Examinando o P/L de empresas seculares (anticíclicas)
Para investir adequadamente em ações, é importante saber como a dinâmica dos negócios pode afetar a lucratividade dos investimentos. Há empresas, como as do setor de commodities, cujos lucros variam conforme os ciclos econômicos: podem registrar um período razoável de lucros baixos quando a atividade econômica está menos aquecida, e tempos de lucros gordos e crescentes em épocas de atividade econômica mais aquecida. Estas são as chamadas empresas ciclicas. Há, também, empresas cujo fluxo de caixa é mais constante e varia muito menos do que o das empresas cíclicas. Estas são as chamadas anticíclicas ou seculares.
Imagine uma empresa que vende produtos dos quais as pessoas não poderão se desfazer no futuro próximo. As pessoas não deixarão de adquiri roupas, comida, lâminas de barbear, eletricidade, produtos de beleza, remédios, bebida e livros. As vendas dessas empresas, mesmo que cresçam relativamente pouco, são razoavelmente previsíveis. Se bem administradas, podem se tornar verdadeiras fábricas de produzir lucros.
Pense em empresas como Ambev, Saraiva, Natura e Drogasil. Estão em setores muito diferentes da economia – respectivamente, bebida, livros, produtos de beleza e farmácia -, mas são unidas pelo fato deestarem em setores anticíclicos, que se manterão razoavelmente estáveis mesmo em tempos de crise. As pessoas podem até consumir menos livros e produtos de beleza em momentos difíceis da economia, mas dificilmente deixarão de comprá-los totalmente. Bebidas e remédios, por sua vez, são produtos que mesmo em tempos difíceis as pessoas simplesmente não deixarão de consumir.
Empresas seculares, portanto, são uma bela proteção contra crises financeiras. Vamos ver o caso da Ambev, por exemplo: entre 2007 e 2009, seu lucro líquido passou de R$ 2.816,41 milhões (2007) para R$ 3.059,49 milhões (2008) e R$ 5.959,94 (2009). Ou seja, enquanto as siderúrgicas e mineradoras passavam por maus bocados no meio do turbilhão da crise econômica, os lucros da empresa quase duplicaram. E isso se refletiu no valor de suas ações. Em 2007, uma ação preferencial da Ambev (AMBV4) era negociada a R$131,00 no fim do ano e, hoje, sua cotação está na casa dos R$ 180,00. É verdade que houve reveses no meio da crise (a cotação chegou a R$ 81,00 em 2008), mas isso só significou um momento excelente para adquirir as ações da empresa. Suas atividades operacionais não deixaram de ser lucrativas por um único instante: pelo contrário, a companhia se tornou ainda mais lucrativa.
Essa característica das empresas seculares, contudo, veem com um custo importante. Normalmente, seu índice P/L é bastante elevado: afinal, o mercado não espera que suas atividades diminuam em tempos de crise e ainda espera que seus lucros subam nesse período. Pense no caso da Ambev, da Natura ou da Sousa Cruz: mesmo que essas empresas não aumentem suas vendas em relação ao ano anterior (ou seja, vendam a mesma quantidade de produtos do ano anterior), provavelmente lucrarão um pouquinho mais porque o preço de seus produtos será corrigido, no mínimo, para acompanhar a inflação. Ou seja, o investidor, no longo prazo terá, no mínimo, uma proteção contra a inflação. Com uma boa administração, essas empresas podem vir a ter ainda um bom crescimento orgânico, assegurando lucro para seus acionistas. Por essas razões, essas empresas são normalmente sobreavaliadas.
P/L alto, como já disse antes, pode ser um sinal de risco para o investidor. Mas, como já vimos, P/L bom é P/L futuro. O índice P/L atual pode dar, no máximo, a rentabilidade esperada atual do ativo. Um índice P/L = 10 significa que a relação entre a cotação da ação e o lucro produzido por ela é de 10 vezes, ou seja, o lucro equivale a 1/10 (10%) do valor da ação. Um P/L = 20 significa que o lucro é 1/20 (5%) do valor da ação. Ou seja, isso significa que no momento da compra você pode esperar uma lucratividade imediata de 5%, em relação aos lucros produzidos pelas ações que você tem.
Mas estamos falando de ações, e não de renda fixa: uma boa empresa tem lucros crescentes: ou seja, aquela taxa de rentabilidade inicial determinada pelo cálculo puro e simples do P/L é elevada, anualmente, pela taxa de crescimento dos lucros da empresa. Os 5% podem, facilmente, se transformar em 7%, 10%, 15% em alguns anos. Vamos ver como isso funciona.
Imagine que você comprou ações de uma empresa chamada Investimentos Seculares (INVS4), que produz lâminas de barbear. Essa empresa está negociada a um P/L = 29, ou seja, sua cotação é 29 vezes maior que o lucro daquele ano. Mas o lucro por ação da empresa tem crescido a uma média razoavelmente constante de 15% ao ano nos últimos 10 anos, e não há sinais de que esse crescimento vá diminuir nos próximos anos. Digamos que os dados da empresa sejam os seguintes: cotação a R$ 29,00, lucro por ação (LPA) R$ 1,00. Poderíamos projetar o seguinte crescimento para a empresa:

Imagine que você investiu em 1 lote padrão da empresa (100 ações) no primeiro ano: teria gasto R$ 2.900,00 no investimento e, naquele ano, teria tido um lucro por ação de R$ 1,00, além de ter recebido 25 centavos de dividendos por ação. Estou supondo que a empresa pague 25% de seus lucros em dividendos, que é o mínimo exigido pela legislação brasileira. No segundo ano, o lucro por ação cresceu 15% ao ano, a cotação diminuiu (digamos que tenha havido uma crise), o que levou o P/L a se reduzir para 21,74. Essa variação no preço da ação se torna cada vez menos importante no longo prazo, porque o crescimento dos lucros torna cada vez mais natural a elevação das cotações. Pegue o 13º ano, por exemplo: a cotação está a R$ 90,00, com um P/L de 14,63 – quase a metade do primeiro ano. O P/L diminuiu, mas a cotação é quase 300% superior à do primeiro ano. Ou seja, mesmo comprando a ação em um patamar bem elevado, o investidor ainda teve bastante lucro.
