A capitalização da Petrobras e o pequeno investidor

23 de agosto de 201015 comentários

O investidor que acompanha o mercado de ações já deve ter percebido o quanto as da Petrobras têm sido um péssimo investimento nos últimos meses.  Enquanto o Ibovespa teve uma queda de 4.81% desde janeiro, as ações da petrolífera nacional despencaram 26,65% no mesmo período. Como as ações da companhia compõem um percentual bastante significativo do índice, é plausível supor que as ações da empresa são responsáveis pelo pífio desempenho das ações este ano. A explicação para isso passa pelo processo de capitalização da empresa, com a finalidade de obter recursos para explorar petróleo no pré-sal. [tweetbutton]Como esse processo pode afetar os pequenos investidores que aplicam seus recursos na companhia?

Primeiramente, é importante entender o que é a capitalização da empresa. A companhia, como o leitor sabe, tem interesse em explorar o petróleo da camada pré-sal, que exige custos altíssimos de exploração. Mas a não tem, sozinha, dinheiro suficiente para investir. Daí, restam duas saídas: ou ela pega um empréstimo gigantesco, que poderia levá-la a perder a confiança do mercado; ou ela emite novas ações, aumentando o número de ações no mercado. Nesse caso, a empresa ganharia dinheiro com a venda de ações.

No caso, o modelo de capitalização proposto pela empresa é o seguinte: vender uma parte de suas ações para o governo e uma parte para investidores. A  parte comprada pelo governo (União)  não será paga em dinheiro, mas em títulos da dívida pública. A Petrobras, então, utilizará os títulos adquiridos para trocar por direitos de exploração de até 5 bilhões de barris de petróleo do pré-sal, que são da União. O resultado dessa operação casada é que a empresa entra com as ações, e o governo, com o petróleo.

O restante das ações será ofertado no mercado, para que os investidores possam adquirir as novas ações. O acionista que decidir não comprar novas ações (subscrever é o termo), perderá participação na empresa.

O raciocínio é o seguinte: imagine uma empresa que tem um capital de R$ 1.000.000 e 10.000 ações. Nessa situação, cada ação teria um valor, relacionado ao capital da empresa, de R$ 100,00. Alguém que comprou 1.000 ações tem 10% da companhia, literalmente. Digamos que, dois anos depois, a companhia decidiu emitir mais 5000 ações por R$ 100,00. Seu capital social passará de R$ 1.000.000 para R$ 1.500.000,00. O investidor, contudo, perderá sua participação na empresa se decidir não comprar novas ações, na mesma proporção das que tinha antes: ele tinha 1/10 da companhia, mas agora suas 1.000 ações representam apenas 1/15 (6,67%) das ações da empresa.

Com isso, o investidor também perde proporcionalmente direito aos dividendos distribuídos pela empresa. Se a empresa distribuísse R$ 1.000.000,00 em , quando ele tinha 10% da empresa, receberia R$ 100.000,00; mas, agora, receberá apenas R$ 66.666,67. O lucro por ação também cai com a emissão de novas ações, porque o lucro líquido da companhia agora será repartido por novas ações da empresa. É por isso que os acionistas não gostam da emissão de ações – e isso, obviamente, já explica as quedas nas cotações da Petrobras.

Mas voltemos à capitalização.

Com a transação, a participação do governo na empresa poderá passar dos 40% (32% da União e 8% do BNDESpar) atuais. Ou seja, a proporção que os acionistas privados (os investidores) têm da empresa provavelmente diminuirá.

Pro governo, é um negócio espetacular: afinal, ele está “criando” dinheiro do nada. O governo, sozinho, não pode fazer nada com o petróleo que está no pré-sal. Ele depende que uma empresa o explore – no caso, a Petrobras. Mas a Petrobras precisa do dinheiro que vai entrar com a concessão da exploração dos barris de petróleo para tornar viável a exploração do pré-sal. A rigor, o custo para o governo é de zero. O país teve apenas “sorte” por ter petróleo no pré-sal, um recurso com o qual o governo nunca pode contar efetivamente. Mas, por outro lado, pode ganhar uma participação extraordinária na empresa – o que pode prejudicar os interesses dos acionistas minoritários.

A proporção do prejuízos dos acionistas e dos lucros do governo na operação, com o aumento de sua  participação na empresa, depende da solução de uma simples questão: o valor dos barris de petróleo que serão concedidos à empresa em troca das ações, na operação casada que expliquei antes. Quanto maior o preço dos barris, maior a participação que o governo ganhará na operação.

Para entender esse ponto, vamos pensar no seguinte: o governo vai pagar em barris de petróleo. São 5 bilhões de barris. Se cada barril for vendido por US$ 5,00, o governo poderá investir US$ 25 bilhões nas ações emitidas pela Petrobras. Se cada barril for vendido por US$ 10,00, o valor investido será 2 vezes superior – US$ 50 bilhões. Ou seja, quanto maior o preço do barril, mais ações o governo poderá comprar. E menos ações sobrarão para que os demais investidores da empresa adquiram – e sua participação na empresa será diluída. Para evitar a diluição, seria necessário comprar um número de ações suficiente para contrabalancear proporcionalmente o aumento de ações da empresa. E a situação é assombrosa: trata-se da maior emissão de capital já realizada nesse país. Como diz o presidente Lula, “nunca antes na história desse país houve uma emissão de capital tão gigantesca”. Muitos acionistas teriam dinheiro para evitar a diluição, o que abriria a oportunidade para que o governo adquirisse ainda mais ações.

