A bomba-relógio de Brunei

15 de abril de 2010Sem comentários

Alguns leitores devem ter visto o Globo Repórter na semana passada, onde se mostrou documentário sobre Brunei, um pequeno sultanato localizado na costa norte da ilha de Bornéu. É um paí pequeno que não deveria ser notado por nada, a não ser por duas coisas: a extrema riqueza do sultão, derivada da exploração do petróleo, que é o motor da economia local,  e a sua generosidade com o povo. O sultão dá de tudo para a população: comida, saúde, reforma as casas e paga praticamente todas as suas contas. O povo é extremamente grato pelo seu governante e parece feliz. Do jeito que o documentário deixou transparecer, o sultão dá um exemplo de como os governos deveriam tratar suas populações. Mas será mesmo?

A atitude do sultão está criando uma verdadeira bomba relógio para as gerações futuras. Brunei é um país atípico porque, apesar de pequeno, é proprietário de uma enorme fonte de petróleo. Em outras palavras, a natureza agraciou o sultanato com uma verdadeira dádiva, que merece ser aproveitada para criar condições de que, no futuro, o país possa se sustentar sem a necessidade do ouro negro. Mas não é isso o que está acontecendo: o sultão criou um verdadeiro Estado social que troca sua legitimidade por uma grande “bolsa tudo”. Ao invés de investir pesado em educação e na diversificação da economia, o sultão preferiu cooptar a população para aproveitar a grande farra do petróleo enquanto ela durar. Claro, é bem melhor do que a maioria das ditaduras faz. Fidel Castro, a pretexto de serum líder comunista, que para ser honesto deveria promover a distribuição equitativa de bens na população, tem uma enorme fortuna pessoal, ao passo que a população da ilha passa por enormes carências. Mas isso não significa dizer que o sultão seja mais benéfico para a economia da ilha.

No futuro, quando o petróleo acabar (e a questão é de tempo!), o sultanato se tornará um país pobre e provavelmente tão corrupto e autoritário quanto a ilha de Fidel ou qualquer outra ditadura. E a população não será qualificada e nem acostumada a não depender do governo para a satisfação de suas necessidades. Assim como um filho que vai ficando na casa dos pais sem trabalhar porque está acostumado a receber de tudo sem dar nada em troca e de repente é “expulso” e chamado a um choque de realidade, a população de Brunei será jogada na miséria. E, quando isso acontecer, provavelmente farão documentários sobre a pobreza do sultanato e a mesquinhez com que o sultão trata sua população, esquecendo-se de que o problema poderia ter sido solucionado no passado (o presente de hoje!).

Com certeza Brunei dará uma lição amarga para o mundo, se as coisas permanecerem como estão. O que move a economia não é apenas o dinheiro: dinheiro gasto não produz riqueza. O que produz riqueza é investimento em produção e prestação de serviços. É dinheiro que produz mais dinheiro. Quando você extrai e vende petróleo, o país fica mais pobre, porque na verdade suas reservas naturais estão diminuindo. Mas, se o dinheiro do petróleo for utilizado sabiamente, ele produzirá frutos por décadas ou séculos a fio. O sultanato é um país pequeno, mas nada impede que invista em uma pequena indústria de base exportadora que, no futuro, poderia gerar riqueza permanente e sustentar a população. Infelizmente, falta visão e sobra caridade ao sultão, o pai dos pobres de Brunei. O problema é que ele é como um pai gastador, que dá tudo de bom para os filhos até que um dia o dinheiro acaba, ele morre e os filhos, mimados, não têm qualificação alguma para viver por si sós.

Pobre rico Brunei…

Crédito da foto utilizada: chrisindarwin (flickr), sob a licença creative commons

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