A taxa de crescimento dos dividendos
Normalmente, o investidor que compra ações com o objetivo de receber dividendos futuros se preocupa apenas com o “dividend yield”, que é a relação entre a cotação e os dividendos pagos pela ação. Se uma ação custa R$ 20,00 e paga R$ 2,00 a tÃtulo de dividendos, seu dividend yield é de 10% (2/20). Bom, hoje escrevo sobre uma questão um pouco diferente, que é muito pouco abordado: a taxa de crescimento dos dividendos, que reflete o comportamento dos dividendos ao longo dos anos.
1. Os dividendos de boas empresas crescem aos poucos
O seguinte exemplo ilustra bem a questão: digamos que um investidor tenha investido R$ 100.000,00 em uma empresa que pagasse, na época, 3,5% de dividendos em relação à sua cotação, em 2001. Isso significa que ele receberia R$ 3.500,00 de dividendos naquele ano.
Parece pouco, não é? Mas digamos que os dividendos pagos por essa empresa cresçam bastante, uns 30% ao ano. Em 2002, ele teria recebido R$ 4.550,00, ou 4,5% de rentabilidade. Parece pouco, não é? Afinal, em 2002, a taxa Selic estava nas alturas, pagando muito mais do que isso. Mas, em 2003, a ação pagaria de dividendos R$ 5.915,00, aumentando a rentabilidade para 5.9% ao ano, a rentabilidade aproximada da poupança. Encurtando a conversa, em 2008 o investidor teria recebido em dividendos R$ 21.916,00, uma rentabilidade de 21,91% sobre o investimento inicial – ou quase 3 vezes o valor que a taxa Selic está pagando atualmente. Se ela continuar nesse ritmo, em 2015 pagaria fantásticos R$ 137.808,17 de dividendos, mais que o valor investido em 2001 (uma rentabilidade naquele ano de R$ 137%!!!). E sem que o investidor tenha adquirido uma única ação a partir de então. Imagine se ele reinvestisse os dividendos recebidos a cada ano em novas ações da empresa…
O que aconteceu? A empresa não era uma pagadora apenas razoável de dividendos, pois paga apenas uns 3,5% de dividendos ao ano?
Sim, a empresa paga apenas aproximadamente isso ao ano. Mas isso não significa dizer que ela é uma má pagadora de dividendos. O dividend yield mascara um elemento que pode ser fundamental para a rentabilidade do investidor: a taxa de crescimento dos dividendos.
2. O dividend yield não reflete o crescimento dos dividendos ao longo dos anos
Quando utilizamos o dividend yield, temos acesso apenas à razão entre a cotação e os dividendos pagos em um único ano. Se a empresa for boa, o seu lucro anual crescerá e, ao longo dos anos, sua cotação crescerá — e mesmo que o valor pago a tÃtulo de dividendos cresça, o dividend yield pode permanecer estável ou mesmo diminuir. Ou seja, o valor pago em dividendos por cada ação cresce, mas como o preço da ação também aumenta, o dividend yield permanece estável.
Exemplifico, voltando ao exemplo anterior: se a taxa de crescimento dos dividendos aumentou 30%, e a cotação da ação aumentou também 30%, seu dividend yield permaneceu igual. Se a cotação aumentou mais do que 30%, isso significa que o dividend yield atual é inferior ao de 2001!
Agora, um exemplo real: o da Randon Participações (uso os dados da RAPT4).
Em 2001, cada ação RAPT4 pagou em dividendos R$ 0,02, e a ação teve um preço médio no ano de R$ 0,38 – um dividend yield de 5,2%. Assim, um investidor que tenha comprado R$ 100.000,00 de RAPT4 no preço médio da ação teria comprado 263.157 ações e receberia de dividendos R$ 5.263,14.
Em 2002, a empresa passou a pagar R$ 0,06 de dividendos por ação, um crescimento assombroso de 300%. Ou seja, o investidor receberia R$ 15.789,42 em dividendos, em 2002. Como a cotação da ação subiu para um preço médio de R$ 0,70, o dividend yield em 2002 foi de 8,5%. E o patrimônio do investidor em ações subiu de R$ 100.000,00 para R$ 184.209,90.
Em 2003, teriam sido R$ 31.578,00 em dividendos, pois a empresa pagou, por ação, R$ 0,12. Em 2008, para resumir a conversa, seriam R$ 118.420,65, já que a empresa pagou R$ 0,45 por ação. E o investidor teria recebido em dividendos, no total, R$ 452.630,04, entre 2001 e 2008.
No perÃodo, a taxa média de crescimento anual dos dividendos foi de 56,02% — ou seja, a cada ano, em média, tem pago mais de 50% a mais de dividendos do que pagou no ano anterior.
Há empresas mais “famosas” que também têm tido uma taxa boa de crescimento de dividendos. No caso da Petrobras, por exemplo, a taxa é de 14,95% entre 2001 e 2008. A Vale, por sua vez, tem uma taxa de 17,82%. É um acelerador e tanto para as economias pessoais…
No caso da PETR4 (Petrobras), alguém que tivesse investido R$ 100.000,00 em 2001, a um preço médio de R$ 4,52, teria recebido, em 2008, R$ 25.220,22 – uma rentabilidade sobre o investimento inicial de 25,22%…
3. Diversificação é importante: nada garante o crescimento contÃnuo dos dividendos!
É importante observar que não há garantia nenhuma de que essas taxas se repetirão no futuro. O investidor precisa estudar cada empresa em que pretende investir para verificar sua solidez e perspectivas futuras. Além disso, as empresas citadas foram utilizadas apenas como estudos de caso, não significando que eu as esteja recomendando para investimento. Mas não custa dar uma olhadinha nas empresas que costumeiramente pagam bons e crescentes dividendos…
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ótimo post. muito interessante essa visão que vc deu aos dividendos. As vezes ficamos bitolados, verificando o dy isoladamente.valeu
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Parabéns pelo artigo!
É por isto que eu gosto deste blog, ele aborda questões que os supostos "especialistas em finanças" não abordam.
Abcs
Sei que é apenas um exemplo, mas a taxa de crescimento de 30% a.a. para dividendos seria algo bem alto, conseguiria me dizer uma empresa brasileira que manteve algo próximo disso por periodos de 10, 15 anos?