assim como Serra, tratar a questão como um problema de saúde pública. Os dois já se posicionaram a favor de o aborto ser tratado como uma questão de saúde pública. Mas os “boatos” lançados sobre a questão, com a caracterização de Dilma como uma defensora do aborto e de Serra como o “paladino do direito à vida”, somente trazem como consequência o retrocesso. O aborto, assim como a questão do casamento entre homossexuais, vinham sendo discutidas por nossa sociedade e provavelmente teriam avanços importantes no próximo governo. Mas, da forma como a questão foi trazida à tona pelos boatos e pelo PSDB, com o objetivo de angariar votos do público religioso, provavelmente discutir essas questões durante os próximos 4 anos será um tabu. Ninguém terá coragem de assumir uma postura mais progressista se a escalada de intolerância realmente for um fator importante na eleição, como está sendo.
Fôssemos mais céticos, estaríamos perguntando se esta realmente é uma questão importante para a eleição. Poderíamos discutir projetos que o Presidente da República realmente pode ter um papel relevante e decisivo. Ao invés de discutir “quem é o pai de que projeto” ou de atacar um governo de mais de 8 anos atrás, poderíamos discutir o que fazer daqui para a frente. Poderíamos discutir os projetos de PT e PSDB para o meioambiente; para aumentar os empregos no Norte e Nordeste; para melhorar a educação do país; para melhorar a saúde; para resolver o problema da dívida pública, questão que nem foi nem pautada pelos dois até o momento. O mundo inteiro está preocupado com a dívida pública de países como Irlanda, Espanha, Estados Unidos e Itália, e a nossa dívida está bem próxima da desses países, o que pode causar problemas graves para nosso futuro econômico. Enfim, não vi até agora discussão política. Temos uma briga idiota de currículos. Temos uma briga idiota a respeito da moralidade dos candidatos. Serra é do bem, e a Dilma é contra o mal. Se as coisas permanecerem do jeito que vão, independentemente de quem for eleito, os Ministérios serão ocupados pelos Ministros Superman, Batman, Mulher Maravilha e Lanterna Verde. O Homem de Ferro será o Ministro da Casa Civil.
Quem perde com isso é a democracia. Realmente acredito que o segundo turno foi uma grande oportunidade de discutirmos o Brasil. Mas estamos jogando fora esta oportunidade para discutir aspectos que são irrelevantes, levando em consideração o que um Presidente da República pode fazer. Já perdemos uma semana discutindo quem é contra o aborto, e quem perdeu foi o Brasil, porque assistimos a uma escalada de poder autoritária dos religiosos mais radicais e a um retrocesso na discussão sobre os direitos de homossexuais e das mulheres. Assistimos também a um revisionismo histórico sobre o país, com um governo que se considera o pai de todas as transformações importantes do país. Tudo isso tem tornado nossa política autoritária e irracional. Estamos perdendo a oportunidade que o segundo turno nos deu de discutirmos criticamente propostas factíveis, executáveis e compatíveis com as atribuições de um Presidente.
Falta ceticismo e sobram falácias. Dessa mistura, não se pode esperar muito.
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Compreendo seu discurso e frustração. Entretanto, na guerra instaurada pelos votos de uma maioria que vê e elege um bom governo aquele que promove benefícios pessoais, uma maioria mesquinha e corrupta, que troca a construção de uma escola por cesta básica. É no mínimo hipocrisia achar que se vai ganhar uma eleição discutindo "Dívida Pública". Ambiente ideal só em contos de fadas. Eu sou "Cético" na honestidade de meus concorrentes, por isso sou partidário do time que tem melhores resultados.
Mas eu não culparia somente os candidatos, a imprensa deveria focar mais nesses temas que realmente importam e principalmente os eleitores, que deveriam cobrar e se informar mais sobre política. Vide a eleição do Tiririca…
Com certeza, Diogo!
Parabéns! Mais um excelente texto. Eu também tenho achado muito pobre e reducionista a discussão eleitoral! Está muito difícil escolher o melhor ou , mais corretamente, o "menos pior". Ultimamente penso que o que pode ser bom para a democracia é uma alternância de poder, já que, na essência, todos vão seguir mais ou menos a mesma cartilha, mas uma mudança pode arejar as instituições… bem, mesmo assim, não estou muito certa disso. De todo modo você conseguiu trazer mais um tema interessante para discussão.
dizer que a questao do aborto é algo que "nao importa" é uma absurdidade incalculável.. dizer que se trata de uma questao "religiosa autoritaria" é um absurdo maior ainda..
é um tema que está diretamente relacionado ao senso ético do candidato, e é sim muito mais importante que discutir quem construiu a universidade x ou y, quem vai privatizar o que ou nao, etc.. deveria ser tema de debate SEMPRE, juntamente com a questao do casamento entre homossexuais, a reduçao da carga tributaria, gastos públicos, a questao da atual aliança do Brasil com países notoriamente do "eixo do mal" (cuba, venezuela, irã, etc…).. em temas realmente importantes como esses, os candidatos sequer conseguem firmar uma posiçao, é muita hipocrisia e pouco caráter em jogo. é uma vergonha. quem ja assistiu a um debate nos EUA sabe que essas sao as questoes tratadas em todo e qualquer debate. as posiçoes dos candidatos é o que importa para os eleitores.. o que ele fará depois é uma mera consequencia dessas questoes "macro"
ESSAS sim sao questoes que importam. essa birrinha de quem roubou mais, quem fez mais obras, quem é o menos corrupto, quem tem um assessor que roubou um papel higienico, etc, é coisa secundária, que nem deveria tomar tempo dos candidatos.. mas brasileiro é assim mesmo, só quer saber do imediatismo.. claro, ha de se levar em conta que um candidato que assaltou cofres alheios, participou de sequestros, ou pertence a um partido com tantos escandalos de corrupao como o PT nem mesmo pode se candidatar, quanto mais vencer alguma eleiçao. mas ai é outro papo…
mas cada um com sua opiniao!
"claro, ha de se levar em conta que um candidato que assaltou cofres alheios, participou de sequestros, ou pertence a um partido com tantos escandalos de corrupao como o PT nem mesmo pode se candidatar, quanto mais vencer alguma eleiçao. mas ai é outro papo…" > isso nos EUA ou em qualquer outro pais serio
abraço