O “milagre econômico” brasileiro
Não votarei em Lula (ops, Dilma). Tampouco em Serra. Também não votarei em Marina Silva. Nem em Plínio Sampaio. Em suma, não tenho candidato a Presidente da República. Há alguns meses estive pensando se deveria escrever sobre as eleições ou se era melhor deixar esse vespeiro de lado. Resolvi falar sobre o assunto de uma maneira indireta, a partir de um tema que considero central para o país nos próximos anos e que foi muito explorado pelo atual governo: o crescimento econômico brasileiro.
A alta popularidade do governo Lula está sustentada, basicamente, em um tripé: (i) o alto crescimento econômico obtido em seu governo; (ii) a política de distribuição de renda com o objetivo de diminuir a pobreza; e (iii) uma comparação com o governo FHC, um passado chamado que, segundo Lula, deve ser esquecido.
Até que ponto Lula é responsável pelo sucesso brasileiro e FHC, pelo fracasso de nossa economia no fim da década de 1990? Aliás, será que nossa política econômica tem garantido crescimento econômico sustentado? Ou seja, um crescimento que pode ser mantido consistentemente nas próximas décadas?
Acredito que os dois governos não foram nada responsáveis pelo que aconteceu na economia brasileira entre 1995 e 2010. Vamos dar uma olhadinha no seguinte gráfico:

O gráfico representa o histórico mensal do Índice de Preço de Commodities, que agrega os indicadores de vários produtos, como o preço de petróleo, metais, combustíveis e alimentos. Esse gráfico é importantíssimo porque nossa economia ainda é extremamente dependente desses produtos. Se o leitor observar bem, há uma grande estabilidade de preços entre 1995 e 2002, justamente o período do governo FHC. Nesse período, o mundo passou por várias crises financeiras importantes: México (1994/95), Ásia (1997), Rússia (1998) e Argentina (1999-2002). A maior parte dessas crises, à exceção da ocorrida na Ásia em 1997 (especialmente no Japão), ocorreu em países com características próximas à brasileira, grandes exportadores de commodities – México, Rússia e Argentina.
O Brasil, em que pese tenha sofrido muito com essas crises, manteve um crescimento econômico modesto no período. Tomando o PIB como medida de crescimento econômico, temos os seguintes dados:
Governo FHC (PIB)
1995 – 4,22%
1996 – 2,15%
1997 – 3,38%
1998 – 0,04%
1999 – 0,25%
2000 – 4,31%
2001 – 1,31%
2002 – 2,66%
Total – 19,47%
Governo Lula (PIB)
2003 – 1,15%
2004 – 5,72%
2005 – 3,16%
2006 – 3,75%
2007 – 5,67%
2008 – 5,08%
2009 – -0,23%
2010 – 7% (Estimativa)
Total – 35,66%
De fato, o país passou por um belo crescimento no período do governo Lula, o dobro do que o país cresceu no governo FHC. Mas considero equivocado atribuir ao “governo Lula”, por si só, a responsabilidade por todo esse crescimento. Voltemos ao gráfico das commodities. De 2003 a 2010, o índice cresceu de algo em torno de 65.000 pontos para aproximadamente 150.000 pontos (130%), desconsiderando o pico de 220.000 pontos antes da crise de 2008. Um movimento que não foi visto entre 1995 e 2003, quando esse índice patinou no valor mínimo histórico. Quando verificamos o movimento de algumas commodities em particular, como o petróleo, alimentos e os metais, que são grande parte da base econômica brasileira, nota-se que essa tendência é aguda também nesses setores. Vejamos os gráficos:



Como é possível observar, fora o ano de 2008, quando houve a crise, é possível notar uma tendência crescente para os preços após 2003, o que não pode ser atribuído ao governo Lula, mas a um movimento de crescimento da economia mundial – mais notadamente, ocorrido na Ásia e, mais especificamente, na China e na Índia.
Além disso, muitas reformas estruturais que possibilitaram o crescimento do PIB brasileiro foram estabelecidas durante o governo anterior, que estruturou as agências reguladoras, estabilizou a inflação, abriu ainda mais a economia para o exterior, estruturou o sistema de telecomunicações, inaugurou o sistema de metas de inflação, controlada pela taxa SELIC.
É verdade que a manutenção (e até o aprofundamento) dessas políticas é mérito do governo Lula, mas não houve nenhuma grande inovação institucional no sistema produtivo frente ao governo anterior. Considero que apenas os programas sociais tiveram algum progresso, mas — pelo menos é o que eu considero — acredito que deveriam vir com mais contrapartidas dos seus beneficiários. Considero programas como o bolsa família importantes, mas deveriam vir acompanhados de outras medidas para que a família pudesse se sustentar sem o benefício.
