A capitalização da Petrobras e o pequeno investidor
O investidor que acompanha o mercado de ações já deve ter percebido o quanto as ações da Petrobras têm sido um péssimo investimento nos últimos meses. Enquanto o Ibovespa teve uma queda de 4.81% desde janeiro, as ações da petrolífera nacional despencaram 26,65% no mesmo período. Como as ações da companhia compõem um percentual bastante significativo do índice, é plausível supor que as ações da empresa são responsáveis pelo pífio desempenho das ações este ano. A explicação para isso passa pelo processo de capitalização da empresa, com a finalidade de obter recursos para explorar petróleo no pré-sal. [tweetbutton]Como esse processo pode afetar os pequenos investidores que aplicam seus recursos na companhia?
Primeiramente, é importante entender o que é a capitalização da empresa. A companhia, como o leitor sabe, tem interesse em explorar o petróleo da camada pré-sal, que exige custos altíssimos de exploração. Mas a Petrobras não tem, sozinha, dinheiro suficiente para investir. Daí, restam duas saídas: ou ela pega um empréstimo gigantesco, que poderia levá-la a perder a confiança do mercado; ou ela emite novas ações, aumentando o número de ações no mercado. Nesse caso, a empresa ganharia dinheiro com a venda de ações.
No caso, o modelo de capitalização proposto pela empresa é o seguinte: vender uma parte de suas ações para o governo e uma parte para investidores. A parte comprada pelo governo (União) não será paga em dinheiro, mas em títulos da dívida pública. A Petrobras, então, utilizará os títulos adquiridos para trocar por direitos de exploração de até 5 bilhões de barris de petróleo do pré-sal, que são da União. O resultado dessa operação casada é que a empresa entra com as ações, e o governo, com o petróleo.
O restante das ações será ofertado no mercado, para que os investidores possam adquirir as novas ações. O acionista que decidir não comprar novas ações (subscrever é o termo), perderá participação na empresa.
O raciocínio é o seguinte: imagine uma empresa que tem um capital de R$ 1.000.000 e 10.000 ações. Nessa situação, cada ação teria um valor, relacionado ao capital da empresa, de R$ 100,00. Alguém que comprou 1.000 ações tem 10% da companhia, literalmente. Digamos que, dois anos depois, a companhia decidiu emitir mais 5000 ações por R$ 100,00. Seu capital social passará de R$ 1.000.000 para R$ 1.500.000,00. O investidor, contudo, perderá sua participação na empresa se decidir não comprar novas ações, na mesma proporção das que tinha antes: ele tinha 1/10 da companhia, mas agora suas 1.000 ações representam apenas 1/15 (6,67%) das ações da empresa.
Com isso, o investidor também perde proporcionalmente direito aos dividendos distribuídos pela empresa. Se a empresa distribuísse R$ 1.000.000,00 em dividendos, quando ele tinha 10% da empresa, receberia R$ 100.000,00; mas, agora, receberá apenas R$ 66.666,67. O lucro por ação também cai com a emissão de novas ações, porque o lucro líquido da companhia agora será repartido por novas ações da empresa. É por isso que os acionistas não gostam da emissão de ações – e isso, obviamente, já explica as quedas nas cotações da Petrobras.
Mas voltemos à capitalização.
Com a transação, a participação do governo na empresa poderá passar dos 40% (32% da União e 8% do BNDESpar) atuais. Ou seja, a proporção que os acionistas privados (os investidores) têm da empresa provavelmente diminuirá.
Pro governo, é um negócio espetacular: afinal, ele está “criando” dinheiro do nada. O governo, sozinho, não pode fazer nada com o petróleo que está no pré-sal. Ele depende que uma empresa o explore – no caso, a Petrobras. Mas a Petrobras precisa do dinheiro que vai entrar com a concessão da exploração dos barris de petróleo para tornar viável a exploração do pré-sal. A rigor, o custo para o governo é de zero. O país teve apenas “sorte” por ter petróleo no pré-sal, um recurso com o qual o governo nunca pode contar efetivamente. Mas, por outro lado, pode ganhar uma participação extraordinária na empresa – o que pode prejudicar os interesses dos acionistas minoritários.
A proporção do prejuízos dos acionistas e dos lucros do governo na operação, com o aumento de sua participação na empresa, depende da solução de uma simples questão: o valor dos barris de petróleo que serão concedidos à empresa em troca das ações, na operação casada que expliquei antes. Quanto maior o preço dos barris, maior a participação que o governo ganhará na operação.
Para entender esse ponto, vamos pensar no seguinte: o governo vai pagar em barris de petróleo. São 5 bilhões de barris. Se cada barril for vendido por US$ 5,00, o governo poderá investir US$ 25 bilhões nas ações emitidas pela Petrobras. Se cada barril for vendido por US$ 10,00, o valor investido será 2 vezes superior – US$ 50 bilhões. Ou seja, quanto maior o preço do barril, mais ações o governo poderá comprar. E menos ações sobrarão para que os demais investidores da empresa adquiram – e sua participação na empresa será diluída. Para evitar a diluição, seria necessário comprar um número de ações suficiente para contrabalancear proporcionalmente o aumento de ações da empresa. E a situação é assombrosa: trata-se da maior emissão de capital já realizada nesse país. Como diz o presidente Lula, “nunca antes na história desse país houve uma emissão de capital tão gigantesca”. Muitos acionistas teriam dinheiro para evitar a diluição, o que abriria a oportunidade para que o governo adquirisse ainda mais ações.
O problema é que, até agora, não se definiu o valor dos barris de petróleo. Os acionistas esperam um valor próximo a US$ 5,00 o barril, ao passo que o governo tenta elevá-lo para pelo menos US$ 10,00. Acima de US$ 6,00, seria extremamente difícil que os acionistas conseguissem evitar a diluição. É por causa desse “cabo de guerra” que as ações da Petrobras estão despencando. O mercado entende indevida a intromissão do governo e considera injustificado o valor da emissão. No mínimo, a falta de transparência no processo e de respeito com os acionistas justifica a desconfiança do mercado quanto a empresas estatais. Não é a toa que o megainvestidor George Soros vendeu toda sua participação na Petrobras.
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E então Fábio, algum comentário ao resultado da capitalização?
O que fiquei chocado foi a declaração de Gabrielli que a Petrobras vai precisar de 60 bi USD nos próximos 5 anos!
Penso em escrever sobre o assunto daqui a alguns dias. Estou coletando alguns dados: se vocês puderem ajudar, agradeceria!!
Vergonhoso o investidor ser roubado dessa maneira, e bastante doloroso. Um pequeno lucro que esperava ter nessa época de crise, transformou-se em grande prejuízo.