Investir em computadores ou em chicletes?

28 de outubro de 20095 comentários

Você preferiria investir em ações de uma empresa que fabrica computadores ou que produz chicletes?

Pense bem em sua resposta… ela pode fazer toda a diferença para seus investimentos.

À primeira vista, a resposta parece simples. Todo mundo usa computador hoje em dia, não é? E como a tecnologia evolui muito rápido, as pessoas e as empresas têm que comprar novos computadores a cada dois ou três anos. Melhor ainda, com a queda dos preços, mais pessoas têm a capacidade de adquirir novos computadores e, portanto, podem ser novos clientes em potencial.

Já os chicletes são tão baratinhos! Como alguém poderia ter lucro vendendo chicletes? Seria necessário vender um caminhão de chicletes para lucrar alguma coisa. Além disso, ninguém gosta de exibir os novos chicletes que comprou, ao contrário de algumas pessoas, que exibem o novo modelo de computador pessoal recentemente adquirido (ou seu carro novo!). Chiclete também é tão sem graça! Salvo uma ou outra novidade, que dura pouco tempo (como os chicletes que deixam a língua verde), os chicletes de hoje são iguais aos chicletes de quinze anos atrás.

Parece um contra-senso: afinal, todos os pontos que destaquei acima mostram as qualidades dos computadores e os defeitos dos chicletes. Mas, vamos refletir um pouco, a partir da perspectiva de um investidor.

Há 15 anos o computador da moda era um AT-486, que tinha 4 MB de memória RAM e 100 MB de disco rígido. Hoje essa configuração não consegue rodar nem o sistema operacional do computador: uma memória RAM aceitável é pelo menos 500 vezes maior (2 GB) e o disco rígido padrão é 1000 vezes maior (100 GB, e já é pouco para algumas pessoas).

Mas tudo isso vem a um custo.  Computadores têm alta tecnologia porque as empresas têm que investir em pesquisa: afinal, as pessoas trocam de computador a cada 3 anos porque há novos programas de computador que exigem mais capacidade de processamento. Mas as empresas que fabricam computadores não investem em pesquisa apenas porque querem: se elas pararem de inventar novos produtos, mais rápidos e mais eficientes, outra empresa as substituirão rapidamente. Se a Dell,  a Apple ou a Itautec pararem de investir em pesquisa, no fim do ano que vem elas estarão em maus lençóis.

Isso não acontece apenas com empresas de altíssima tecnologia. Fábricas de automóveis passam por problemas semelhantes. Há 15 anos era difícil achar um carro no Brasil com o famoso trio elétrico e ar condicionado. Air bag, então, era coisa de cinema. Hoje, um carro “básico” de muitas montadoras já vem com tudo isso.

Toda essa concorrência para o desenvolvimento de novos produtos é bom para o consumidor, mas não tão bom para o empresário, que é obrigado a aumentar seus custos para poder enfrentar a concorrência. E o empresário não pode passar esse aumento de custos diretamente para o preço de seus produtos, por causa da concorrência.

Nessas circunstâncias, só resta uma alternativa para o investidor: diminuir sua margem de lucros. É o que acontece no mercado de informática: é possível comprar computadores de ponta por preços inferiores aos que eles eram vendidos há 15 anos atrás. Ou seja, o lucro que poderia ser reinvestido na atividade produtiva ou distribuído na forma de dividendos é gasto com pesquisa para fabricar produtos que se tornarão obsoletos no ano seguinte…

E os chicletes? Bom, quem produz chicletes praticamente não tem que investir em pesquisa: toda a tecnologia de que ele precisa já está disponível. Basta efetuar a manutenção do maquinário e produzir. Além disso, chiclete é um produto que nunca saiu da moda e, por conta do baixo preço, ninguém tem que fazer as contas para saber se vai poder comprá-lo ou não. Isso tudo possibilita que o produtor de chicletes mantenha uma margem de lucro bastante razoável, garantindo bons lucros para o acionista.

Claro, isso não funciona assim apenas com chicletes. Pense em empresas como a Gillette: com praticamente um produto (lâminas de barbear),  sem muita pesquisa, ela praticamente domina seu mercado – tanto que as lâminas são conhecidas pela marca (gilete). Salvo uma ou outra modificação estrutural na lâmina, o produto é o mesmo há quase 100 anos. Pense também na Coca Cola, que vende o mesmo produto há décadas… essas empresas praticamente não gastam com pesquisa.

E então, já sabe a sua resposta? Você investiria em chicletes ou em computadores?

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Comentários (5)

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  1. agjnuyoe disse:

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  2. Richard disse:

    Não querendo desviar a atenção do seu ótimo artigo, mas realmente uma empresa de computadores necessita de muito investimento em pesquisa e desenvolvimento, mas a Dell não investe em pesquisa como outras empresas, aí está a grande inovação da Dell, ela somente monta computadores com peças de outros fabricantes que já investiram muito em pesquisa e desenvolvimento e no fim a Dell trabalha quase como o Burguer King com hambúgueres.

    Montadoras de veículos também gastam muito em desenvolvimento, mas nem por isso dá pra riscar uma montadora só devido a esta lógica, apesar que quando li me lembrei na hora da Coca-Cola e do tio Warren :)

  3. Renato disse:

    Entendo seu comentário. No entanto, empresas como Coca-Cola e Gilette precisam investir muito em marketing, ou seja, não investem tanto em tecnologia como as outras, mas investem mais em marketing para conseguir diferenciação e liderança.

    • Fábio Portela disse:

      Aprecio seu comentário, Renato. Mas as outras empresas também investem muito em Marketing… ou seja, investem pesado em tecnologia e também em propaganda para se diferenciarem perante seu público consumidos.

      Abraços,
      Fábio

  4. saimon disse:

    eu invisto em empresas do “pecado” hehehe…

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