Por outro lado, nenhum dos dois governos fez nada para aliviar alguns dos principais problemas que poderemos ter que enfrentar nos próximos anos. Como você sabe, a Europa está em grandes apuros em razão do endividamento dos governos de países como Grécia, Espanha e Itália, e mesmo os Estados Unidos podem ter que enfrentar esse problema logo, já que também está muito endividado. E o Brasil tem ido pelo mesmo caminho: não aproveitou os anos de bonança econômica para reestruturar sua dívida pública, que permaneceu crescendo.
Vejamos os dados da dívida pública interna e externa:
Dívida pública interna:

Dívida pública externa:

Fonte: Infográfico de Economia da Veja
Ou seja, apesar de o governo Lula alardear aos quatro cantos que o Brasil não tem mais dívida externa, a grande verdade é que ainda devemos muito para outros países, cerca de US$ 200 bilhões. Somado a uma dívida interna de 50% de nosso PIB – ou seja, devemos para brasileiros aproximadamente metade daquilo que se produz em um ano -, temos uma dívida total de aproximadamente US$ 1 trilhão. Não é possível dizer que um ou outro governo lidou melhor com essa questão: como se pode observar no gráfico, a dívida pública aumentou significantemente entre 1993 e 1998, quando passou a se reduzir significantemente, sinalizando uma preocupação dos dois governos.
O que eu quero dizer com tudo isso? Apenas uma coisa: não houve um “milagre econômico” brasileiro no governo Lula. O que houve foi um ajuste institucional, que se iniciou ainda no governo Itamar Franco, com a estabilização da economia, e prosseguiu no governo FHC, que tomou medidas para estruturar a economia que foram mantidas pelo governo atual. Essas medidas possibilitaram que o país crescesse durante essa década, mas acredito que o crescimento poderia ter sido melhor aproveitado, com medidas que diminuíssem nosso déficit público e possibilitassem um crescimento ainda maior nos próximos anos. Vamos ver o que o próximo governo fará.
Boas eleições a todos! Lembro que o blog não tem um candidato a apoiar: reconheço os avanços na área social do governo Lula, assim como a importância dos avanços institucionais do governo FHC.
Arquivado em: Educação financeira





É aquela velha história. A gente vê o galo cantar toda vez que o sol nasce, mas tem gente que acredita que o sol nasce porque
o galo canta. Com o governo atual é a mesma coisa. O país cresceu independente do governo. O governo é o galo que canta.
O sol ia nascer quer ele cantasse quer ele não cantasse.
Ótima análise Fábio !!!
Não vou realizar comentários adcionais hoje, pq é segunda-feira, e o meu cérebro não permite eu pensar no comentário…hehehe
Abraço
Excelente texto Fábio.
Só fico triste de voce não votar em ninguem. Uma pessoa tão bem informada vai deixar o destino do País ser decidico por ignorantes.
Votar em quem? Ninguém tem o mínimo de responsabilidade fiscal ou um projeto de redução da dívida para os próximos anos!
Fábio,
Parabéns por mais um excelente artigo de sua autoria. Quanto à decisão de não votar em ninguém eu compreendo e apóio. Infelizmente não há uma opção que represente mudança no atual sistema, infelizmente. Talvez a opção seja entre perpetuar o poder em um partido ou colocar um partido ineficiente no poder. Também não vou votar em ninguém.
Quanto ao milagre econômico suas conclusões estão acertadas. Acredito que só faltou o gráfico do crescimento da dívida interna bruta (o governo se vangloria apenas dos números da dívida líquida, a qual está sendo manipulada por meio de ilusões contábeis). Este número irá demonstrar que o país cresceu lastreado em operações de empréstimo as quais serão um grande problema para o próximo governante (será como pegar uma empresa com todas as dívidas prestes a vencer – um presente de grego, literalmente)
Saudações a todos
Oi Fábio,
Adorei os gráficos que você colocou. Mas fiquei curioso em saber de onde você os tirou. De preferência acharia mais interessante um link para a fonte.
Abraço
Retirei do site http://www.indexmundi.com.
Espetacular!
Até agora a melhor analise!!
o que eu queria era um cadidato que reduzisse imposto!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! mudava de voto rapidexkkkkkkk
Ótima analise quanto aos aspectos econômicos. Entretanto, eu discordo na parte de educação e social(mas tb não votarei nestas eleições).
Educação:
FHC proibiu concurso de reposição de vagas para professores, obrigando universidades a fechar cursos com a aposentadoria de professores. No ensino tecnico foi pior: separou ensino médio do profissionalizante e criou um movimento de cobrança do ensino, proporcionando uma espécie de privatização do ensino publico em parte destas escolas. Na outra ponta estimulou a abertura de faculdades particulares sem contrapartidas, apesar de instituições comerciais, gozavam de isenções de impostos. O ministro da educação de FHC enriqueceu com o iesb, faculdade privada gigante em Brasília.
