Ambev: uma empresa com vantagem competitiva

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Warren Buffett é muito conhecido por investir na Coca-Cola, uma empresa que, segundo ele mesmo, “poderia ser dirigida por um idiota” que ainda assim seria um bom investimento. A grande razão para a confiança de Buffett na empresa americana se deve ao poder de sua marca, que é universalmente conhecida – o que explica o alto e crescente consumo de seus produtos em todo o planeta. Mas o investidor brasileiro pode ficar tranquilo. É possível investir em uma empresa lucrativa, proprietária de grandes marcas de bebida em vários países do mundo: a AMBEV.

Detentora de marcas como Brahma, Antarctica, Bohemia e Skol no Brasil, além de Quilmes, Budweiser e Norteña (entre várias outras) por mais de 14 países nas três Américas, é inegável a vantagem competitiva da empresa com relação a suas competidoras. As marcas que detém estão entre as mais consumidas no país e nos países em que atua – a Quilmes, por exemplo, está entre as mais consumidas na Argentina, e a Budweiser é uma das marcas de cerveja mais conhecidas do planeta. A atuação agressiva da empresa indica o cumprimento das promesssas de internacionalização de sua diretoria quando a empresa foi instituída, em 1999, quando houve a fusão entre a Brahma e a Antarctica. Nem por isso a AMBEV deixou o mercado interno de lado:  a empresa detém 68,7% de participação no mercado brasileiro.

Os resultados da empresa nos últimos 8 anos foi fantástico: apesar de uma pequena retração nos anos de 2002 a 2005, desde então  houve crescimento expressivo no lucro por ação. Mas mesmo o período de 2002 a 2005 pode ser explicado: apesar da queda do lucro líquido (de R$ 1,510 bilhões em 2002 para R$ 957 milhões em 2005), a empresa expandiu em muito seus ativos (de R$ 5,049 bilhões em 2002 para R$ 30,348 bilhões em 2005 – em 2009, alcançou a marca de R$ 40 bilhões). Ou seja, um aumento de 692% nos ativos da empresa. Em outras palavras, a queda do lucro pode ser explicada por uma maciça política de investimentos. Como conseqüência, o patrimônio líquido da empresa (isto é, a diferença entre os ativos da empresa e o passivo exigível dela, ou suas dívidas) também teve um acréscimo fantástico como conseqüência desta política: aproximadamente 350% entre 2002 e 2009.

As vendas da empresa também tiveram aumento substantivo em todo o período considerado: apesar de pequenas quedas entre 2003 e 2004, a empresa teve um acréscimo de 665%, o que se refletiu em  um crescimento no lucro por ação de 294% entre 2002 e 2009, ou uma taxa anual de 21%. Nos últimos anos, a taxa de crescimento foi ainda mais acelerada: aproximadamente 30% ao ano -  e o lucro por ação da empresa cresceu quase 100% entre 2008 e 2009, ano em que houve o ápice de uma das piores crises das últimas décadas.

Isso indica a manutenção da política agressiva de crescimento, sem tanto endividamento. Para que o leitor tenha uma idéia, a dívida total na empresa em 2009 foi de R$ 7.280 milhões; como o lucro líquido da empresa no período foi de R$ 5.986,00 milhões. Em outras palavras, em pouco mais de um ano a empresa poderia pagar, somente com seu lucro líquido, todas as suas dívidas. Esse índice é fantástico.

Além disso, o mercado de atuação da empresa não exige grandes investimentos tecnológicos. Cerveja é cerveja; mesmo que mude a composição dos produtos ou a tecnologia de armazenamento, muito pouco pode ser modificado. No máximo, mais produtos são introduzidos no mercado, com o objetivo de alcançar mercados específicos, sem prejudicar os nichos anteriores. E as marcas da empresa já são tradicionais, com penetração e a confiança do público consumidor. Menos inovação no produto significa menos custos. Em um mercado que cresce em praticamente qualquer circunstância econômica e cujos preços normalmente acompanham a inflação, isso significa uma margem de lucro sobre as vendas excelente – no caso da AMBEV, de 65%.

