Como escolher ações – a minha estratégia

12 de julho de 200918 comentários

Hoje escrevo sobre o modo pelo qual realizo meus investimentos em ações. Que fatores levo em consideração antes de decidir onde colocar meu rico dinheirinho em ações? Já toquei no assunto por alto, mas achei interessante fazer uma discussão um pouco mais detalhada, a pedido de um amigo (valeu Marcelo!).

Bom, os principais fatores que levo em consideração ao decidir em que empresa investir são os seguintes:

1) Crescimento constante do lucro por ação (LPA) ao longo dos anos.

O LPA (o lucro da empresa relativo a cada ação individual) é uma medida interessante para avaliar tanto como o lucro da empresa se comporta ao longo do tempo quanto o modo pelo qual ela trata os acionistas.

Uma empresa cujo LPA cresce constantemente fornece uma certa previsibilidade para os investimentos. Digamos, por exemplo, que o LPA de uma empresa tem crescido constantemente a uma razão média de 20% nos últimos 10 anos – ou seja, no ano corrente ela conseguiu um LPA 20% superior ao do ano passado, e no ano passado, um LPA 20% superior ao do ano anterior, em média. Nesse caso, eu posso formular uma previsão simples: a de que no ano seguinte o seu LPA será aproximadamente 20% superior ao deste ano.

Claro, essa é uma previsão que pode ou não se realizar. Pode haver uma crise econômica e o LPA crescer apenas 5%, ou não crescer, ou ainda decrescer um pouco. Pode haver, pelo contrário, um grande crescimento econômico e o LPA crescer 50% em um único ano, ou então a empresa pode vender uma parte de seus ativos e o LPA dobre num único ano (caso em que o crescimento seria suspeito, já que se deveria a uma venda de sua capacidade produtiva!). É preciso investigar os motivos do crescimento do LPA, portanto.

Um exemplo ilustra o como esse é um indicador importante para prever o lucro que podemos ter com uma ação. Digamos que uma empresa hipotética – a TVAS1 tenha um crescimento médio de 20% em seu LPA nos últimos 10 anos, e que ela seja normalmente comercializada a um índice P/L de 5. Isso significa que o preço da ação é normalmente 5 vezes maior do que o lucro que a empresa reflete em cada ação individual: ou seja, se a ação custa R$ 5,00, o lucro que ela deu para aquela ação (seu LPA) é de R$ 1,00. Se o LPA cresce a uma média de 20% ao ano, em 2019 (daqui a 10 anos), eu posso formular a previsão, mantido o ritmo de crescimento, de que seu LPA será de aproximadamente R$ 6,19. E se o índice P/L se mantiver em 5, sua cotação será de R$ 30,95. Ou seja, um ação que comprei hoje a R$ 5,00 custará aproximadamente R$ 30,95 em 2019 – um rendimento total de 519% em 10 anos!

2) Um índice P/L baixo

Outro fator importantíssimo é o índice P/L da ação. Um índice mais baixo significa que a ação está “barata”; e um índice mais alto significa que a ação está muito “cara”. O problema é saber quando a ação está barata ou cara: qual o P/L devemos considerar. Há um valor absoluto? Ou seja, existe um valor de P/L “x” abaixo do qual deveríamos comprar e acima do qual deveríamos vender ou manter a ação?

Acredito que não. O índice P/L é relativo às peculiaridades de cada setor econômico e de cada empresa. Uma empresa que pague bons dividendos do setor de consumo pode estar barata a um P/L 10, e uma empresa do setor de siderurgia pode estar caríssima nesse patamar. Eu, particularmente, adoto a seguinte postura: calculo o P/L médio da empresa nos últimos 5 anos e, se a cotação estiver abaixo da metade desse P/L, eu entendo que o ativo está barato segundo esse critério.

Por exemplo: no exemplo anterior, a ação TVAS1 tinha um P/L médio de 5,00 nos últimos 5 anos. Se ela estivesse negociada a 2,5, seria um bom preço. Isso não quer dizer que a ação não seria atrativa caso estivesse negociada a um P/L de 5,00 – como visto no exemplo passado, mesmo comprada a um P/L de 5,00, caso ela mantivesse o ritmo de crescimento de seu LPA, eu poderia esperar uma rentabilidade fantástica para os próximos 10 anos.