Lula aprovou lei que libera concurso automático para reposição de vaga de professor. Criou universidades em regiões carentes e historicamente abandonadas como o sertão nordestino e fronteiras. Temos universidades com vagas para brasileiros, uruguaios, argentinos e até africanos estimulando a capacitação e intercâmbio cultural. No ensino técnico foi uma revolução na minha opinião: criou uma rede de institutos federais habilitados a oferecer ensino técnico, tecnológico e graduações convencionais além de mestrado e doutorado como qualquer universidade. Tais institutos oferecem desde o ensino médio profissionaliZante para adolescentes até o chamado proeja para jovens e adultos que desejam retomar os estudos e melhorarem suas qualificações. Esta rede federal atua em cidades fronteiriças, municípios isolados e regiões empobrecidas, reduzindo o êxodo para outras cidades em busca de estudos e qualificação (uma vez saindo de sua pequena cidade, poucos voltavam). Tais institutos também internacionalizarão suas atividades e oferecerão cursos para os povos da fronteira com todos os países que fazem fronteira com o Brasil e alguns países africanos, reduzindo tensões culturais, dinamizando a economia com mão-de-obra qualificada e abrindo espaço diplomaticamente com estes países.
Eu acho isso genial e creio que os impactos são de meio e longo prazo.
Social:
FHC criou pequenos programas inspirado no bolsa-escola de Brasília.
Lula sacou o potencial do programa e o expandiu não apenas em número de beneficiários e valor da bolsa mas no alcance do programa. O cad único permite planejar programas de governo porque vc sabe quem é quem e onde mora, o que precisa, etc. Isso permitiu a criação de programas de capacitação para os pAis das crianças. Cursos de construção civil, cabelereira, cozinha, etc que proporcionaram expansão da renda e atenderam a demanda das obras do PAC, por exemplo.
Também existem outros aspectos conhecidos por quem trabalha com essa clientela (baixíssima renda):
1- uso do cartão para realizar os saques é aprendizado e inclusão social que prepara este publico para uso de cartão bancário (por isso temos taxas maiores que as mexicanas no uso dos cartões).
2- o valor da bola é pequeno e não sustenta nenhuma família, mas obriga o pais analfabetos e miseráveis a incluir seus filhos em uma rede que oferece o mínimo de segurança social, mesmo que desconheçam ou neguem a importância da escola para seus filhos (onde conhecerao outros exemplos de adultos e modelos de familia) e o acompanhamneto médico
anual que previne problemas de saúde e tem funcao educativa (lave as mãos depois de usar o banheiro)
Bom, o que eu tenho para dizer é isto: não vou votar, mas creio que lula deu continuidade a questões positivas, o que já é um mérito em nosso país. Avançou escandalosamente na parte social com levantamento de dados e políticas bem-sucedidas e na parte da educação, eu acredito que há uma revolução em andamento, mas que não atingirá grandes centros urbanos, e sim os bolsões de miséria no interior e na fronteira. Daí a minha justificativa para a nossa classe média desconhecer ou minimizar o impacto do governo lula nestas questões.
Abraços.
Quitutu, o objetivo do post foi examinar os aspectos econômicos dos dois governos. E eu elogiei a política social do governo Lula – apesar de considerar, sim, que alguns aspectos deveriam ter sido melhor implementados, o que é uma consideração salutar, já que qualquer governo poderia ter sido melhor. Mas o cerne do texto foi o de comparar as políticas econômicas.
Fábio,
acabei de conhecer o conceito de banco cooperativo depois de ser convidado para uma cooperativa de crédito.
O juros do cartão deles é de 5% e as "sobras" são distribuídas para os cooperados todos os anos de acordo com suas cotas. Algumas inclusive fazem a corretagem dos investimentos.
Tem uma opinião sobre o assunto? Fiquei empolgado.
Eu concordo com o Fábio Portela L. Almeida. Não existe nenhuma grande diferença entre PT e PSDB. Assim como ele não votei no PT, nem PSDB, nem PV, nem PSOL ou qualquer outro partido pra presidente no 1º turno, isso pq não me sinto representado por nenhum dos candidatos apresentado nesta eleição. Então não entendo essa briga entre inimigos históricos que tem um passado comum. Mas confesso que é divertido tirar uma com o Serra (e por falar em economia e Serra eu pediria pro candidato 2 coisas: me apresentar o diploma de graduação e fazer um cálculo de porcentagem de meninas numa sala de aula..rs).
