Desespero? Pânico? Ou oportunidade?

11 de maio de 20107 comentários

Os últimos dias foram de desespero no mercado de ações. Sem contar o pânico temporário de 5 de maio, que quase levou a bolsa de Nova Iorque a uma queda próxima a 10% em um dia (e o índice Ibovespa a uma queda próxima de 6%) por causa de uma ordem de venda supostamente errada, a preocupação dos mercados internacionais com a dívida da Grécia e o vislumbre de que algo parecido pode acontecer com Espanha e Portugal levou as bolsas a quedas bastante acentuadas. Mas como deve se comportar o pequeno investidor?

Antes de mais nada, CALMA! Se você ficou assustado e já quer vender suas ações, pare, respire fundo, e pense: se você comprou ações de empresas ridículas, venda mesmo. Mas não venda porque a crise chegou. Admita que você só queria especular e faturar uns trocados com day trade e se deu mal. Agora, se você comprou ações de empresas sólidas, fique calmo e reflita nos seus objetivos ao comprar a ação: se você as comprou para se tornar sócio do negócio delas e lucrar com isso ao longo de sua vida, anime-se! Pode estar surgindo uma oportunidade de comprar mais ações de sua empresa, a preços mais baixos.

“Fábio, você está dizendo que essa crise vai passar logo?” Não, eu não tenho bola de cristal e não tenho a menor ideia de onde isso tudo vai parar. Na verdade, penso que essa nem é uma nova crise, mas apenas mais uma etapa de uma longa crise que começou entre 2000-2002, quando os EUA resolveram baixar os juros a níveis insustentáveis e facilitando o endividamento de pessoas — e de países. E o pior de tudo é que pessoas e países se endividaram, por muito tempo, para fazer besteira: CONSUMIR. Quando um indivíduo se endivida para consumir é burrice: quando um país inteiro se endivida para consumir quinquilharias, é estupidez. E um dia a conta chega.

A bolha do mercado imobiliário americano aconteceu, entre outras razões, por causa disso: finaciamento barato, juros baixos, e as pessoas iam comprando imóveis bem mais barato do que seus pais jamais poderiam ter feito no passado. Pessoas sem crédito compravam casas e as hipotecavam pra gastar o dinheiro. Enquanto os preços iam subindo, tudo bem: mas a conta da hipoteca chegou um dia. A Grécia tem um endividamento absurdo porque o governo resolveu dar uma de paizão e, entre outras coisas, resolveu pagar aposentadorias para pessoas com uma idade muito inferior à dos demais países da União Européia. Os gastos com o funcionalismo público e outras torneiras que foram abertas na dívida pública se tornaram insustentáveis e, agora, os alemães, que se aposentam bem mais velhos que os gregos, têm que pagar a conta.

O resultado da história é que quem poupou no passado agora tem que pagar a conta de quem se endividou. E não se engane: isso tudo pode ficar ainda pior. O noticiário fala de Grécia, Portugal, Irlanda, Islândia e Espanha. Mas a dívida pública de países muito, muito mais importantes também está crescendo demais. Os EUA, por exemplo, têm se endividado de maneira crescente por muito tempo – agora, a dívida pública americana já beira quase 90% do PIB anual de lá. Outros países com problemas parecidos são a Inglaterra e o Japão. Quem diz isso não sou eu, mas o economista Nouriel Roubini e, como eu já alertei há alguns meses, Bill Gross.

E não acredite no governo Lula: o Brasil tem que cuidar muito bem do déficit público, ou então iremos pelo mesmo caminho. Por mais que ele alardeie que Brasil é credor do FMI, o governo ainda deve muito para outros países e para o setor privado. “Pô, Fábio, Lula disse que acabou com a dívida externa!”. É só questão de semântica: antes, o Brasil devia mais do que era credor. Digamos, era credor de $ 50,00, mas devia $ 70,00. Hoje, deve $ 40,00, mas é credor de $ 50,00. Isso significa que a dívida acabou? Se você acha que sim, então responda: você diria que não tem dívidas se devesse R$ 1.000,00, mas ganhasse um salário de R$ 7.000,00? Só se for louco!

Mas o governo não é o único malvado da história: a oposição também tem atuado de maneira absolutamente irresponsável. Os gastos podem aumentar ainda mais se for realmente aprovado o fim do fator previdenciário (bola fora do PSDB) e reajuste acima do proposto pelo governo às aposentadorias. “Pô, Fábio, a oposição só quer dar 0.7% a mais que o governo! Vai dizer que a culpa é dos velhinhos?”. Não: a culpa não é dos velhinhos. Mas um aumento superior ao que se pode pagar pode levar o PRÓXIMO governo a dar um reajuste inferior à inflação. Não se engane: todo esse debate é jogada de marketing odiosa para que a opinião pública se volte ou contra o próximo governo, ou contra o governo Lula. A oposição propôs o fim do fator previdenciário e aumento superior ao proposto pelo governo aos aposentados para que o governo vete as mudanças – se ele vetar, perde ponto com a população. Mas, se o tiro sair pela culatra e o governo aprovar as mudanças, quem vai perder pontos vai ser o próximo governo (Dilma, Serra, ou quem quer que seja), que vai ser forçado a dar reajustes inferiores e arrumar malabarismos para o sistema previdenciário.

