Comparando alhos com bugalhos…
Esses dias li uma notícia que me deixou apreensivo, no portal de economia do Terra. Em resumo, a notícia dizia que é melhor financiar um imóvel do que comprá-lo à vista porque a valorização do investimento, no longo prazo, compensaria os custos do investimento. Mas será que essa premissa é válida?[tweetbutton]
Basicamente, o autor do artigo compara a rentabilidade da poupança com os custos do financiamento. A ideia fundamental do artigo é a de que, se você economizar na poupança o valor necessário para comprar o imóvel, você perderia para quem decidisse financiar o imóvel. Um dos exemplos citados seria o de um apartamento em São Cristovão, no Rio de Janeiro. Segundo a matéria, o preço médio de um apartamento na região teve uma valorização de 99.7% entre 2005 e 2010, passando de R$ 44.277 para R$ 88.400 em média. O raciocínio, a partir daí, é bem simples: se ele teve essa valorização entre 2005 e 2010, então em 2015 deverá valer R$ 176.800.
Fantástico, não?
Pois é… e é aí que mora o perigo.
O jornalista que escreveu a matéria está contando com uma valorização de 400% entre 2005 e 2015, o que equivaleria a 14,87% ao ano. Como a poupança rende uns 8% ao ano e o mercado acionário, entre 2005 e 2009, rendeu aproximadamente 159% (segundo os dados da matéria – cerca de 20,9% ao ano), seria melhor comprar o imóvel financiado do que poupar para comprá-lo, já que os ganhos com as ações são imprevisíveis.
O problema é o grande “SE” que está na base do raciocínio de quem escrever a matéria, e que nem ele, nem os entrevistados, revelam. Todos eles partem da pressuposição de que o mercado imobiliário terá, nos próximos 5 anos, um crescimento tão fantástico quanto o dos últimos 5. O problema é que essa suposição desconsidera tanto que os últimos 5 anos no mercado imobiliário tiveram um crescimento incompatível com a média histórica do setor. E isso significa que, no longo prazo, em algum momento os preços se ajustarão - ou se estabilizando por longos anos, ou caindo abruptamente. Se isso acontecer, quem resolver financiar o imóvel pode vir a pagar uma prestação incompatível com o valor de mercado do bem em algum momento – muito parecido com o que aconteceu nos EUA: um pouco menos dramático, porque as pessoas ainda não estão tão alavancadas e o mercado financeiro não lançou produtos baseados nos financiamentos.
Além disso, o autor do texto comparou alhos com bugalhos. É simplesmente impossível comparar o mercado imobiliário com o mercado de ações. O mercado imobiliário é baseado em um ativo que se valoriza simplesmente por existir e pelo que outras pessoas fazem à sua volta. Pense em um terreno, por exemplo. Se ele estiver localizado no meio do nada, vale muito pouco; mas se os vizinhos resolverem desenvolver a região, construindo fábricas, casas e um comércio local, aos poucos o valor do terreno irá subir. Mas se ninguém fizer nada, o terreno continuará a valer pouco. Nas cidades, acontece o mesmo: se a comunidade à volta de um terreno ou de um prédio se desenvolver, provavelmente o preço subirá; mas se a comunidade empobrecer e se tornar uma zona de marginais, a região não se valorizará. O imóvel também pode se valorizar pelas benfeitorias feitas a ele. Ou então (e é aí que mora o perigo) se valoriza porque há mais pessoas interessadas em comprá-los, com mais dinheiro à sua disposição, por força do crédito imobiliário. Se essa fonte secar ou diminuir em algum momento, é bastante alta a probabilidade de que os preços caiam ou, no mínimo, se estabilizem.
Uma empresa, por sua vez, se valoriza no longo prazo porque é lucrativa. Ou seja, quanto maior o lucro produzido, maior o valor de suas ações. Um imóvel, por sua vez, pode se valorizar (ou perder valor) mesmo sem produzir nada, pela força de simples circunstâncias que ocorrem à sua volta. Por essa razão, é difícil esperar que os imóveis se valorizem mais, no longo prazo, do que as ações: empresas são máquinas projetadas para produzir lucros (e é verdade que algumas produzem mais prejuízos do que lucros) e, por isso, ações de boas empresas podem se valorizar por muitos e muitos anos sem que haja necessariamente uma bolha. Às vezes pode acontecer uma bolha no mercado de ações, como aconteceu há 10 anos, na crise das empresas “ponto com”, mas esse mercado pode ver valorizações fantásticas ocorrerem sem que seja uma situação anormal, pelo simples fato de que as empresas estão mais lucrativas.
