Efeito "Greenback": o alerta de Warren Buffett

20 de agosto de 2009Sem comentários

Ontem, 19/08/09, Warren Buffett escreveu um artigo para o New York Times que acredito ser importantíssimo para o investidor: é ao mesmo tempo um alerta para os perigos ainda não enfrentados da crise, e uma mensagem otimista para o investidor no mercado de ações. Fugindo um pouco ao estilo do blog, traduzo o texto:

“Na natureza, cada ação tem conseqüências, um fenômeno chamado de efeito borboleta. Essas conseqüências não são necessariamente proporcionais. Por exemplo, ao dobrar as emissões de dióxido de carbono, nós enviamos para a atmosfera muito mais que o dobro de problemas subseqüentes para a sociedade. Consciente disso, o mundo apropriadamente se preocupa com o emissões que causam o efeito estufa.

O efeito borboleta também alcança o mundo financeiro. Aqui, os Estados Unidos estão lançando uma substância potencialmente danosa em nossa economia – emissão de dólares (greenback emissions).

Para ter certeza, estamos fazendo isso por uma razão que eu aplaudo calorosamente. No último outono, nosso sistema financeiro esteve à beira de um colapso que ameaçou se tornar uma depressão. A crise exigiu que nosso governo mostrasse sabedoria, coragem e decisão. Felizmente, o Federal Reserve e agentes econômicos importantes tanto do governo Bush quanto do governo Obama responderam habilidosamente quando necessário. Eles cometeram erros, é claro. Como poderia ser diferente quando pilares supostamente indestrutíveis de nossa estrutura econômica estavam caindo sobre eles? O derretimento, contudo, foi evitado, e uma injeção de dinheiro federal teve um papel essencial no processo.

A economia americana está fora da UTI e parece estar em um caminho devagar para a recuperação. Mas enormes doses de medicina monetária continuaram a ser administradas, e logo teremos que lidar com seus efeitos colaterais. Por agora, muitos de seus efeitos são invisíveis e podem permanecer latentes por muito tempo. Apesar disso, sua ameaça pode ser tão grande quanto a posta pela própria crise financeira.

Para compreender essa ameaça, precisamos olhar para onde estamos historicamente. Se deixarmos de lado os anos impactados pela guerra entre 1942 e 1946, o maior déficit anual dos Estados Unidos desde 1920 foi de 6 por cento do produto interno bruto. Nesse ano fiscal, contudo, o déficit vai aumentar para aproximadamente 13 por cento do PIB, mais que o dobro do record dos anos de paz. Em dólares, isso equivale a US$ 1.8 trilhões. Do ponto de vista fiscal, estamos em território desconhecido.

Em razão desse déficit gigantesco, a dívida líquida do país (isto é, a quantia possuída publicamente) está crescendo. Nesse ano fiscal, ela irá aumentar mais de um por cento por mês, escalando de 41 % para aproximadamente 56% do PIB. Outros países, como Japão e Itália, têm taxas muito maiores e ninguém pode saber o nível preciso da relação entre dívida líquida e PIB na qual os Estados Unidos perderão sua reputação de integridade financeira. Mais alguns anos como esse e saberemos.

Um aumento na dívida federal pode ser financiado de três maneiras: podemos pegar empréstimo de estrangeiros, empréstimo de nossos cidadãos ou, pegando um caminho indireto, imprimir dinheiro.Vamos olhar para as perspectivas de cada alternativa individualmente – e de maneira combinada.

O déficit contábil atual – dólares que devemos ao mundo e que agora precisam ser investidos – será de US$ 400 bilhões esse ano. Assuma, em um cenário relativamente benigno, que tudo isso é dirigido por seus credores – a China lidera a lista – para comprar a dívida americana. Não esqueça que essa alocação integral no tesouro não é certa: alguns países podem decidir que comprar ações de empresas americanas, imóveis ou companhias inteiras faz mais sentido do que investir em títulos do tesouro. Insatisfação com relação a esse efeito têm começado a aumentar recentemente.

Então pegue o segundo elemento do cenário – pegar empréstimo de nossos próprios cidadãos. Assuma que os americanos economizam US$ 500 bilhões, muito além do que eles têm economizado recentemente, mas talvez consistente com a mudança de humores recente. Finalmente, assuma que todos esses cidadãos optem por colocar todas as suas economias em títulos do tesouro (parcialmente, por meio de bancos intermediários).

Mesmo com essas pressuposições heróicas, o Tesouro terá que ser obrigado a encontrar mais US$ 900 bilhões para financiar o restante dos US$ 1.8 trilhões de dívida que está emitindo.

As impressoras de dinheiro de Washington terão que fazer hora extra. Desacelerá-las irá requerer extraordinária vontade política. Com as despesas governamentais equivalendo a 185% das receitas, serão necessárias mudanças drásticas nos impostos e nas despesas. Uma economia ressuscitada não pode chegar perto de resolver esse tipo de problema. Os legisladores deverão corretamente perceber que aumentar os impostos ou cortar despesas irá ameaçar sua reeleição. Para evitar esse destino, eles podem optar por altas taxas de inflação, o que nunca requer um voto registrado e não pode ser atribuída a uma ação específica de qualquer representante eleito. De fato, John Maynard Keynes, há muito tempo, estabeleceu um mapa para a sobrevivência política no meio de um desastre econômico desse tipo: “Por meio de um processo contínuo de inflação, os governos podem confiscar, secretamente, uma importante parte da riqueza de seus cidadãos… esse processo recruta todas as forças escondidas da economia para o lado da destruição, e faz isso de um modo que nenhum homem em um milhão é capaz de diagnosticar”.

Quero enfatizar que não há nada de mau ou destrutivo em um aumento de dívida que seja proporcional a um aumento na renda ou no patrimônio. Quando os recursos de indivíduos, empresas e países crescem, cada um pode lidar com mais dívida. Os Estados Unidos permanecem de longo o mais próspero dos países da Terra, e sua capacidade de suportar déficits crescerá no futuro como cresceu no passado.

Mas era um homem sábio quem disse: ” Tudo o que quero saber é onde vou morrer, para que nunca vá até lá”. Nós não queremos que nosso país tenha a economia de República das bananas descrita por Keynes.

Nosso problema imediato é colocar nosso país de volta a seus pés e florescendo – “custe o que custar” ainda faz sentido. Uma vez que a recuperação esteja estabelecida, contudo, o Congresso previsa acabar com o aumento na relaçaõ entre dívida e PIB e manter o crescimento de nossas obrigações em linha com o crescimento de nossos recursos.

A emissão descontrolada de carbono irá provavelmente causar o derretimento de icebergs. A emissão descontrolada de dinheiro (greenback emissions) certamente irá levar ao derretimento do poder de compra. O destino do dólar está com o Congresso.”

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Sobre o autor ()

Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB. Atualmente, é doutorando em direito pela mesma universidade. É autodidata no mundo dos investimentos e tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.

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