P/L bom é P/L futuro…
O índice P/L (preço por lucro) é muito utilizado pelos investidores para estimar se a cotação das ações das empresas está barata ou cara. Normalmente, ele é calculado a partir do lucro da empresa no ano: o investidor utiliza a cotação atual da ação e a divide pelo lucro da empresa nos últimos 4 trimestres. O resultado é o índice P/L. Mas será que esse procedimento é realmente adequado para efetuar o cálculo?
O índice P/L normalmente é utilizado para verificar se a rentabilildade da empresa, como investimento, é adequada. Pode ser usado, inclusive, para comparar se é melhor investir em ações do que na renda fixa. Caso a rentabilidade de um fundo de renda fixa seja de 10% anualmente, por exemplo, basta verificar o percentual do lucro por ação da empresa em relação a sua cotação: é o índice “L/P”: se a empresa lucrar R$ 0,15 e suas ações custarem R$ 1,00, isso significa que o índice P/L é de 6,67 – e o L/P é de 0,15, ou 15%. Comparando com o fundo de renda fixa do exemplo, seria melhor investir nas ações, já que 15% é maior que os 10% da renda fixa. Se o índice P/L (e conseqüentemente o L/P) for adequado, as ações darão melhor retorno que a renda fixa. Quanto menor o P/L, maior o L/P e a rentabilidade; quanto maior o P/L, menor a rentabilidade.
Essa é a teoria. Mas esse raciocínio é só o começo da conversa. Quando calculamos o índice P/L dessa maneira, estamos investindo no passado da companhia. Mas o que nos dará retorno, no longo prazo, não é seu passado, mas o seu FUTURO! Não adiantaria nada investir numa empresa cujo índice P/L é baixo, mas seus lucros são decrescentes. Se as cotações também caírem, num determinado período de tempo o índice P/L será sempre baixo, mas será um péssimo investimento.
Por outro lado, um índice P/L alto não indica que a empresa seja necessariamente um investimento ruim. Vejamos a seguinte situação, em que a cotação varia aleatoriamente:
Como o leitor pode observar, no primeiro ano o P/L era de 15,00, o que significa que o L/P era de apenas 0,067, ou 6,67%. Se compararmos o investimento com a Selic, que está em 10.25%, investir na empresa pareceria um péssimo investimento. Em 15 anos, contudo, o investimento em renda fixa transformaria R$ 15,00 (a cotação da ação no primeiro ano) em R$ 58,80. Por outro lado, o investimento na ação da empresa transformaria os R$ 15,00 em R$ 100,00, um valor bastante superior.
“Mas o que aconteceu, Fábio? Não era pra ter acontecido o contrário, já que o P/L do momento de compra era bastante alto, dando expectativa de rentabilidade inferior à da Selic?”
Com certeza. Com os lucros do primeiro ano, seria esperado que o investimento desse rentabilidade inferior à renda fixa. Mas a grande questão é que a empresa teve lucros crescentes: a cada ano, seu lucro por ação é superior ao do ano anterior a uma taxa de 20%. Com lucros crescentes, o índice P/L decresce continuamente, de modo que, com uma cotação bastante superior no 15º ano, ele é bastante inferior ao do primeiro ano.
Podemos pensar sobre essa questão em outros termos: ao comprar ações, o investidor adquire os lucros futuros da empresa. Se ele usa o P/L utilizando como base os lucros de hoje, a conta estará errada! Com efeito, os lucros passados não fazem parte da conta, porque a cotação das ações não os leva em consideração. O lucro passado não mais dará retorno – ele já deu o retorno que deveria dar para os investidores que compraram a ação no passado.
Portanto, ao calcular o índice P/L, o investidor deve tomar o lucro futuro da empresa como parâmetro. No caso do exemplo, se ele projetasse o lucro da empresa para o ano 15 e o fizesse corretamente, teria a seguinte equação: a cotação da empresa é de R$ 15,00 no ano 1 (ano da compra), mas o lucro projetado para o ano 15 é de R$ 12,84. Nessas condições, o investidor compraria um lucro de R$ 12,84 do ano 15 por R$ 15,00 hoje: o P/L, nessas condições, é de 1.16 – e a rentabilidade (P/L), de 85%. Muito superior aos 10,25% da Selic…
É claro que há incerteza e imprecisão no cálculo de projeções dos lucros futuros. Mas existem empresas cujo histórico de crescimento é tão bom que é possível estimar com razoável segurança como os lucros futuros se portarão. E o investidor também pode estimar cenários diferentes, com um crescimento do lucro por ação inferior ao da sua média histórica, a fim de ter uma margem de segurança. Mas, usando o lucro futuro (e não o passado) para estimar o P/L, já tem uma base bastante superior para determinar a rentabilidade de seu investimento.
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