Receber dividendos ou juros da renda fixa?

2 de junho de 201013 comentários

Em tempos de crise, muitos analistas financeiros indicam ações que pagam bons dividendos como um porto seguro, porque garante a remuneração do acionista mesmo com a queda das cotações. Outras pessoas, mais conservadoras, preferem investir na renda fixa para obter o pagamento dos juros. Mas qual dos dois é melhor para o investidor?

Boa parte das pessoas, para responder essa pergunta, compara o dividend yield das ações com os juros pagos pela renda fixa. Por exemplo, se a renda fixa estiver pagando 10% de juros e a empresa paga 7% de dividendos, seria preferível investir na renda fixa.

Mas as coisas não são simples assim. O dividend yield (DY) é apenas um dos indicadores a serem observados para prever a rentabilidade final dos dividendos em um período de tempo. O DY diz apenas o percentual da cotação da ação que a empresa devolveu em dividendos para o investidor em determinado ano. Por exemplo, se a cotação for de R$ 10,00 e a empresa pagar R$ 1,00 de dividendos por ação, o DY é de 10%.

Todavia, esse é apenas o início da conversa. Ao longo do tempo, boas empresas aumentam o valor pago em dividendos como uma conseqüência do crescimento de seus lucros. Mais lucros, mais dividendos. A conseqüência direta disso é que o lucro por ação (LPA) da empresa aumenta, mas como os dividendos também aumentam, o DY pode ficar permanente.

Imagine uma empresa que tenha um LPA de R$ 1,00 e pague R$ 0,30 de dividendos, com uma cotação de R$ 10,00. O DY dessa empresa é de 3%. Se o LPA aumentar para R$ 2,00, ela passar a pagar R$ 0,60 centavos por ação em dividendos, e sua cotação passar para R$ 20,00, o DY permaneceu em 3%, mas ela DOBROU o montante que paga de dividendos.

E a renda fixa, como funciona? Se você investir em um fundo de renda fixa que pague 10% ao ano e reinvista os juros pagos, garantindo a acumulação de juros compostos, você terá uma rentabilidade anual de 10%, mas sem a aceleração dos ganhos que o aumento dos lucros da empresa proporciona à rentabilidade dos dividendos.

Vejamos como isso acontece: suponha que um investidor aplique R$ 10.000,00 por 30 anos na renda fixa, com uma taxa de retorno de 10%. A evolução de seu investimento seria a seguinte:

wpid-Imagem2-2010-06-2-11-15.png

Como se pode observar na tabela, em 35 anos os R$ 10.000,00, a uma taxa de juros compostos de 10% ao ano, se tornariam R$ 255.476,70. Desconsidero a inflação porque o propósito do exemplo é meramente elucidar as diferenças entre a renda fixa e os dividendos. Mas o leitor pode observar que, no último ano, só de juros, ele receberia R$ 25.547,67. Muito bom, não é?

Mas vamos ver o que aconteceria se o mesmo capital tivesse sido aplicado em uma ação que paga 50% de seus lucros para os investidores na forma de dividendos e tem uma taxa de crescimento do seu lucro de 10% ao ano: ou seja, a cada ano, seu lucro, em média, é 10% superior ao do ano anterior. São suposições bastante factíveis, e há várias empresas no mercado que satisfazem esses requisitos. Suponhamos, ainda, que a cotação da ação é 10 vezes superior ao lucro por ação da empresa (P/L = 10), para facilitar os cálculos. Como ocorreria a evolução patrimonial? Vejamos na tabela a seguir:

wpid-Imagem3-2010-06-2-11-15.png

Como o leitor pode observar, há duas colunas que dizem respeito à evolução patrimonial: a primeira coluna (Capital) leva em consideração apenas a rentabilidade que o investidor teve com o pagamento dos dividendos. Se ele deixasse os R$ 10.000,00 investidos e apenas recolhesse os dividendos, ele teria acumulado em 35 anos R$ 439.712,26, bastante superior aos R$ 255.476,00 da renda fixa. E isso com um DY bastante baixo, de 4,76%! Isso aconteceu porque a empresa  produz, a cada ano, 10% a mais de lucro do que no ano anterior. Isso, ao longo dos anos, a transforma numa máquina de dinheiro!

Se o investidor reaplicasse o dinheiro dos dividendos na compra de ações da companhia, a situação seria ainda melhor. Com os R$ 10.000,00, ele compraria 1000 ações da empresa a R$ 10,00 cada, com um lucro por ação de R$ 1,00. No primeiro ano, ele receberia 50 centavos por ação em dividendos (R$ 500,00 no total) e compraria mais 50 ações da empresa. Repetindo esse procedimento ao longo de 35 anos, e considerando que as ações são sempre cotadas na média de 10 vezes o lucro produzido por ação, no final do período ele teria acumulado 5.253 ações, que valeriam, cada, R$ 255,48. E seu patrimônio total seria de pouco mais de R$ 1.400.000,00, que renderiam em dividendos mais de R$ 65.000,00 naquele ano.

