Selic aumentando: o que muda para o investidor?
Como esperado pelo mercado desde o início do ano, o Copom decidiu finalmente elevar a taxa Selic, que é a taxa básica utilizada pela política monetária nacional. Não houve surpresa nenhuma na elevação da Selic de 8.75% para 9.5% ao ano: na verdade, a maioria dos economistas já esperava que isso acontecesse, tanto porque ela estava no menor patamar histórico quanto, principalmente, pelo fato de a inflação já estar avançando perigosamente no país. A expectativa geral do mercado é que a Selic aumente até pelo menos 11.75% ao final do ano. A elevação dos juros básicos da economia afeta de maneiras muito diferentes e sutis cada modalidade de investimento financeiro. Veja como ela pode afetar seus rendimentos.
Por que o governo elevou a taxa Selic? Como você deve saber, inflação é um negócio perigoso para todo mundo, e foi o principal entrave para o desenvolvimento econômico brasileiro até 1994, quando o Plano Real realmente mostrou-se o primeiro mecanismo eficaz para controlá-la. E um dos motivos pelos quais se tornou possível manter a inflação sob controle foi um instrumento clássico de política monetária, o ajuste das taxas de juros. Como isso acontece? Por que o aumento dos juros ajuda a controlar a inflação?
Segundo a teoria econômica, uma das causas mais relevantes da inflação é o crescimento da economia de maneira desordenada. Imagine a situação de uma economia aquecida que tem oferta excessiva de dinheiro em circulação. Digamos que, num ano de crescimento normal, haja $ 1.000.000,00 em circulação num país “X”. No ano seguinte, se a oferta de dinheiro crescer excessivamente, haverá mais dinheiro em circulação – digamos, $ 2.000.000,00. Se a oferta por produtos permanecer igual (ou próxima da do ano anterior) e não acompanhar o ritmo de crescimento da demanda, isso significa que os $ 2.000.000,00 poderão comprar a mesma quantidade de produtos que os $ 1.000.000,00 do primeiro ano. Ou seja, com mais demanda, os preços sobem até que se alcance um novo equilíbrio. Para evitar que isso aconteça, os governos manejam as taxas de juros, com o objetivo de tornar mais caro o dinheiro emitido. Quanto maiores as taxas de juros, mais caro obter dinheiro emprestado, o que leva à redução da disponibilidade de dinheiro no mercado. O efeito colateral disso é que a atividade produtiva também fica emperrada: com dinheiro mais caro, os empresários não podem tomar tanto dinheiro emprestado quanto seria possível a juros mais baixos e passam a investir menos na atividade produtiva.
“Tá bom, Fábio, eu não tô nem aí pra teoria econômica. Quero mesmo é saber como isso afeta meus investimentos”. Então vamos lá!
1 – Poupança
Se você ainda insiste em investir na poupança, mesmo depois de tudo o que eu já disse sobre essa modalidade de investimento, saiba que o aumento da taxa de juros a torna ainda menos atrativa. O principal motivo para alguém fugir da poupança é não pagar os impostos que se pagaria investindo em outros produtos de renda fixa. Mas, com o aumento das taxas de juros, a rentabilidade da renda fixa também sobe (e a da poupança não!!) e o peso dos impostos cai. Quanto maior a taxa de juros, menos atrativa a poupança. Só falo nisso por desencargo de consciência: espero que nenhum leitor do blog ainda acredite em poupança, pelo bem de seu futuro financeiro!
2 – Renda fixa
A maior parte dos produtos de renda fixa tem alguma relação com o rendimento da Selic. Se você investe em CDBs ou em Fundos DI, a taxa na Selic deve se reverter em um aumento de rentabilidade nos próximos meses.
Mas cuidado, se você investe em títulos do Tesouro Direto! Entenda bem as conseqüências do aumento da Selic para você. Se você investe em LFTs, fique tranquilo: a rentabilidade das LFTs acompanha as flutuações da Selic. Portanto, aumento da Selic significa aumento da rentabilidade das LFTs.
Se você investe em NTNs e LTNs, muito cuidado: como expliquei no último artigo, o aumento da Selic implica uma redução temporária na rentabilidade desses títulos, que podem apresentar rendimento negativo, como aconteceu nas últimas semanas – já em conseqüência da expectativa de elevação da Selic. Portanto, se você pretende vender algum desses títulos antes do vencimento, pode ter prejuízo! Mas, se você pretende vendê-lo no vencimento, não se preocupe, pois o governo honrará a taxa de juros combinada. Quem quer especular com títulos do Tesouro Direto, deve comprar títulos nos momentos em que a taxa de juros está mais alta, pois isso resultará em aumento de rentabilidade quando a Selic começar a cair. Mas quem os compra nos momentos de juros mais baixos, está sujeito a ter prejuízos no curto prazo.
3 – Ações
O aumento na taxa de juros normalmente tem um impacto negativo nas ações, por dois motivos. O primeiro é que ações e investimentos em renda fixa competem entre si: quando alguém investe dinheiro, tem que optar por alocá-lo em um determinado investimento. Quando escolhe um investimento, abre mão de outro. Quando a Selic sobe, a renda fixa torna-se mais atraente, pois é um investimento seguro e, com taxas de juros mais altas, também traz um retorno atraente. Com isso, os investidores podem preferir investir em renda fixa do que em investimentos mais voláteis, como as ações, o que leva os preços de mercado a caírem em decorrência desse movimento.
O segundo motivo decorre do fato de que um aumento na taxa de juros traz mais custos para as empresas, que passam a poder investir menos em sua atividade produtiva. Com menos investimentos, os lucros futuros se tornam menores — o que também traz impacto para a cotação das ações.
4 – Imóveis
Se você pretende adquirir um imóvel nos próximos meses, é melhor aproveitar enquanto a Selic ainda está relativamente baixa (mesmo com o aumento recente). As taxas de financiamento também são diretamente afetadas pelos movimentos na taxa de juros. Quanto maior a Selic, maiores essas taxas. Se você já financiou um imóvel, pode ficar razoavelmente tranquilo se o financiamento não adota taxas variáveis.
Mas uma elevação abrupta da Selic pode levar a outro efeito colateral: a redução do preço dos imóveis. Quanto maiores as taxas de juros, menos pessoas podem financiar um imóvel, levando à redução na demanda. Como todo mundo sabe, com menos demanda e mantida a oferta, os preços caem. Se você já tem um dinheiro guardado para comprar um imóvel à vista, pode se beneficiar desse movimento, caso a Selic suba muito nos próximos meses.
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