A empresa também é muito eficiente, demonstrando que sua administração se preocupa com a produção de valor para seu acionista. À exceção dos anos de 2004 e 2005, pelos motivos já explicados, todos os demais anos apresentaram um ROE (Return on Equity, ou Retorno sobre o Patrimônio) superior a 14%, com uma média de 20% ao ano. Em 2009, o ROE foi de 30%. Considero que um índice ROE ótimo para o investidor é o superior a 15%, pois indica que a empresa tem grande capacidade de agregar valor a si mesma utilizando seus próprios recursos.

Com esse crescimento, não é de se surpreender que a empresa esteja com um índice P/L (Preço por Lucro) de 18,55. Parece caro, mas, como já disse antes, é importante levar em consideração a perspectiva de lucros da empresa. Mantido o ritmo de crescimento de 21,65% nos últimos 8 anos, em 2019 o Lucro por Ação será de R$ 68,57 – e o P/L, aos preços de hoje, seria de meros 2,63. Não se esqueça de que, ao comprar uma ação, você na verdade adquire o lucro da empresa no futuro: quanto maior o ritmo de crescimento da empresa, maior a margem de segurança de investir nela – e, portanto, mais cara você pode adquiri-la sem deixar de fazer um bom negócio.

Embora a taxa de crescimento de 21% seja alta para uma perspectiva de longo prazo, não é nem um pouco irracional esperar sua manutenção: afinal, nos últimos 5 anos o lucro por ação da empresa cresceu a um ritmo ainda maior do que esse, da ordem de 40% ao ano. Mas, sejamos moderados: a 21% ao ano, o lucro por ação da empresa será de R$ 68,57. Mantido o P/L médio de 19,78 que a empresa teve nos últimos 8 anos,  isso significaria que a cotação da empresa em 2019 seria de R$ 1.356,56. Como o preço de hoje é de R$ 180,00, isso significaria uma rentabilidade de 653%, ou 25% ao ano.

Sendo mais conservador, e supondo que a empresa crescesse à taxa mais modesta de 5,41% ao ano (ou 25% da taxa de rentabilidade inicialmente considerada), ainda assim seria um negócio lucrativo investir na empresa. Nessa hipótese, em 2019 o lucro por ação da empresa seria de R$ 16,36, contra os atuais R$ 9,66 – e a cotação da ação seria de aproximados R$ 323,75, caso o índice P/L fosse mantido. Uma rentabilidade de 6,74% ao ano, ou 79% ao ano. Mas eu não considerei os dividendos: considerada a projeção de 0,25 * 45,57% (que é a média de crescimento dos dividendos da empresa), a rentabilidade total esperada seria de 239,37%, ou 9,12%. Ou seja, fui super conservador, mas ainda assim o investidor teria uma rentabilidade muito próxima da renda fixa. Em condições normais, esse crescimento de 5% que considerei na hipótese conservadora mal acompanharia a inflação – ou seja, dificilmente a empresa cresceria a esse ritmo.

Por outro lado, se eu considerar os dividendos na rentabilidade total da empresa, caso ela mantivesse o ritmo de crescimento dos últimos 8 anos, o investidor teria uma rentabilidade total de 1.153,55%, ou 27,70% anualmente. Mantida essa premissa, quem investisse hoje aproximadamente R$ 10.000,00 na empresa, teria por volta de R$ 114.200,00 em 2020.

Negócio fantástico, não? Só não se esqueça de que o investimento em ações pressupõe o estudo e o acompanhamento da empresa: verifique sempre se as premissas se mantém ao longo dos anos e que o desempenho de qualquer investimento no passado não é garantia de rentabilidade futura. Também não se esqueça de que essa análise não implica uma sugestão ou recomendação de compra do ativo!

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4 Comentários

  1. leo disse:

    acredito que o fato de os lucros crescerem a uma taxa bem superior à das vendas é algo que nao se sustenta ao longo do tempo.. uma regressao à media das vendas é mais que esperada. mas mesmo assim isso daria em torno de 13 a 14% ao ano de crescimento, o que nao deixa de ser otimo, considerando as margens e os ROE’s fantasticos da empresa!

    • Fábio Portela disse:

      Leo,

      Acho até razoável que os lucros cresçam a taxa superior às vendas, no caso da Ambev. Quase todo ano seus produtos têm o preço reajustado a uma taxa superior da inflação (e as outras cervejarias acompanham), o que justificaria um descolamento.

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