Que petistas e psdbistas deem as mãos e pulem juntos pra um buraco bem fundo, que leve todos direto pros quintos dos infernos.
E tenho dito! rs
Fábio, fantástica sua análise.
Com poucas informações, conseguiu sintetizar o que realmente aconteceu e quebrar a falácia de qualquer candidato.
Quanto ao investimento social, basta comparar quanto dinheiro foi investido em todos os programas socias do governo e quanto o governo subsidiou diversas empresas via BNDES. Teremos então uma perspectiva clara daquilo que o governo priorizou, mesmo com avanços que outros leitores discutiram.
Abraços e parabéns pelos artigos, sou leitor assíduo!
Li o artigo, é interessante e bem escrito. Porém sempre gosto de consultar as fontes de tudo o que leio, e entrei no site do FMI ( http://www.imf.org/external/np/res/commod/index.a… ).
Na página acima eles afirmam que os pesos das diferentes comodities que constituem o índice mudou dentro do período analisado pelo autor do artigo.
"The commodity price indices have been revised, and are now constructed using updated weights based on 2002-2004 world trade data (compared to 1995-1997 previously); and a new base year of 2005 (previously it was 1995)"
Oras, não refiz os cálculos, nem gerei o gráfico novamente levando em conta a mudança de pesos. Mas minha tia Olga da 5.série, sempre me ensinou que não se mistura bananas com laranjas, assim como não se mistura indíces com pesos distintos. Não sei se isso invalida o seu artigo. Não sei se você percebeu isso e gerou o gráfico correto. Se o fez, deixe isso claro no texto, e já adianto aqui minhas desculpas.
O que sei, é que isso invalida a premissa adotada por você e na sequência todo o racioncínio desenvolvido a partir dela.
nao ha como comparar o cenario economico mundial atual com o dos anos 90.. sao coisas absolutamente inconciliaveis
o brasil cresceu menos que a bolivia durante o governo lula,e perdemos os anos de ouro da economia mundial
realmente, crescer menos que a argentina e a bolivia so pode ser considerado um milagre economico
Prezado Professor,
Lamento nao ter lido seu artigo/matéria antes das eleições do primeiro turno, pois poderia ter debatido que, a escolha do muro nao é, e nunca foi a melhor tatica de apoio a um candidato ou o fortalecimento da Democracia e a participação Popular.
De outra sorte Eu recomendaria o voto na candidata Dilma para o Primeiro e Segundo turnos, ainda indicaria, como voce fez muito bem, os dados favoraveis da economia e do seu crescimento social, cultural, para lastrear esta recomendação.
Além do meu pouquissimo conehcimento nas áreas de Economia, Sociologia, Cultura, Filosofia, dentre tantas, indicria que aproximadamente 60 milhoes de brasileiros se tornaram novos consumidores ou seja, com CEP(Codigo de endereçamento Postal) e dinheiro no bolso.
Um abraço e parabéns pela iniciativa.
Hoje, tenho meu primeiro contato com seu blog e gostei muito dos seus posts, quando me deparei com este, que resvala em política/econômica, sem tomar uma posição mais clara, fiquei um tanto quanto tranquilo visto que de chofre podemos ver por aí grandes questionamentos sobre o atual governo e suas políticas sociais, as quais admiro e considero um dos maiores movimentos de distribuição de renda já vistos, confesso que prefiro o “muro” ao pensamento paulista e retrogado, acredito que Lula mereceu cada voto que teve apenas pelo fato de retirar da miséria milhões de brasileiros em todos os rincões deste país continental, que a futura presidente continue este trabalho e consiga erradicar a miséria de forma definitiva. Assim poderemos falar sem qualquer peso na conciência de nossos investimentos, objetivos financeiros e patrimoniais.
Gostei de seus artigos. Parabéns, serei assíduo.
Obrigado, Ed! Realmente, acho que o governo Lula adotou políticas importantes (especialmente na distribuição de renda), embora tenha pecado em outras — como qualquer governo, aliás. O que eu não gosto é do messianismo mesmo: é preciso dizer onde houve erros também, assim como elogiar os acertos. Fico feliz por ter gostado do blog! Abraços,
Fábio
Usando de uma comparação: não é porque o sol está brilhando que vou conseguir me bronzear.
O preço das commodities foi fundamental para o crescimento do Brasil, porém vale lembrar que no governo FHC houve, por exemplo, corte no financiamento da agricultura o que levou ao paradoxo de um país que tem a segunda maior agricultura do mundo importar alimentos. E isso é só um exemplo. No governo FHC a industria naval foi paralizada e sucateada, os investimentos em educação e infra-estrutura cancelados.
Portanto dizer que o boom das commodities foi fundamental para o crescimento é apenas parte da história