Muito melhor, não é?

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Comentários (13)

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  1. Bastos disse:

    Fabio,

    quais empresas possuem este nivel de 5% aa de dividendos ou jcp constantes por varios anos? poderias citar algumas?

    alias, que site voce ve o historico de PL, ROE, VPA etc!?

    abracos,

    • Fabio disse:

      Caro Erico,

      Não gosto de indicar empresas específicas, mas você pode encontrá-las estudando o balanço de empresas. Quanto aos sites, gosto muito do INI, que disponibiliza uma ferramenta para os assinantes com os dados de balanços dos últimos 8 anos. Também gosto do Fundamentus, que tem muitos balanços das empresas (base de dados é superior à do INI, e é gratuito). Os sites são os seguintes: http://www.ini.org.br e http://www.fundamentus.com.br.

  2. Rodrigo Maia disse:

    Deixar uma parcela considerável em Renda Fixa nao seria bom para aproveitar futuras crises?

    Penso em RF apenas como proteção de capital.

    • Fabio disse:

      Com certeza, Rodrigo, deixar uma parcela em RF para investir em ações nos momentos de crise é uma boa estratégia. O objetivo do artigo era apenas comparar a rentabilidade de dividendos com a renda fixa.

  3. fabio disse:

    Fabio, você entende algo de debêntures? Estou começando a analisar o mercado secundário, e está um pouco difícil decifrar as tabelas da Andima.

    • Fabio Portela disse:

      Fabio,

      O pior é que não entendo muito. Mas é um mercado sobre o qual pretendo estudar mais no futuro!

  4. Robson disse:

    Fábio. Quero ser um investidor, e ainda não entendo muito sobre investimentos. Gostaria de saber qual é o melhor investimento a longo prazo. Ações, renda fixa ou tesouro direto?

  5. Daniel C Faria disse:

    Cite algumas empresas que vc investe penssando na aposentadoria. Que gerem mais dividendos e tenham bons fundamentos.

    • Fábio Portela disse:

      Já citei várias vezes: Coelce, Vale, Itaú, Banrisul… mas são empresas em que EU investi depois de estudá-las um bocado. Não recomendo que ninguém siga minhas opções irrefletidamente.

  6. Pedro disse:

    Isso pois você tá considerando que há um crescimento da empresa de 10% por ano, de forma linear e estável. Mas eu não vejo isso acontecer na prática. Por exemplo, uma ação que hoje custa R$10,00, em 35 anos, custaria R$281,02. Se você pegar as ações de maior nome no Brasil, verá que elas só cairam… Algumas, como da Petrobras, Vale, Eletrobrás, entre outras, chegaram a custar 10 vezes menos do que era antes, em uns 10-20 anos… Ou seja, você investe 300 mil e fica com 30 mil ¬¬’. Como você explica isso? Tem alguma relação com o plano do cruzeiro e a época da inflação?

    Há 5 anos atrás, por exemplo, a PETR4 custava 43 reais e hoje 20. A Vale5 era 50 reais e hoje 40. Onde está esse crescimento de 10% ao ano?

    • Fábio Portela disse:

      Pedro,

      O crescimento das empresas não é linear, mas você pode considerá-lo linear a partir de uma MÉDIA de crescimento. Na prática, ela vai crescer 30% num ano, no outro se retrair 15%, depois cresce 25%, retrai 10%, depois cresce 10%…. e por aí vai. Nesses exemplos mesmo de Petrobras e Vale: pegue quem investiu nelas em 1995, 1996…

  7. Pedro disse:

    Por exemplo, se o dividendo será pago no dia 1 de julho, a pessoa compra a ação no dia 30 de junho e vende no dia 2 de julho, ela ganha o dividendo? Existe algum critério de pagamento de dividendo? Qual?

    • Fábio Portela disse:

      Pedro,
      Existem as datas “com” e “ex” dividendos. Na data “com”, significa que quem detinha ações da empresa até aquela data tem direito aos dividendos. Na data “ex”, significa que quem comprou naquela data, já não tem direito. Mas essas datas não são o dia do pagamento; são as datas em que alguém adquire o direito de receber os dividendos. Mas não tente comprar ações no dia “com” dividendos para vendê-las no dia seguinte. O valor dos dividendos é descontado do valor da ação… e pode ocorrer de você acabar vendendo a ação por um preço que não vale a pena.

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