A única coisa que não faria muito sentido seria comprar a ação a um P/L muito alto, porque no futuro as cotações tenderiam a ser corrigidas. Não adianta muito pagar um preço muito alto por uma empresa fantástica. Vejamos com exemplos concretos como isso pode ocorrer:

a) Digamos que a ação TVAS1 seja negociada hoje a um P/L de 15,00. Nessa hipótese, levando-se em consideração que o LPA atual é de R$ 1,00, isso significa que a cotação da ação é de R$ 15,00. Ocorre que, pelas previsões feitas anteriormente, o LPA da ação em 2019 será de aproximados R$ 6,19, e o índice P/L médio da ação é de 5,00. Nessas circunstâncias, a cotação esperada da ação em 2019 é de R$ 30,95. Não há qualquer base racional para se esperar que a ação será cotada a um preço maior do que esse no futuro – a não ser puro otimismo. Caso as expectativas se confirmem, contudo, a rentabilidade média do investimento será de 7,51% ao ano, bem abaixo da SELIC (contra os 20% anuais caso a ação tivesse sido adquirida a R$ 5,00, no P/L médio). A rentabilidade total seria de 106,33% (bem inferior aos 519% do caso anterior).

b) Mas poderíamos adquirir a ação, numa crise econômica, a um P/L bem mais baixo que o médio. Suponhamos que o pequeno investidor tenha a sorte de comprar a ação, hoje, a um P/L de 2,5. Isso significa que ele compraria a ação a R$ 2,50. Se a previsão se confirmar e em 2019 o LPA for de R$ 6,19, e a ação estiver a um P/L de 5,00, sua cotação será de R$ 30,95. Nessa hipótese, sua rentabilidade média anual será de incríveis 28,61%, e sua rentabilidade total, de 1.168%!

3) Crescimento constante do VPA (Valor Patrimonial por Ação)

Também costumo avaliar se o valor patrimonial por ação da empresa é crescente. O VPA é um indicativo de que a empresa tem ampliado seu patrimônio – comprando mais prédios, mais equipamentos, computadores, fábricas, patentes, etc. Se a empresa for eficiente, um aumento constante no VPA será um indicador de que a empresa tem sustentação para manter um crescimento constante do seu LPA ao longo dos anos.

Peguemos, por exemplo, o caso da Vale do Rio Doce. Entre 2001 e 2008, observem o crescimento do seu VPA:

2,19
2,38
2,78
3,39
4,48
7,29
10,63
17,94

É um crescimento fantástico (de 719% ) no aumento de seu patrimônio, que também se refletiu no seu LPA, no período:

0,57
0,38
0,84
1,2
1,95
2,5
3,73
3,97

Observem que o VPA também é um indicador do quão barato está uma ação. Às vezes, em períodos de irracionalidade do mercado, a ação está cotada a um valor inferior a seu valor patrimonial. Isso significa dizer que o investidor pode comprar uma empresa a um valor inferior ao que suas máquinas e seus prédios valem! Ou seja, mesmo que a empresa entre em processo de falência e não dê lucro algum nos próximos anos, o investidor teria lucro.

No caso da Vale, por exemplo, a ação da empresa c
hegou a ser cotada a R$ 20,24 centavos no fim do ano passado, ao passo que o valor patrimonial correspondente, sem se verificar os lucros da empresa, seria de R$ 17,94.

4) Dívidas equacionadas

Dívidas podem arruinar a vida de uma pessoa – e de uma empresa também! Mas há dívidas boas e dívidas ruins. Dívidas boas são aquelas que são revertidas a empreendimentos que se mostrarão mais lucrativos no futuro – ao ponto de pagarem a dívida e promover ainda um bom lucro. Mas as dívidas ruins, que não se revertem em lucro para o devedor, arruinam qualquer empreendimento.

É importante também analisar as dívidas da empresa e o seu perfil (dívida boa ou dívida ruim?). Do ponto de vista quantitativo, eu gosto de usar um indicador para avaliar a dívida de uma empresa: a relação entre seu lucro e sua dívida. Essa relação fornece uma resposta interessante à seguinte pergunta: em quantos anos a empresa poderia pagar suas dívidas apenas com seus lucros?

Voltemos à empresa TVAS1: ela tem um LPA de R$ 0,20. Digamos que a dívida por ação da empresa seja de R$ 1,00. Ou seja, cada ação dela “deve” 1 real, mas lucra 0,20 real por ano. Isso significa dizer que, mantido o atual patamar da dívida e dos lucros, a empresa pagaria todas as suas dívidas em 5 anos (R$ 1,00/R$ 0,20). Não é tão mal, levando-se em consideração que algumas empresas têm linhas de crédito de 20 ou 30 anos!

5) Boa administração (indicada por um ROE alto)

Outro fator interessante a ser analisado é o ROE (Return on Equity, ou Retorno sobre o Patrimônio) da empresa. O ROE indica a taxa de retorno da empresa, calculada sobre seu patrimônio. Alguém que tenha uma casa que custa R$ 200.000,00 e a aluga a R$ 2.000,00, em um ano obtém R$ 24.000,00. Seu ROE é de 12% (24.000/200.000). Com as empresas, é a mesma coisa: o ROE indica o quanto ela obtém de retorno levando-se em consideração seu patrimônio. Um ROE alto (acima de 12%) indica que a empresa tem vantagem competitiva durável. Um ROE baixo, por sua vez, indica incompetência administrativa.

