A popularidade da poupança e dos imóveis

13 de abril de 20102 comentários

Entre os investimentos mais populares dos brasileiros estão a poupança e o investimento em imóveis. Provavelmente seu pai, um tio ou um amigo “mais experiente” já aconselharam poupar e colocar o dinheiro na poupança ou acumular o suficiente para pagar a entrada de uma casa ou de um apartamento, a fim de realizar o sonho da “casa própria”. Algumas pessoas que já têm patrimônio considerável não largam a poupança de jeito nenhum e, apesar de já terem um ou dois imóveis, insistem em comprar mais um apartamento. Mas por que essas duas modalidades de investimento são tão populares?



Acredito que as duas principais razões para essa predileção dos brasileiros pela poupança e pelos imóveiswpid-bbli-2010-04-13-07-30.pngsão a falta de conhecimento dos investimentos à disposição no mercadoe um medo paralisante da volatilidade.

A maioria dos brasileiros – e aqui eu incluo pessoas bastante esclarecidas e educadas – simplesmente não tem conhecimento algum dos investimentos à sua disposição. Não conhecem as opções existentes e, quando sabe que elas existem, não sabem como elas funcionam. Sabem que a renda fixa (fundos e tesouro direito) normalmente rende mais do que a poupança, mas acham que ela é insegura, porque não veem ninguém comentando sobre ela. De fato, não há propaganda alguma na televisão sobre o tesouro direto, mas de vez em quando aparece uma propaganda na TVsobre a poupança. Alguns jornalistas ignorantes sobre investimentos ainda repetem o mantra: com a taxa de juros em queda, a poupança rende mais que a renda fixa. Mentira deslavada! Se o investidor tiver um mínimo de conhecimento de internet, é só digitar no google “tesouro direto” e procurar a rentabilidade desse investimento: a MAIORIA dos títulos rende muito mais do que a poupança, mesmo descontando-se o imposto de renda. O problema é que a imprensa só verifica a rentabilidade dos fundos de renda fixa dos bancos e dos CDBs que, realmente, rende muito menos do que os títulos do Tesouro Nacional.

“Ah, mas a poupança é garantida até R$ 60.000,00!” De fato, o Fundo Garantidor de Crédito garante a devolução do valor investidor até R$ 60.000,00, e os fundos de renda fixa não teriam essa garantia. Mas será que esse seguro é bom mesmo? Vamos lá: se você investiu R$ 30.000,00 na poupança no banco X, e ele faliu, você recebe os R$ 30.000,00 de volta. Mas, se você investiu R$ 90.000,00, vai receber R$ 60.000,00. E se você tiver investido R$ 1.000.000,00, vai receber R$ 60.000,00 também.

Por outro lado, apesar de não haver qualquer seguro, o Tesouro Direto é garantido pelo Governo Federal – e se ele não pagar os títulos, não é só você que vai perder dinheiro: os bancosinternacionais e outros países também, e isso pegaria muito mal para o Brasil no exterior. E, se você viveu entre as décadas de 1990 e 2000 no Brasil, sabe que nossos governos estão levando esses compromissos muito a sério: você realmente acha que o governo vai deixar essa imagem ser destruída de uma hora pra outra? Até que isso ocorra, certamente haverá muitos sinais antes de o governo declarar uma moratória. E o Tesouro Direto tem uma garantia contra a quebra da instituição financeira em que você investiu: se você investir no banco X e ele quebrar, você vai ter todo o seu dinheiro de volta, porque o banco foi só um intermediador – na verdade, seus títulos foram comprados do próprio Tesouro Nacional. Só se o Brasil falir ou deixar de pagar as suas dívidas é que você não ganha seu dinheirinho de volta. Um risco bastante aceitável, não é?

PS: Não vou contar pra ninguém que o primeiro investimento que o governo pensa em mudar as regras quando precisa é a poupança. Também não conto pra ninguém que o confisco do governo Collor foi do dinheiro da poupança, e não de outros investimentos…

“Tá bom, Fábio, você me convenceu a não investir na poupança. Rendimento ruim e não é tão seguro quanto parece. Mas e os imóveis?” Quanto aos imóveis, a história é parecida. Seu pai ou seu tio, que parecem ter uma vida financeira bacana, te dizem pra comprar imóveis. Afinal, imóvel tem tijolo, reboco, cimento, não vai cair de uma hora pra outra. Ninguém vai roubá-lo de você. Ele não vai se desvalorizar – e os corretores e as propagandasna tevê e em jornais patrocinados por construtoras dizem que imóvel só se valoriza! E pode acontecer qualquer crise que você sempre terá seu imóvel. Seu patrimônio está garantido para sempre! Bonita essa história… só que ela é uma mentira deslavada. Imóveis se desvalorizam sim: pode acontecer de a região em que ele está localizado se tornar menos atrativa, por exemplo, ou de a inflação no país se tornar tão alta que o valor do imóvel se mantém nominalmente, mas seu valor real cai ao longo dos anos. Isso aconteceu na década de 1980 com muitos imóveis, só que as pessoas não tinham qualquer base de comparação: afinal, todo mês a inflação era tão alta que era praticamente impossível avaliar o valor de qualquer bem.

