Investidores conservadores dormem bem…

| 15 de janeiro de 2010 | 3 Comentários

No último artigo, fiz menção ao livro “Common stocks and uncommon profits“, de Philip Fisher. O livro, um clássico da literatura sobre investimentos em ações, é fantástico. Em especial, recomendo a segunda parte da obra, cujo título é o mesmo do presente artigo: investidores conservadores dormem bem.

Antes que o leitor mais arrojado deixe o artigo de lado, pensando que o livro recomenda o investimento na renda fixa ou na poupança, friso que o livro trata do investimento conservador em ações. Mas é possível investir apenas em ações e ser conservador ao mesmo tempo? A tese de Fisher é de que isso é possível sim… e ele não está falando de ações de excelentes pagadoras de dividendos, mas de empresas de crescimento.

Mas, para que o investimento em ações seja considerado conservador, Fisher considera que o investidor deve analisar quatro dimensões, nas quais a empresa deve ser aprovada:

(i) Superioridade em capacidade produtiva, de marketing, de pesquisa e financeira.

Para se qualificar como investimento conservador, a empresa deve ter baixo custo de produção, e ser capaz de financiar seu crescimento com seus próprios lucros, recorrendo o mínimo possível a empréstimos. Em outras palavras, sua margem de lucros deve ser alta o suficiente para permitir o financiamento de seu crescimento futuro.

Empresas com esse perfil são conservadoras, e a variação do lucro obtido por elas é muito menor do que empresas com margem de lucro menor. Fisher apresenta um exemplo interessantíssimo para mostrar isso.

Imagine duas empresas, A e B, de tamanho aproximadamente igual, que vendem seus produtos a 10 centavos cada. A companhia A tem um lucro de 4 centavos por venda, e a companhia B, 1 centavo. Ou seja, a margem de lucro da empresa A é maior do que a da empresa B. Imagine que os custos permanecem os mesmos, mas ocorra uma demanda temporária extra pelos produtos das empresas, elevando os preços do produto para 12 centavos a unidade. A empresa A aumentou seus lucros de 4 centavos por produto para 6 centavos, um aumento de 50%. Mas a empresa B aumentou seus lucros de 1 centavo para 3 centavos, um aumento de 300%!

Segundo Fisher, é por isso que, no curto prazo, empresas com baixa margem de lucro conseguem ter crescimentos fantásticos em seu lucro. Mas, na primeira crise que surgir, essas empresas podem passar por dificuldades: se o preço dos produtos diminuir para 8 centavos a unidade, elas terão prejuízo (-3 centavos por unidade), ao passo que a empresa A ainda teria lucro (1 centavo por unidade).

(ii) O fator pessoal – a qualidade das pessoas que dirigem, administram e trabalham na empresa.

De acordo com Fisher, essa segunda dimensão do investimento conservador é crucial. É importante que haja não apenas pessoas capazes, inteligentes e comprometidas com a empresa, mas que elas sejam capazes de trabalhar em harmonia entre si. Ou seja, a empresa depende de uma equipe coesa de empregados, e não apenas de um ou outro funcionário mais “brilhante”, que concentra tudo em suas mãos.

Uma boa empresa deve saber extrair o melhor de seus funcionários, e motivar os empregados mais jovens para que eles possam assumir funções de maior responsabilidade no futuro. Para Fisher, aproveitar bem os funcionários já contratados antes de buscar gente de outras empresas é um fator fundamental para o sucesso da empresa. Isso serve tanto para motivar os empregados, que sentem que a empresa os valoriza, quanto para mostrar a confiança que a empresa tem em seus quadros. Esse fator é tão importante que Fisher considera a contratação de um administrador externo um sinal grave de que algo não vai bem na empresa.

(iii) A vantagem competitiva da empresa

Outro aspecto fundamental para a escolha de empresas conservadoras é a verificação de sua vantagem competitiva em relação a outras empresas. Já falei bastante sobre isso em outro artigo, mas o ponto principal é que empresas com vantagens comparativas em relação a suas concorrentes fazem alguma coisa de diferente que traz um retorno maior: pode ser seus custos de produção, um produto inigualável, uma marca reconhecida facilmente em todo o mundo, a qualidade superior dos produtos – enfim, algum elemento capaz de trazer retornos consistentes no longo prazo.

(iv) O preço do investimento conservador

O último elemento envolve a análise do P/L da empresa (preço por lucro), indicador que mostra a relação entre a cotação da ação e o preço por ação daquela empresa. Um P/L muito alto significa que a empresa está mais cara; e um P/L mais baixo significa que a ação está cotada a um preço mais barato em relação aos lucros da empresa.

Mas isso não é tudo: é importante verificar a constância de crescimento de lucros, para saber se efetivamente a ação está cara ou barata. Fisher traz um exemplo: imagine uma empresa que um lucro por ação (LPA) de $ 1,00 e cada ação está cotada a $ 10,00. Isso significa que seu P/L é 10. Digamos que no ano seguinte a empresa teve um aumento fortíssimo em seu LPA, que passou para $1.4, e no ano posterior, para $ 1.82. Com esses aumentos fortíssimos nos lucros, o mercado passou a considerar a empresa uma boa companhia, elevando seus múltiplos – seu P/L, que antes era de 10, agora passou para 20. Com isso, a cotação da empresa passou para $ 36,40, um crescimento de 264% na cotação. E o melhor de tudo é que o crescimento foi justificado, e não causado por uma bolha especulativa ou algo do tipo.

O que é importante é verificar se o crescimento na cotação de uma empresa foi justificado: às vezes o mercado avalia equivocadamente o ativo, e uma bolha é construída e pode explodir no momento exato em que um investidor desavisado adquire o ativo. Um investidor conservador, portanto, deveria adquirir empresas que satisfazem os critérios mencionados em momentos de desespero do mercado – quando a qualidade das empresas é simplesmente subavaliada, e a ação é negociada a múltiplos muito baixos. Isso aconteceu recentemente, em 2008, e nada impede que aconteça novamente no futuro.

Recomendo muito a leitura completa do livro. Não é a toa que Warren Buffett disse que “Uma compreensão profunda do negócio, obtida pelo uso das técnicas de Phil(ip Fisher) capacita qualquer pessoa a se comprometer com investimentos inteligentes.”

E você, sofre de insônia ou dorme como um bebê?



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Categoria: Ações, Livros recomendados

Sobre o Autor ()

Fábio Portela é investidor desde 2006 e disponibiliza neste site seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, seja com sua experiência, seja por meio das leituras que fez ao longo dos anos. O autor é mestre em Direito Constitucional e em Filosofia pela UnB, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional na mesma instituição.

Comentários (3)

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  1. Gui Rodrigues disse:

    Fábio, muito obrigado pela resposta no post anterior! Eu aproveitei uma promoção no site da saraiva (papo de acionista, hehehe) e encomendei o "common stocks…", que eu já queria há tempos. Abraços!

  2. S Dog disse:

    Phillip Fisher, um monstro, um gênio da sua época, e que se mantém atual até os dias de hoje.

    Na minha opinião, o que mais afasta as pessoas do conservadorismo é a questão do longo prazo. É lógico que eu também gostaria de ficar rico aos 40 anos, mas esse é o preço do risco. E também o preço da insônia.

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