6) Uma boa relação L/P

Outro índice interessante é o L/P (o inverso do P/L). Ele indica precisamente o lucro inicial que você pode esperar obter de seu investimento, e serve para comparar com outro investimento qualquer. Se outro investimento render acima do valor L/P, é melhor investir nele do que na ação, porque não é razoável esperar ganhar mais com ela.

Eu costumo utilizar como parâmetro a taxa SELIC. Vejamos como isso funciona:

Digamos que o índice P/L atual da ação TVAS1 seja de 5. Isso significa que o índice L/P dela é de 0,20. Esse índice é calculado invertendo-se o P/L. Se o P/L é de 5, seu L/P é de 1/5 = 0,20 (ou 20%). Se a taxa Selic está em 9,25%, é melhor investir na ação, já que sua taxa inicial de retorno é de 20%! Simples assim!

7) Reinvestimento crescente dos lucros

Outro ponto interessante a ser examinado é o destino dado pela empresa a seus lucros. Ela os converte integralmente em dividendos ou ela os reinveste em sua capacidade produtiva?

Eu costumo dividir as empresas em 2 grupos: (i) empresas que já cresceram seu potencial e não poderiam obter melhores resultados reinvestindo os lucros e, portanto, fazem melhor distribuindo dividendos; e (ii) empresas que ainda têm muito potencial para crescer e reinvestem os lucros na capacidade produtiva.

É importante avaliar, no segundo tipo de empresa, se ela tem um aumento constante no reinvestimento de seus lucros. Como calcular isso?

Uma maneira fácil de se calcular é descontando os dividendos do lucro da empresa. Como os dividendos devem ser preferencialmente retirados dos lucros da empresa, o que sobra é destinado ao reinvestimento em sua atividade produtiva.

Volto ao caso da Vale do Rio Doce, para ilustrar com um exemplo real. Entre 2001 e 2008, seus lucros por ação se comportaram da seguinte maneira:

0,57
0,38
0,84
1,2
1,95
2,5
3,73
3,97

A empresa pagou em dividendos os seguintes valores, no mesmo período:

0,33
0,19
0,36
0,42
0,58
0,52
0,67
1,04

Em 2001, a empresa reteve 0,24 de seus lucros por ação (0,57-0,33=0,24). Os lucros retidos por ação no período (2001-2008) foram os seguintes:

0,24
0,19
0,48
0,78
1,37
1,98
3,06
2,93

Como se vê, a taxa de reinvestimento dos lucros tem crescido constantemente ao longo dos anos – houve recuo apenas entre 2001 e 2002 e entre 2007 e 2008, períodos de crise mundial. Mas em 2008, ainda assim, a Vale reinvestiu um montante superior a de 10 vezes o que ela havia reinvestido em 2001!!

Basicamente, são esses os indicadores que levo em consideração ao procurar uma ação para investir. Ela deve preencher todos os indicadores, ou caso não preencha algum deles, deve haver uma boa razão que explique esse fator.

Cada investidor deve descobrir suas razões para escolher uma ou outra empresa: as minhas são basicamente estas.

Boa sorte nos investimentos!

PS1: O estudo a partir da Vale do Rio Doce não é uma recomendação de compra.
PS2: O conteúdo do tópico também não é uma recomendação para que o leitor utilize a estratégia aqui descrita para selecionar suas ações. Cada um é o único responsável por suas decisões financeiras!

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Comentários (18)

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  1. Blogs da ADVFN Brasil » Compreendendo os indicadores fundamentalistas | 16 de novembro de 2010
  1. Toninho disse:

    Fábio,Muito bom!AntonioComunidade B&H

  2. Marcelo disse:

    Fábio, desculpe não ter entrado em contato antes, mas você já sabe que esse seu amigo aqui vive enrolado. Enfim… o blog está muito bom e suas estratégias são as melhores possíveis! Às vezes acho o amigo muito conservador, todavia, conforme já havia lhe falado, colocaria, sem medo algum, minha grana pra você administrar…E o nosso almoço?Abraço!

  3. Alexandre disse:

    Muito legal, Fábio.Agora, falta só você dizer em que você está comprado, para dar uma idéia de como você operacionalizou isso.

