Uma ação que custa R$ 0,01 está barata?

9 de julho de 20106 comentários

Esses dias tive uma discussão interessante sobre a avaliação do preço de uma ação. Meu interlocutor falou sobre a vantagem de investir em ações baratas, que custem poucos centavos. Afinal, disse ele, “se você investir em uma ação que custe R$ 0,01, basta que a cotação passe para R$ 0,02″ que você terá ganho 100%. Fantástico, não é? Mas o raciocínio tem alguns problemas…

Avaliar uma ação por sua cotação é o primeiro passo para o investidor ter prejuízo. Uma empresa cuja ação esteja cotada a R$ 180,00 pode dar muito mais retorno como investimento do que uma ação cotada a R$ 0,08. É verdade que uma ação cotada a R$ 0,01 pode dar muito mais retorno no curto prazo: algumas pessoas podem ter comprado da Telebrás (a famosa TELB4) no início do ano passado a R$ 0,24 e vendido em fevereiro deste ano por R$ 2,99, quando muito se especulava sobre o novo plano de banda larga do governo federal. Um ganho fantástico de 1.145% em um ano (algo como 23% ao mês)!!

Mas tudo não passou de especulação: enquanto escrevo, a ação está cotada a R$ 1,38, menos de 50% da cotação de fevereiro. Para ter o ganho a que me referi, você deveria investir na empresa em um período muito específico, e bastante curto. Em outras palavras, dependeria muito da sorte para se sair bem sucedido: deveria comprar as ações no início da boataria sobre o projeto de banda larga e vendê-las no topo, o que é muito difícil de se acertar. Provavelmente o investidor (especulador) teria tido um lucro muito menor do que o que mencionei, pois não teria tido coragem (pois não é adivinho) de esperar um lucro maior. E, se tivesse tido essa coragem, provavelmente teria perdido o “timing” do topo e venderia a ação depois de a cotação já ter caído bastante.

Por outro lado, as ações da está cotada a R$ 180,00 e eu considero um excelente investimento. É claro que é muito mais difícil que sua cotação chegue rapidamente a R$ 360,00 do que a cotação de uma empresa que está a R$ 0,01 chegar a R$ 0,02. Uma pequena oscilação, uma oferta mais arriscada e a cotação dessa ação pode chegar a R$ 0,02. Ou não, se seus fundamentos forem péssimos. Mas, no longo prazo, confio muito mais na capacidade da de criar valor para o investidor de modo que suas ações estejam cotada a R$ 1.000,00 daqui a uns bons anos. Seus fundamentos dizem isso: lucros crescentes há uma década, com pouca dívida. A Telebrás? Lucro por Ação NEGATIVO: em outras palavras, deu prejuízo. Outra empresa com cotação “baratinha”, a J B Duarte (JBDU4), está cotada a R$ 0,09 no momento em que escrevo. Com um P/L de 56, seu é o mesmo de 10 anos atrás: R$ 0,00. É isso mesmo!! O lucro é tão pequeno que, quando refletido nas ações, é insignificante. É verdade que você poderia ter ganho muito dinheiro com ela: bastaria ter comprado as ações por R$ 0,04 no início de 2009 e vendido em fevereiro deste ano por R$ 0,15, com uma rentabilidade espetacular de 275% em um ano. Mas, novamente, em 2009 ninguém SABIA que esse salto espetacular ocorreria. Se você ficou sabendo da rentabilidade fantástica da empresa em fevereiro de 2010 e comprou as ações por causa disso, teria tido um prejuízo de 40% sobre o capital “apostado” (eu me recuso a chamar esse tipo de aplicação de investimento).

Comprar ações de uma empresa porque elas estão cotadas a poucos centavos é confiar muito em algo que não está sob o controle do investidor ou mesmo da empresa: na sorte. É preciso ter a sorte de que, depois de você ter comprado a ação, haja boatos que impulsionem os preços espetacularmente para cima. O que pode acontecer ou não. Não depende de você e, muitas vezes, não depende também da empresa.

