Os delírios de consumo de Becky Bloom

27 de abril de 2009Sem comentários

Hoje escrevo sobre um filme ao qual assisti semana passada: Os delírios de consumo de Becky Bloom (em inglês, Confessions of a shopaholic). O filme, adaptação de uma série de livros escritos por Sophie Kinsella, é uma grande aula sobre como nossos hábitos de consumo podem se tornar o principal obstáculo à nossa felicidade.
O filme narra a história de uma jornalista recém-formada da universidade, Rebecca Bloowood (Isla Fisher). A protagonista é uma garota fútil e sonhadora que, apesar da enorme quantidade de dívidas (e roupas!) e de estar desempregada, não consegue controlar seu ímpeto consumista. A ironia da situação é que, apesar de seus hábitos nada sustentáveis de consumo, Rebecca consegue um emprego como escritora de um editorial em um jornal financeiro, para falar de… finanças pessoais!

Apesar de bastante caricato ao retratar consumistas (os shopaholics), o filme ilustra várias situações reais pelas quais os viciados em consumo passam, desde a utilização de vários cartões de crédito até o limite e a compra de peças de roupa absolutamente inúteis até a própria ruína da vida financeira e pessoal em razão dos péssimos hábitos de consumo.

A grande virtude do filme é tratar o controle das finanças pessoais como uma virtude, e os maus hábitos de consumo como um vício tão grave quanto o alcoolismo – tanto que algumas das melhores cenas se passam em reuniões dos “consumistas anônimos”, grupo assemelhado ao dos “alcóolicos anônimos”. Além disso, o filme mostra claramente como a vida pessoal (inclusive a vida amorosa) pode ser literalmente arruinada pelo consumismo desenfreado.

Concordo com essa premissa: a vida financeira de uma pessoa diz muito sobre seu caráter. Saber economizar um pouco do salário de cada mês mostra como alguém sabe planejar sua vida e agir de acordo com suas prioridades. Mostra como a pessoa pode ser paciente e capaz de adiar seu consumo em prol de conquistas maiores no futuro. Se endividar para comprar uma roupa ou um sapato novo, por outro lado, ilustra bem a incapacidade de auto-controle e de estabelecimento de prioridades de uma pessoa.

E isso tudo se transforma em uma bola de neve, transformando o consumista em um pálido reflexo de si mesmo, alguém cuja única preocupação é obedecer aos ditames do próximo objeto de desejo. No caso do filme, por exemplo, Becky mente para si mesma ao inventar motivos para comprar uma echarpe bem cara, mesmo devendo mais de US$ 16.000,00; e mente para os outros, ao inventar milhares de desculpas para aqueles que cobram suas dívidas. Mente para o empregador, ao redigir editoriais sobre finanças pessoais. Mente para o namorado, e mente para a melhor amiga. Na vida real, não são raros os casos de pessoas que se suicidam, se isolam dos amigos e se divorciam pelo simples fato de que não sabem se controlar. Há quem ganhe R$ 20.000,00 por mês e ainda assim se endivide, pelo simples fato de que seu padrão de consumo é incompatível com a sua renda. E se essa mesma pessoa passar a ganhar R$ 100.000,00 por mês, nada irá mudar, porque sempre haverá a necessidade de adquirir novos produtos mais caros que os anteriores: um carro melhor, uma casa melhor, jóias.

Enfim, não concordo com boa parte das críticas que consideraram o filme vazio e uma apologia ao consumismo, em razão de a protagonista não ter “sofrido mais” pelos hábitos de consumo. Pelo contrário, considero que o filme mostrou bem alguns dos problemas pelos quais os consumistas passam, ao tratar do consumismo exarcebado, mesmo que de maneira leve e divertida, como uma doença que precisa ser tratada! Considero fantástico que o cinema tenha tematizado essa questão em um momento tão grave para a economia mundial, em cuja raiz está, sem sombra de dúvidas, o consumismo desenfreado.

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