Talvez tenha sido justamente a inflação alta que levou as pessoas a acharem que os imóveis eram seguros. Afinal, mesmo que eles tenham perdido seu valor (o que, por causa da inflação, era algo difícil de ser avaliado), você ainda tinha seu imóvel. O concreto estava lá, assim como o reboco e a tinta. Você não perdeu nada!!

O engraçado é que as pessoas não têm essa percepção quanto ao investimento em ações. Quando você compra uma ação, compra não um papel, mas uma verdadeira empresa: se torna dono de prédios, indústrias, computadores, marca e, principalmente, dos lucros da companhia. O concreto todo que você valoriza tanto continua lá! E se a ação cair, você continua dono de tudo aquilo! A empresa continua lá e, muitas vezes, valendo mais do que a cotação em bolsa dá a entender.

Por que essa diferença de pecepção? Talvez o motivo seja o fato de a cotação em bolsa ser tão facilmente disponível. Você acessa um site e já sabe, em segundos, a cotação da ação no dia. Com os imóveis, é mais complicado; ninguém compra uma casa e no dia seguinte entra na internet e vê se o valor dela já subiu (ou caiu), até porque não existe essa “bolsa” de imóveis (embora existam fundos imobiliários negociados em bolsa, eles se referem a uma porcentagem ínfima de todos os imóveis disponíveis no mercado). A maior parte das pessoas compra uma casa para passar vários anos com ela. Por que não fazem isso com as ações?

Talvez isso aconteça pelo medo da volatilidade. Tenho certeza absoluta de que as pessoas repensariam o investimento em imóveis se tivessem a sua disposição a possibilidade de consultar, em tempo real, o preço que o mercado está oferecendo pelo seu imóvel. Com certeza constatariam que o preço de imóveis também flutua ao longo do tempo para cima e para baixo, mesmo que com uma menor volatilidade.

Mas a volatilidade é algo a se temer? Não necessariamente, se você sabe o valor efetivo do bem que está adquirindo. Se você sabe que a sua empresa produz, consistentemente, um lucro por ação de R$ 2,00, e ela está cotada a R$ 8,00, e o preço dela cai para R$ 3,00 por desespero do mercado, você não vende as ações. Afinal, nessas condições, a relação entre o preço da empresa e o lucro dela é baixíssima, indicando que o seu preço é baratíssimo: você sabe que, ao invés de vender, deve comprar mais ações. Mas, se você não sabe o valor efetivo do bem que pretende comprar, até a compra de uma roupa pode ser arriscada – afinal, sempre é possível ir à loja ao lado e constatar que a mesma peça está sendo vendida pela metade do preço…

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Comentários (2)

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  1. Poupança disse:

    acho que vc esqueceu de mencionar que tesouro direto tem varias outras taxas como emolumentos, custódia que somadas chegam a 0,5% ao ano, mais IR que no primeiro ano rouba 22,5% Com tesouro direto vc não consegue nem 7% líquido ao ano. Conta a simplicidade da aplicação na poupança, liquidez e fundo garantidor, com TODA certeza tesouro direto esta LONGE de ser muito melhor do que poupança. SUGIRO AO ESCREVER UM POST DESTE MOSTRAR TODAS AS TAXAS PAGAS, não tem como defender uma tese de maneira tão simplória como vc fez…

    • Fabio disse:

      Prezada Poupança (poup@poup.com),

      Em primeiro lugar, gostaria que você tivesse comigo o respeito que tenho com todas as pessoas que comentam no site. Em segundo lugar, e respondendo sua pergunta, sua afirmação de que com o tesouro direto o investidor não conseguiria alcançar nem 7% líquido ao ano é equivocada. Mesmo que você invista em LTN com vencimento em janeiro de 2011, com rentabilidade anual de 10.94%, e pagasse o IR de 22,5%, com a taxa de administração de 0.5% (que é cobrada por boa parte das instituições que operam com tesouro direto) e os 0.4% cobrados pela CBLC, você teria uma rentabilidade líquida de 8,38%, bastante superior aos 7% que você mencionou. Se você investisse em NTN-F com vencimento em 2017, que está com rentabilidade bruta de 12,46% ao ano, teria no primeiro ano, com IR de 22,5%, uma rentabilidade líquida de 9,54%. E com o passar dos anos, quando o IR caísse para 15% ao ano, sua rentabilidade líquida seria de 10,47% ao ano. Resultados bastante superiores ao da poupança.

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