O baixo preço da cotação de uma empresa não indica nada. Embora você deva comprar ações quando elas estão baratas, você não pode usar o mesmo critério que utilizaria para comprar sapatos. Com sapatos semelhantes, você pode usar o critério “preço” para escolher o mais barato. Com ações, você precisa estudar outros critérios: as relações P/L (preço por lucro), P/VPA (preço por valor patrimonial), o pagamento de dividendos, o crescimento do lucro e das vendas ao longo dos anos, o ROE, ROIC, etc. Mas, pelamordedeus, NÃO use a cotação da ação: ela não diz absolutamente nada sobre a administração da empresa ou sobre a possibilidade de ganhos.

A imensa disparidade entre as cotações das diversas empresas se dá pelo modo como as ações são emitidas. Imagine que uma empresa tenha um patrimônio de um milhão de reais e resolva emitir cem milhões de ações: nesse caso, cada ação valeria exatamente R$ 0,01. Mas a mesma empresa poderia emitir cinquenta mil ações, cotadas a R$ 20,00 cada. Quem investisse R$ 100,00 na empresa compraria R$ 2.000,00 ações na primeira hipótese, ou cinco na segunda. Mas o valor patrimonial seria o mesmo: R$ 100,00. No longo prazo, a rentabilidade desse investimento dependeria apenas  da capacidade  da empresa de produzir valor para o acionista, e não do valor da cotação.

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Comentários (6)

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  1. M. Trindade disse:

    "O espírito da especulação é anti-hierárquico, anárquico e irreverente. Adora a liberdade, detesta o convencionalismo e abomina as restrições. Embora seja profundamente mundana, não se fundamenta simplesmente na cobiça. A essência da especulação continua sendo um anseio utópico pela liberdade e pela igualdade que se contrapõem ao insosso materialismo racionalista do sistema econômico moderno, com suas inevitáveis desigualdades de riqueza".
    Edward Chancellor.

  2. Fabio disse:

    Fabio, conheci seu blog essa semana. O melhor blog que encontrei sobre investimentos. Muito bom mesmo! Só não entendo o motivo do acaoereacao.net não estar na sua lista de sites recomendados.

  3. Daniel Melo disse:

    Fábio,

    Mais um excelente post.

    Se me permite uma complementação, existe sempre o risco da empresa fazer um "inplit" ou agrupamento de 1000×1 e a cotação que está 0,01 passar a 10 e ter muito mais margem para cair.

  4. Fabio Deorges Gomes disse:

    Fábio,

    Muito bom o assunto.

    Você não acha utilizando o indicador TSR, com uma base histórica de 3 anos, teremos uma rentabilidade esperada muito próximo da realidade?

    Acredito que esse seja o melhor método de análise e de expectativa para a remuneração do valor investido pelo o investidor.

    Forte abraço,

    Fábio Gomes – Porto Alegre.

    • Fabio disse:

      Prefiro utilizar uma base histórica maior do que 3 anos, independentemente do indicador utilizado! Gosto de usar o lucro por ação porque normalmente é o que afeta mais o preço do ativo… mas o TSR é uma boa medida (muito boa) de avaliação do retorno para o acionista!

  5. Marcelo disse:

    Outro dado muito importante: na grande maioria dos casos, ações que custam alguns centavos tem uma liquidez péssima.

    Veja o exemplo da JBDU4, seria o caso de comprar a ação a 0,04 centavos, ve-la com entusiasmo subir até 0,15, e na hora de dar a ordem de venda descobrir que ela não é liquidada, e fica-se observando a ação cair novamente nos próximos dias até atingir 0,04 de novo.

    É fato, uma ação de centavos com baixissima liquidez leva DIAS para concluir uma ordem de venda. E nesse tempo ela devolve todo o lucro.

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