Por que isso acontece? Porque, novamente, o P/L que importa é o P/L futuro. Ao investir na empresa com um P/L = 29, o investidor não deveria pensar no quanto a ação estava custando naquele momento, mas no quanto ela poderia trazer de retorno a ele. Como se trata de uma empresa secular, o crescimento do fluxo de caixa é muito mais constante e pode ser calculado de maneira bastante mais precisa do que no caso das empresas cíclicas (embora nelas também seja possível efetuar esse tipo de projeção, mas de maneira mais conservadora). Um investidor cuidadoso, que desejasse se tornar um verdadeiro acionista da empresa, teria projetado que, dali a vinte anos, o crescimento dos lucros seria responsável pela redução do índice P/L com relação aos preços de hoje. Ao comprar a ação por R$ 29,00, o investidor estaria calculando que, com um crescimento do LPA de 15% ao ano, o P/L da ação seria de meros 2,04 daqui a 20 anos. Ele teria comprado R$ 14,23 em 2030 por R$ 29,00 em 2010.
Sem contar os dividendos. No período total dos 20 anos, a empresa teria pago R$ 25,61 em dividendos por ação, praticamente devolvendo quase todo o investimento inicial ao investidor. Fora a rentabilidade de 1072% (ou 13% anuais) ganha com a elevação do preço das ações. Os R$ 2.900,00 iniciais teriam se transformado em R$ 34.000,00, sem contar com o reinvestimento dos dividendos. Se o investidor comprasse mais ações com os dividendos, teria 127 ações, totalizando R$ 43.180,00 (rentabilidade de 1388% ou 14% mensais). Muito bom, não é? Quase 40% a mais do que o rendimento assegurado por um investimento indexado pela Selic…
Em suma: empresas seculares têm um fluxo de caixa mais previsível, o que torna possível formular com mais clareza previsões desse tipo. Os P/L altos são característicos delas, justamente porque o mercado as sobrevaloriza. Isso não significa que o investidor deva pagar qualquer preço por ela: um índice P/L alto demais exige um ritmo de crescimento tão alto que dificilmente seria sustentável. No nosso exemplo, usamos uma empresa cujo lucro crescia a um ritmo elevado de 15% ao ano. Nesse caso, o P/L atual de 29,00 não parece tão alto, justamente porque o ritmo de crescimento justifica que se invista na empresa com razoável segurança.
Como saber, então, qual o índice P/L máximo que justificaria a aquisição do ativo? Para efetuar esse cálculo, você deve projetar a rentabilidade esperada do ativo e verificar se essa rentabilidade é compatível com um índice de comparação (o chamado benchmark) atual. Eu gosto de usar como benchmark a taxa Selic. No caso do exemplo acima, por exemplo, projetei que a cotação da empresa, com um P/L de 23,89, seria de R$ 340,00 em 2030 (daqui a 20 anos). Nessas condições, o investimento me daria um retorno anual de 13%, que é superior à taxa Selic atual (10,75%). Ou seja, nessa projeção, vale à pena investir na empresa mesmo com um P/L de 29,00. Quanto mais os preços estiverem abaixo desse patamar, melhor será o ativo como investimento. E, quanto menor a taxa Selic, mais alto será o valor pelo qual você poderá comprar a ação.
Lembre-se apenas de ser conservador em suas projeções. Eu costumo projetar cenários de crescimento piores do que os dos últimos anos para verificar se a empresa, ainda assim, seria um bom investimento. Por exemplo, se os lucros da empresa tem crescido a uma média de 20% ao ano, verifique a rentabilidade esperada com um crescimento a 10% ao ano. Se ainda assim você tiver um bom lucro, não hesite em investir!
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Um questão é certa: não é fácil viver de renda. Para se ter uma boa rentabilidade no mercado de renda variável é preciso possuir um alto valor investido. Veja reportagem abaixo:
http://bolsafeliz.blogspot.com/2010/08/sim-e-possivel-viver-de-renda-na-bolsa.html
O que você acha?
Paulo,
O problema é que a matéria não computou o crescimento orgânico dos dividendos ao longo do tempo – o que ocorre com uma velocidade muito menor no caso dos imóveis e da renda fixa. Uma ação que pague R$ 0,50 de dividendos por ação hoje pode pagar R$ 0,70 no ano que vem e R$ 0,90 em 2012. Isso, ao longo do tempo, é uma máquina de produzir dinheiro muito maior do que a rentabilidade de aluguel de imóveis ou da renda fixa. Claro, isso é pra quem pensa no longo prazo…
Fábio, mais um ótimo artigo. Eu não conhecia as vantagens das empresas anticíclicas. Seu artigo explicou muito bem os prós e contras do investimento nesse tipo de empresa, com dados aderentes à realidade brasileira.
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!