  4. Fábio Portela disse:

    Tem outro tópico em que digo em que estou comprado… mas são as seguintes ações: PETR4, VALE5, GGBR4, ITUB4, POMO4, RAPT4, SLED4, CPFE3, TRPL4, FESA4, COCE5, USIM5, BRSR6

  5. Anonymous disse:

    "um LPA de R$ 1,00. Digamos que a dívida por ação da empresa seja de R$ 0,20. Ou seja, cada ação dela "deve" 20 centavos, mas lucra 1 real. Isso significa dizer que, mantido o atual patamar da dívida e dos lucros, a empresa pagaria todas as suas dívidas em 5 anos (R$ 1,00/R$ 0,20). Não é tão mal, levando-se em consideração que algumas empresas têm linhas de crédito de 20 ou 30 anos!"Nesse exemplo, você não quis dizer "uma dívida por ação de R$1,00 e um LPA de R$0,20 por ação"? Dessa forma, ficaria (dívida/lucro) = (1,00/0,20) = 5 anos.

  6. Fábio Portela disse:

    De fato, havia uma falha no texto, que está devidamente corrigida!

  7. joao disse:

    Fábio,

    Parabéns pelo blog… descobri só ontem e agora tô vidrado lendo tudo que está escrito aqui!!
    Muitos destes índices que você citou a gente encontra facilmente no Fundamentus.com.br, mas alguns outros como evolução do LPA e do VPA ao longos dos anos, por exemplo, não vemos de imediato… Você poderia dizer as fontes de onde você coleta essas informações?
    Muito obrigado e parabéns novamente pelo blog! Ótima fonte de boa educação financeira.. muito raro na internet brasileira!!

    • Fábio disse:

      Obrigado pelos elogios, João. Quanto aos índices, você consegue encontrá-los analisando os balanços das empresas ao longo dos anos. O INI também tem uma plataforma, mas para acessá-la é necessário se afiliar, pagando a adesão (e renovação anual). Não é caro (não sei quanto custa agora, ano passado paguei R$ 100,00 pela renovação (pouco mais que um livro): vale a pena, tanto pelos dados consolidados, quanto pelas ferramentas de educação disponibilizadas. O link é http://www.ini.org.br

  8. Fabiano disse:

    Olá Fábio,

    Uma vez escolhida as empresas, como vc escolhe entre a PN e a ON? Pensando em longo prazo, e uma possível mudança de controle, pesaria pelo tag along? Somente as ON em função do direito a voto? Maior dividendo?

    Desde já agradeço,
    Fabiano

    • Fabio disse:

      Tudo depende do investidor. Eu prefiro as PNs, porque têm preferência no pagamento de dividendos. Nada contra ONs, contudo, que normalmente têm tag along maior, no caso da venda da empresa…

  9. Fabiano disse:

    Legal Fabio,

    Concordo com vc em relação à preferência no pagamento dos dividendos, porém, muitas empresas hoje já estão pagando igual tanto para as PNs quanto para as ONs.

    Vou citar 3 exemplos:

    RAPT: paga dividendos iguais, tem tag along de 80% para as 2 classes de ações, porém, a diferença nas cotações é de 20% a mais para as PNs. O que pesa contra é a baixíssima liquidez das ONs.

    POMO: tbém paga dividendos iguais, tem tag along de 100% somente para as ONs e 80% para as PNs, e mesmo assim a diferença entre elas é de mais de 20%. Tbém tem baixa liquidez.

    CMIG: tbém paga dividendos iguais, e a diferença entre elas é de 75%. Não achei cláusula de tag along para nenhuma das classes.

    Ou seja, a conclusão que eu tiro ao menos para essas empresas, é que, tirando a baixa liquidez de todas, as ONs são bem melhores para termos em carteira para longo prazo, pois tem percentual de tag along igual ou melhor e ainda pagam mais (proporcionalmente) dividendos. Estou correto na minha avaliação?

    Mais uma vez obrigado,

  10. Eu jah vi que vou me tornar leitor assiduo do seu blog… Agora, sobre este post, voce nao usa aquele esquema de fluxo de caixa descontado? Eu estou comecando a usar essa ferramenta a la buffett e gostariande saber a sua opiniao. desculpas se voce jah escreveu sobre isso.. abracos

    • Fabio Portela disse:

      Vida boa Investimentos,
      Eu também uso o fluxo de caixa descontado, e é uma ferramenta interessante sim. Mas ainda não escrevi sobre o tema!

  11. Cleber disse:

    Excelente artigo! A minha dúvida é como obter todos esses parâmetros históricos? Você poderia indicar uma ou mais fontes de consulta? Grato.

    • Ricardo disse:

      http://www.fundamentus.com.br

  12. alexandre disse:

    olha eu gostei muito do seu site. pude aprender bastante sobre investimento em ações.
    gostaria de saber o que vc pensa sobre fundo de ações.
    tenho pouco dinheiro para investir. o que seria melhor?
    comprar ações direto ou através de um fundo?

    • Fábio Portela disse:

      Já respondi a essa questão em neste artigo e aqui.

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