Portanto, quando o autor compara o mercado de ações com o mercado imobiliário, está comparando investimentos com características muito diferentes. No mercado de ações, empresas seculares têm seu crescimento orgânico razoavelmente previsível. Às vezes, é perfeitamente possível prever a faixa de preço que uma ação de uma empresa como a Coca-Cola, a Ambev ou a Natura estará sendo cotada daqui a 10 anos, em média, tomando como base os lucros dos últimos 10, 12 anos e comparando com a dos últimos anos: se houver um crescimento sustentado e previsível, muito provavelmente o investidor terá feito uma previsão minimamente adequada. É claro que muita coisa pode dar errado, e por isso o investidor deve estar sempre atento aos balanços das empresas que adquire – e empresas bem administradas são preparadas para enfrentar crises temporárias do mercado e até crescer durante elas. Mas a situação é muito mais previsível do que com os imóveis.
No mercado imobiliário, esse tipo de previsão é totalmente inadequada. É impossível prever como estará o crédito imobiliário daqui a 5 anos, porque depende de uma série de circunstâncias alheias à previsão do governo e dos bancos. Pode acontecer uma crise de crédito, uma crise financeira internacional que leve as empresas a demitirem seus empregados, que não poderão pagar o financiamento tomado. Pode acontecer uma crise de superaquecimento da oferta, que leva os preços para baixo. Enfim… são tantos fatores a se considerar, que beira a irresponsabilidade alguém formular o tipo de previsão elaborada na matéria.
Arquivado em: Imóveis





Muito bom este comentário.
Não entendo como que estes jornalistas tem coragem de escrever algo, sem nenhuma fundamentação teórica. É simplesmente um absurdo. Me desculpe, mas diariamente a gente lê cada baboseira, que paro para pensar, que nós com os nossos blog´s (não somos jornalistas) chegamos a ser mais realistas do que eles. Infelizmente, é um fato.
Daí aquela mesma história, quando se fala no assunto "bolha imobiliária", eles vão entrevistar alguém relacionado com o mercado imobiliário, daí lógico, ele não vai falar que está se formando uma bolha…Mesma coisa uma empresa de auditoria contratada pelas empresas do setor imobiliário, são compradas para dizer que NÂO temos uma bolha. Me desculpe se estou generalizando, espero que os bons jornalistas, com boas intenções, não se ofendam com este meu desabafo.
Abraço
Eu tô com você, melhor pagar o imóvel à vista. Agora, isto é valido para quem vai morar no imóvel.
Pra quem vai investir, alugar logo em seguida, aí precisaria fazer um comparativo da prestação do valor financiado com o valor do aluguel, condomínio, imposto, etc. Mas eu ainda acho que é melhor aguardar um pouco, se não tiver o total, e comprar à vista, na época própria.
Mais uma entrevista em que apenas as opiniões de gente que lucra com a alta dos preços dos imóveis é ouvida:
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia1…
Pois é: irresponsável, segundo a notícia, sou eu, que denuncio a irracionalidade disso tudo. Vamos em frente…
E veja quem encomendou o estudo…
SECOVI !!!
De nada adianta…
Pois é Fábio….hoje pesquisando o site wimoveis.com.br, verifiquei que alguns apartamentos de altíssimo padrão do noroeste estão sendo vendidos pelo m2 mais barato que no Guará II, aprox. 5.200 reais. Comprei o meu em Sobradinho na planta há um ano, torço para a queda dos preços….estou em dúvida se vendo com o lucro e aplico o montante em fundos imobiliários. Eu acho que tem muita gente ai que comprou no noroeste e está suando frio….
Realmente, o raciocínio do autor do artigo está completamente errado, diria mesmo irresponsável. Investir em imóveis é mais seguro que investir na bolsa, sem dúvida, mas daí a garantir rendimento futuro com base na valorização passada, vai uma grande distância. As facilidades do crédito abrem as portas a novos investidores que não tinham para pagar à vista, mas o ideal não é financiar 90% do imóvel, mas sim dar uma boa entrada e financiar apenas parte do imóvel, reduzindo o risco…
Fabio,
Acho muito responsável sua abordagem do tema, no entanto, você pecou na conclusão.
Ao falar sobre variáveis que poderiam impactar na concessão de crédito imobiliário você cita situações que podem afetar a economia como um todo e não, preferencialmente, um ou outro segmento.
Uma vez que a compra à vista, incontestavelmente, é a melhor opção, o que fazer quem não possui recursos próprios HOJE para comprar um imóvel? Deve poupar ou financiar? Respondendo essas perguntas creio que suas colocações terão um efeito prático maior.
Abs.
Marcelo,
Obrigado por seu comentário.
Já falei sobre algumas das questões que você propõe em outros artigos:
http://opequenoinvestidor.com.br/2010/06/vale-a-p… http://opequenoinvestidor.com.br/2010/05/quanto-c… http://opequenoinvestidor.com.br/2009/12/alugar-o…
Mas, de fato, ainda não falei sobre se é melhor comprar à vista ou financiar um imóvel. Excelente sugestão para um próximo artigo.
Obrigado!!