O problema é que, até agora, não se definiu o valor dos barris de petróleo. Os acionistas esperam um valor próximo a US$ 5,00 o barril, ao passo que o governo tenta elevá-lo para pelo menos US$ 10,00. Acima de US$ 6,00, seria extremamente difícil que os acionistas conseguissem evitar a diluição. É por causa desse “cabo de guerra” que as ações da Petrobras estão despencando. O mercado entende indevida a intromissão do governo e considera injustificado o valor da emissão. No mínimo, a falta de transparência no processo e de respeito com os acionistas justifica a desconfiança do mercado quanto a empresas estatais. Não é a toa que o megainvestidor George Soros vendeu toda sua participação na Petrobras.

Você gostou do post? Então ajude o blog a crescer divulgando-o! Basta clicar em um dos botões abaixo:
Tags: , , , ,

Arquivado em: Ações
Tags:

Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

Comentários (15)

Trackback URL | Feed RSS do comentário

Sites que remetem a esse artigo

  1. Blogs da ADVFN Brasil » Os resultados da capitalização da Petrobras para o investidor | 22 de novembro de 2010
  1. Pedro Nora disse:

    Excelente o post! Esclareceu bastante a situação da Petrobrás.

  2. Muito bom este post

    Para mim, está sendo bastante dificil. Eu zerei a minha carteira em novembro de 2009, para recomeçar usando investimento gradual. A primeira tacada que dei, usando 13º salario, foi em ações da petrobras. Mesmo depois de varios meses, ela ainda faz parte de 40% da minha carteira, com uma rentabilidade média de -28% (Descontando corretagens).

    Abraço

  3. Jailson disse:

    Amigos investidores:
    Vocês lembram do preço das ações da Petrobras em 2008 quando foram anunciadas as primeiras descobertas do pré-sal? Lembro que PETR4 chegou a ser negociada acima de R$ 53,00. De lá para cá outras descobertas foram noticiadas na impresa e foi confirmado a viabilidade da exploração do pré-sal. O preço do petróleo está em torno dos U$ 80,00 e há espectativas de que continuará subindo nos próximos meses. Então porque as ações cairam tanto? Cairam pelos motivos que o Fábio explicou com brilhantismo neste artigo.

    Se os amigos permitirem vou deixar a minha modesta opinião: em 2008 havia um otimismo exagerado e agora há um pessismo infundado. É claro que no curto prazo as ações da Petro vão sofrer, mas isso será passageiro. Aposto que daqui a 2 anos ninguém mais vai comentar como foi a capitalização. Vocês podem imaginar qual será a receita da Petro daqui a 5 anos? Acredito no setor de petróleo e não penso em vender a minha posição em PETR3 antes de 2014. Penso que quem for paciente não se arrependerá e não precisa temer o que acontecerá com nossa querida petrolífera nas próximas semanas.
    Abraços a todos.

  4. Jailson

    Se eu não me engano, Graham fala em seu livro alguma coisa sobre pessimismo infundado. Muitas vezes ótimas empresas estavam a preço de pechincha. É aí que ele chegava comprando…

    Abraço

  5. Paulo Mauríci disse:

    Fabio, este é meu primeiro post, sempre estou lendo as matérias.

    Não sei se seria teoria da conspiração, mas baseado no comentário do Jeferson da Luz, poderíamos ver em toda esta movimentação, uma possível venda no futuro da Petrobras? Poderia o governo, estar preparando o caminho para possíveis compradores externos? Afinal, quem governa atualmente, continuará mais 4 anos.

    Abraço.

    • Fabio disse:

      Acho que não, Paulo! Inclusive, acredito que, no longo prazo, a Petrobras ainda vai continuar sendo uma empresa lucrativa. O problema é sua governança corporativa: ninguém sabe quando o governo vai bagunçar tudo de novo!

  6. Paulo Mauríci disse:

    Ok Fabio. É que neste país, tudo é possível.

    Abs,

  7. fabio disse:

    "O valor não foi divulgado oficialmente, mas observadores próximos dizem que ficou entre US$ 8,20 e US$ 8,30 – valor intermediário entre as avaliações das certificadoras contratadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e pela Petrobras." (http://economia.estadao.com.br/noticias/not_33060.htm)

  8. Robson disse:

    Exatamente: o problema da Petrobras é quem a está administrando. Se o Governo parar de atrapalhar, ela se recupera das quedas rapidamente. Nesses dois anos de quedas, ela apresentou receitas e lucros crescentes.
    Então, no longo prazo, essa situação deve se reverter numa expressiva valorização das ações também.

  9. fabio disse:

    ótimo artigo da folha: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/792760-com-j

  10. Jônatas disse:

    Olá Fábio,
    Excelente texto. Claro, objetivo e de fácil entendimento.
    Eu reforcei minha posição e comprei mais PETR4. Acredito que a partir de agora os preços voltam a subir.

    Abraço

  11. fabio disse:

    E então Fábio, algum comentário ao resultado da capitalização?

    O que fiquei chocado foi a declaração de Gabrielli que a Petrobras vai precisar de 60 bi USD nos próximos 5 anos!

    • Fábio Portela disse:

      Penso em escrever sobre o assunto daqui a alguns dias. Estou coletando alguns dados: se vocês puderem ajudar, agradeceria!!

  12. Freds disse:

    Vergonhoso o investidor ser roubado dessa maneira, e bastante doloroso. Um pequeno lucro que esperava ter nessa época de crise, transformou-se em grande prejuízo.

Comente

 Assine nossa newsletter 

Back to Top

SEO Powered By SEOPressor