A simplicidade como estratégia

23 de setembro de 20092 comentários

Esses dias li em um blog sobre um robô (um programa de computador) que negocia ações e moedas (Forex), comprando e vendendo ativos em uma velocidade fantástica a partir de estratégias pré-definidas, que definem padrões de entrada e de saída de cada investimento. De acordo com o autor do blog, em apenas um dia de simulações, o robô trader teve uma rentabilidade de mais de 40.000%. Com 500 reais investidos, é possível conseguir R$ 200.000,00. E isso em um dia!

Nada do que eu disser nesse blog vai garantir ao leitor uma rentabilidade como essa. Não sei programar um programa como esse, e não tenho dinheiro para comprá-lo para mim. Acredito que eu também não teria dinheiro para pagar a corretagem de todas as negociações necessárias para conseguir essa rentabilidade absurda. Provavelmente eu não teria capacidade também de pagar as dívidas oriundas do sistema caso algum dia ele entrasse em pane, seja por alguma falha interna do software, seja por causa de alguma reviravolta no mercado que torne inúteis as variáveis utilizadas por ele. Também tenho algumas dúvidas sobre a legalidade de sistemas como esse, principalmente se utilizado em larga escala: se muitas instituições gigantescas de investimento utilizarem esse sistema (e muitas já utilizam sistemas assim), a lógica do mercado financeiro, que já é muito descolada da realidade no curto prazo, pode literalmente virar de cabeça para baixo, arrastando quem depende do sistema (nós, seres humanos). A realização de milhões de negociações por minuto gera uma demanda própria, inflacionando os preços de maneira irreal – o que torna possível uma queda acentuada, se a coisa se descolar demais da realidade.

Não é por acaso que nos Estados Unidos já se começa a vislumbrar a regulação desse tipo de sistema , para evitar a manipulação desenfreada dos ativos. Afinal, em outubro de 1987 eles já tiveram um grande problema por causa, entre outras coisas, de sistemas do tipo: quando a queda vem, é em cascata… esse tipo de sistema pode vir a ser uma “bomba de destruição em massa financeira”, se algo der errado.

Mas parabenizo (sinceramente, e não é ironia!) quem tem a capacidade e a criatividade de criar sistemas como esses. Eu seria idiota se negasse o potencial de rentabilidade deles, mas continuo apegado a velhos princípios de investimento, com resultados comprovados e sem efeitos colaterais devastadores para a economia real.

E o maior desses princípios é justamente a simplicidade: nada de utilizar fórmulas complicadas, programas de computador e indicadores complicados demais. A simplicidade recomenda o uso de uma caneta, papel e cabeça – ou pros mais tecnófilos como eu, apenas o bom e velho Excel, pra deixar registradas as contas. Basta pegar o balanço das empresas e fazer o dever de casa: olhar o índice P/L, comparar o Lucro por Ação e seu crescimento ao longo dos anos, ver a dívida da empresa, o quanto ela paga de dividendos a cada ano. Esse retrato já permite dizer se uma empresa é boa ou ruim.

Na bolsa de valores, são negociados ativos de empresas que existem de verdade. As cotações, no longo prazo, refletem o valor real das empresas, se elas foram lucrativas ou não. Dividendos pagos pelas empresas são reais, e um sistema que negocia milhares de ações por segundo não tem a paciência necessária para usufruir deles. Afinal, quem ganha 40.000% em um dia não tem paciência de esperar um ano para ganhar uns 4% de uma empresa, não é? Mas já vimos como os dividendos podem montar fortunas sólidas em alguns anos.

Paciência é uma virtude. Eu mesmo preferiria ganhar a rentabilidade que espero obter em 20 anos em dois ou três dias, mas não consigo confiar nesses sistemas. Eles podem me transformar em milionário, mas também podem ter um potencial devastador sobre meu patrimônio. Já o sistema Buy and Hold, utilizado com disciplina e atenção, não irá me transformar em devedor, e muito provavelmente me dará a tranquilidade financeira de que preciso.

Não recomendo ao leitor utilizar o sistema que defendo ou utilizar análise técnica, ou mesmo os robot traders. Parto do princípio que o leitor é uma pessoa autônoma, racional e sabe ir atrás das informações necessárias para tomar uma decisão objetiva. Minha função é apenas apresentar mais algumas informações para que vocês tomem sua própria decisão. Desejo apenas, qualquer que seja o sistema adotado, o sucesso de todos os investidores.

Boa sorte nos investimentos!

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Comentários (2)

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  1. Jefferson Heber Schn disse:

    Olá Fabio,

    Li o seu artigo atentamente, mas pude observar que você é bem cético à respeito de Trades Automáticas.

    Eu opero exclusivamente no mercado Forex há alguns anos (4 para ser mais preciso) e há 3 anos, opero exclusivamente por meio de EA (Expert Advisors) ou seja, robôs. Estou bastante satisfeito com o resultado.

    Existem desenvolvedores que criam esses robos e acham que é a Holy Grail, mas não é bem assim…eles precisam de atenção especial.

    Eu por exemplo apenas deixo o robô rodar para identificar e abrir posições fora do horário de notícias de grande impacto. Dessa forma eu fico livre dos picos ou vales repentinos no mercado.

    Sugiro para aqueles que querem aprender um pouco mais sobre o mercado Forex, visitar o Forex Brazuca. Esse portal é totalmente em português e voltado exclusivamente ao mercado Forex.

    Aqui o link: http://www.forexbrazuca.com

    Gostaria de salientar que vários bancos de investimento usam robos para abrir trades automaticas, é o caso do UBS e Merril Lynch.

    Abraços.

  2. Leandro disse:

    Também não confio em robôs 100%.

    No Forex o trade simi-automático é o melhor que tem,mas utiliza o robo como uma ferramenta auxiliar.

    Quem dera eu soubesse um pouco de programação.Ja tentei aprender mas,no momento,não tenho como dedicar o tempo que o aprendizado da programação necessita.

    Eu acho o robô especialmente importante na gestão de riscos da sua operação.

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