Desculpem, comecei falando de queda nas bolsas, passeei pela Grécia e terminei no Brasil. Tudo isso pra dizer o seguinte: você tem ações de boas empresas? Se seu objetivo é formar patrimônio para o longo prazo, esqueça tudo o que falei. Essa crise vai ser resolvida de uma maneira ou de outra. Mas as pessoas vão continuar a usar produtos de beleza, energia elétrica, comer , beber, se vestir e construir casas. Toda essa crise e a crise de 2008 e você não deixou de fazer nada do que fazia antes: a economia vai crescer novamente. Não sei quando, e pode demorar. Mas pode ser que, com eventuais quedas pelos eventos cataclísmicos, o período compreendido entre 2008 e os anos de crescimento pífio gerado pelo déficit público sejam grandes anos para se comprar ações de boas empresas. Quando tudo voltar à normalidade (sei lá quando), quem confiou no futuro deverá ser bem recompensado.

“Pô, Fábio, eu li num fórum no Orkut que o iBovespa vai cair a 17.000 pontos! E você tá dizendo pra eu ficar tranquilo?” Eu não sei o que vai acontecer: poderia muito bem vender minhas ações e esperar o iBovespa cair a 17.000 pontos. E se isso não acontecer? O maior risco é o da incerteza: aos poucos, vou montando preço médio em minha carteira de ações. Se a bolsa cair para 17.000 pontos, o preço de minha carteira decerto se reduzirá muito. E será uma oportunidade de ouro para comprar ações a preços ridículos. Quando tudo se recuperar (e vai, acredite), serei recompensado.

“Fábio, você é um capitalista desumano, só quer lucrar com a desgraça alheia!” Não, o investidor não é desumano: ele só pode contar com as decisões que pode tomar para si. Se outra pessoa quer vender ações a preços ridículos, ele se aproveita disso. Não é ser desumano, é ser racional.

E, acreditem: se todos fôssemos racionais (principalmente os políticos), dificilmente o mundo estaria passando pelos problemas por que passa. Os países e as pessoas não se endividariam para consumir tralhas, mas para produzir e gerar mais riqueza. Infelizmente, tudo o que nāo tem acontecido…

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Comentários (7)

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  1. Bear market: como enfrentar a crise | 9 de agosto de 2011
  1. EDUARDO disse:

    Oportunidade!! O mercado de ações vive de crises e de notícias e fatos. Conforme cada país tem seu futuro ou presente relacionado com a sua Economia, as ações sobem e descem. Quem vendeu na alta (prox. aos 70 mil pts IBOVESPA) e está comprando agora já fez um bom $$$.

    • Fabio disse:

      Concordo com sua opinião, Eduardo. Acho que, no longo prazo, essa vai ser uma oportunidade importante de investir em ações.

  2. Andre Franco disse:

    Fabio,

    Muito oportuno este post "Desespero? Pânico? Ou oportunidade?", pois a maioria dos novatos na bolsa de valores faz exatamente isso: compra nos momentos de euforia e vende ao sinal da primeira crise.

    Concordo com voce: se a bolsa cair para o nivel de 17.000 pontos, o investidor de longo prazo faz a festa; enquanto o resto vai ficar reclamando que a bolsa de valores e' um lugar para os tubaroes e capitalistas desumanos e sem coracao.

    So' mais uma coisa, nao sei porque todo mundo fica preocupado com o indice Bovespa ou Dow Jones. Esta gente toda investe no indice ou em um portfolio de acoes?

    O que esta' acontecendo nas suas empresas (microeconomia) e' muito mais importante do que aspectos macroeconomicos, principalmente, quado levamos em conta duas coisas: 1) as crisis tem comeco, meio, e fim (sao solucionaveis) e a maioria das historias que saem na midia sao estorias da carochinha (noticias que nascem, envelhecem, e morrem em menos de 24 horas).

    E' isso ai! AF.

  3. Andre Franco disse:

    Fabio,

    Muito oportuno este post “Desespero? Pânico? Ou oportunidade?”, pois a maioria dos novatos na bolsa de valores faz exatamente isso: compra nos momentos de euforia e vende ao sinal da primeira crise.

    Concordo com voce: se a bolsa cair para o nivel de 17.000 pontos, o investidor de longo prazo faz a festa; enquanto o resto vai ficar reclamando que a bolsa de valores e’ um lugar para os tubaroes e capitalistas desumanos e sem coracao.

    So’ mais uma coisa, nao sei porque todo mundo fica preocupado com o indice Bovespa ou Dow Jones. Esta gente toda investe no indice ou em um portfolio de acoes?

    O que esta’ acontecendo nas suas empresas (microeconomia) e’ muito mais importante do que aspectos macroeconomicos, principalmente, quando levamos em conta duas coisas: 1) as crisis tem comeco, meio, e fim (sao solucionaveis); 2) a maioria das historias que saem na midia sao estorias da carochinha (noticias que nascem, envelhecem, e morrem em menos de 24 horas).

    E’ isso ai! AF.

  4. Luiz Mota disse:

    Sou seu leitor assíduo e sei de seu conselho de não sair da bolsa na baixa, concordo com ele e sempre procuro aplicar.
    Mas no começo do ano recebi um dinheiro inesperado e como não precisava dele, investi 40 mil de forma igual em quatro fundos de ações.
    Hoje, dos 40 mil, só tenho 36.270.
    Só que surgiu uma oportunidade excelente para comprar um imóvel e preciso de 20 mil para completar o valor total que já tinha na poupança.
    E essa é a pergunta: de qual fundo eu resgato? Daquele com maior ou perda?
    Ou vale a pena fazer um empréstimo com uma taxa de 1,85%?

    Saudações e parabéns pelo site.

    Luiz Mota

    • Fabio disse:

      Prezado Luiz,

      Obrigado pelos elogios.
      Como não sou autorizado pela CVM, não posso prestar aconselhamento financeiro tão detalhado e concreto, nem dizer o que o sr. deve ou não fazer. Desculpe não poder ajudar mais.

      Atenciosamente,
      Fábio

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